Sair do mundo

Há alturas em que tenho a sensação de que sou um tipo realmente estranho. Pelo menos é o que as expressões das pessoas a quem falo destas coisas dão a entender.

Por exemplo, tenho andado cansado, stressado e irritável nos últimos tempos. Ora, cada um lida com o stress de forma diferente. Isso é normal. Mas quando eu disse que, para mim, “descansar” era passar o dia inteiro em casa, em pijama, sem dizer uma palavra a ninguém, toda a gente olhou para mim como se tivesse dito, com o ar mais sério do mundo, que venho do Planeta X para estudar as defesas da Terra de forma a maximizar a eficiência da sua total conquista. (bolas, apanharam-me!)

O que as pessoas não entendem é que, pelos vistos, para quase toda a gente no mundo, conviver é algo perfeitamente normal, instintivo – como andar ou respirar. Para mim, não. Mesmo conviver com amigos e família implica sempre algum stress – afinal, já não estou sozinho, já tenho de medir o que digo ou faço, já não posso estar 100% à vontade. Já tenho de agir de uma forma ligeiramente diferente da que ajo quando estou sozinho.

E relaxar é uma coisa que demora. Há pessoas que conseguem dormir por 1 ou 2 horas e ficar mais descansadas; para mim, isso só me deixaria pior (acordar quando finalmente estou a adormecer). Descansar, para mim, é algo a fazer em grandes doses. É como se o coração normalmente batesse a uma velocidade demasiado rápida, como se tivesse, por exemplo, acabado de correr. Ora, ao parar de correr, o coração não volta logo à velocidade normal, pois não? Demora uns minutos (dependendo da forma física e da intensidade do esforço). Para mim, o descanso psicológico funciona da mesma forma – em doses grandes. Um dia em que esteja descansado a maior parte do tempo mas em que tenha de sair ao fim do dia ou à noite pode ser um dia agradável e divertido, e a saída em questão pode ser óptima, mas não é um “dia de descanso”.

Este domingo, finalmente tive um. Implicou desligar os telemóveis e não ver o mail entre sábado à noite e hoje (segunda) de manhã. Mas teve como resultado um sossego que já não me lembrava de ter, uma paz de espírito que já não pensava ser possível. As únicas palavras que disse todo o dia foram para os gatos.

Hoje, sinto que precisava de mais. Mas o que tive foi óptimo.

3 Comentários a “Sair do mundo”

  1. tao diz:

    🙂
    😀
    Tão querido!!! 🙂

    E os gatos devem ter apreciado! 😈

    Qto à necessidade de medir as palavras…
    Sabes, à medida que envelheço/amadureço/cresço (intelectual e emocionalmente, claro), cada vez menos me preocupo com o que os outros possam ou não pensar daquilo que faço ou digo.
    Ainda não atingi aquele nirvana de 100% nas tintas, mas já devo andar nos 80%! 😀

    E isso faz com que não me preocupe muito em medir aquilo que digo ou faço, muito menos se estiver com amigos e pessoas com quem me sinto à vontade.

    E se os meus amigos me conhecerem de facto, tudo aquilo que eu possa ou não dizer-lhes não os vai chocar, porque eles já me conhecem. A Marta grande, por exemplo, já sabe qual vai ser a minha reacção (seja ela boa ou má) antes mesmo de eu própria saber. 😀

    E se te permitires ter amigos e lhes permitires aproximarem-se, vais ver que eles vão opinar sobre o que não lhes diz respeito, mas que tb não se vão assustar qd os mandares às urtigas por o fazerem.

    Devias experimentar. 😉
    É tão “addicting” como o Grid Runner ++!!

  2. Gunn Boom diz:

    Quanto ao Grid Runner ++ não sei, mas que realmente os amigos percebem quando se está bem ou mal e sabem lidar com isso mais ou menos bem, dependendo também da mood deles, é verdade.

    Haja diálogo, haverá entendimento. Haja palavra, haverá pensamento! 🙂

  3. Não sou ortodoxo como você, mas confesso que me identifiquei com teu texto. Por vezes quero ficar sozinho, sem nenhum contato com outras pessoas, a fim de descansar, relaxar. Uma pena que praticamente ninguém me entenda…

    []’s