UAQ sobre a entrada anterior

UAQ = “unfrequently asked questions”. Se bem que é um eufemismo. 🙂

  1. “estás maluco?!? tens um emprego estável e queres deitar isso a perder?!?”
    Típica obsessão portuguesa por “um emprego estável”. É como se isso fosse a coisa mais importante do mundo, pela qual vale a pena sacrificar tudo, incluindo o nosso bem estar, auto-estima, integridade, personalidade, saúde, sonhos…
    Desculpem, mas eu não sou assim.
  2. “mas qual é o teu problema, afinal? não sabes que há incompetentes, micro-managers e gente falsa e intriguista em todo o lado?”
    Eu não estou “em todo o lado”. Isso é tão absurdo como votar num mau governo por acreditar que “são todos desonestos” (e são, em geral). Nesse caso, quem faz “porcaria” deve ser punido – se os próximos a fizerem, serão punidos também. Aqui é a mesma coisa: se estou mal, mudo-me, e se estiver mal no futuro, mudo-me outra vez. Aceitar situações de m*rda em nome da “estabilidade”, ou porque “isto é assim em todo o lado”, é completamente imbecil e cobarde – e é por isso, em parte, que o mundo está como está. But I digress.
  3. “mas porque é que não te adaptas?”
    Porque o que, de certa forma, esperam de mim (e de toda a gente) é que eu seja como eles. Que seja desonesto, que minta quando isso me “convém”, que finja que estou ocupado quando não o estou, que entre nos joguinhos de poder e nas intrigas infantis deles. Que deixe de dar importância ao “be good” e passe a dá-la ao “look good”. E eu recuso-me a fazê-lo. Recuso-me mesmo – entre a minha integridade e o meu emprego (qualquer emprego), não há nem um segundo de hesitação.
  4. “só é preciso ser honesto com quem o é para nós; eu não teria qualquer problema em enganar gente como essa.”
    Força. Não te critico por isso, mas eu sou diferente. Desonestidade é desonestidade, é uma evasão à realidade, que eu não faço. Ao ser desonesto, a maior vítima sou eu próprio, estou a comprometer a minha integridade, aquilo que acho certo. E, pior que isso, ao ser desonesto com esta gente estaria a deixar que esta gente me tornasse desonesto. Estaria a corromper-me por causa deles. Eles não merecem isso.
  5. “vais fazer um sacrifício destes por causa desta gente? vais-te prejudicar por causa deles?”
    Aqui temos definições diferentes de “sacrifício”. Para muita gente, quando se tem dinheiro para um gelado e nos apetecem 2 diferentes, estamos a fazer um “sacrifício” ao não comer um deles. Para mim, está-se a aplicar mal a palavra. “Sacrifício” é quando tomamos a decisão errada, a que nos prejudica. Por exemplo, se eu deixo de comprar um jogo para comprar comida para os gatos, não é um “sacrifício” – é mais importante para mim que os gatos estejam alimentados do que ter um jogo novo. Seria um sacrifício, sim, se eu só o fizesse porque é o que esperam de mim, e realmente preferisse ter o jogo.
    Aqui é a mesma coisa. Ao dizerem que me estou a sacrificar por eles, não compreendem que ficar é que é o sacrifício. Que ficar é trocar o que realmente é importante para mim (a minha integridade, a minha saúde mental, o “gostar de mim mesmo”, o “eu mesmo”) por algo que, sendo útil, não é assim tão vital (o emprego, e a relativa estabilidade financeira). É dar o bom em troca do mau. Isso, sim, é um sacrifício. E é, também, estúpido.
  6. “já estás mal de finanças, e vais deixar um emprego e ainda por cima contrair mais dívidas?”
  7. Se necessário. Do que é que me serve o emprego e “menos dívidas” se não gostar de mim mesmo? Se continuar a perder, a pouco e pouco, a alegria de viver? Se não tiver orgulho no que faço? Se não me sentir bem comigo mesmo? Se perder aquilo que me torna especial? Se me tornar, como as “pessoas normais”, um tipo falso, que só se interessa pelas aparências, sem qualquer tipo de escrúpulos, e que diz e faz o que quer que lhe “convenha” para obter sucesso? Esse verme desprezível (não lhe posso chamar outra coisa) ainda seria eu? Não me parece. “Viver” não é só o sangue continuar a circular no corpo, e se eu me tornasse tal m*rda, aquilo que eu sou teria morrido.
    Sacrificar (e aqui o termo é bem aplicado) a minha vida? Por isto? No, thank you.

5 Comentários a “UAQ sobre a entrada anterior”

  1. Posto isto já deverias ter tomado uma decisão, não?

  2. Pois é. Infelizmente, acabei de ver simulações de créditos, e são bem piores do que eu estava. Mais um exemplo de colectivismo em acção: a necessidade é que determina aquilo a que “temos direito”. Ou seja, se eu precisasse de 20.000 contos para comprar uma casa, tudo bem, podia ficar a pagar isto durante 20-30 anos, uma ninharia por mês, etc.. Mas como não é para uma casa, nem nada relacionado com isso, já tenho só uns 5 anos, e um empréstimo de 5.000 contos deixa-me a pagar uns 100 por mês. Isso mais comida + coisas para a casa + outras dívidas… já é muito.

    É nojento o tipo de uso do empréstimo determinar as condições do mesmo. É uma invasão de privacidade, e eles não têm nada com isso. 😡

    Ainda sou capaz de ir por aí, mas 1) não pode ser já, e 2) vou ter de combinar isso com alguma outra coisa.

  3. Fui, entretanto, simpaticamente informado de que a razão pela qual os bancos dão muito melhores condições para a compra de uma casa não tem a ver com a “necessidade”, mas sim com o facto de que a casa continua a ser do banco até estar paga, e se a pessoa deixa de a pagar, o banco fica com ela, e com todas as prestações já pagas. Realmente isso é muito mais seguro para eles do que, simplesmente, emprestarem dinheiro.

  4. Yep. OU seja não ficam a perder de modo algum.

  5. […] Já o mencionei aqui antes, mas quero aprofundar mais esta questão, já que a considero um dos maiores problemas neste país: a obsessão por um “emprego estável”. […]