Os Portugueses e o Dinheiro

Somos um país pobre, com muita miséria, “em crise” permanentemente, com ordenados baixos, pouca produtividade, muita gente endividada… sim, tudo isso é verdade.

E, muitas vezes, vem alguém falar sobre as razões disso. Bem, é a minha vez. Mas acho que as minhas razões, que são bem simples, são bem diferentes das habitualmente apresentadas… e imagino que quase ninguém concorde comigo. So what’s new? 🙂

No fundo, o seguinte é uma única razão, mas, por clareza, vou expandi-la em várias partes.

  • apesar de não sermos um povo muito religioso (por exemplo, não temos fanatismos “à lá” EUA, e a maior parte dos jovens hoje em dia não segue qualquer religião), há uma crença de origem religiosa em que parecemos quase todos acreditar: que o dinheiro é a origem de todo o mal. O dinheiro é aquilo que todos querem, mas que todos têm vergonha de admitir que querem.
  • a ideia de fazer dinheiro com trabalho árduo e honesto é completamente alheia aos Portugueses. Para quase todos nós, quem faça bastante dinheiro, das duas uma:
    1. ou é corrupto, e está a roubar,
    2. ou não o consegue trabalhando, mas sim explorando outros que trabalham.
  • como consequência, ganhar dinheiro é imoral – a única coisa vagamente aceitável é alguém matar-se a trabalhar para conseguir o mínimo dos mínimos para sobreviver. Qualquer coisa a mais do que isso já implica, como disse acima, corrupção e/ou exploração de outros.
  • o Português acredita, por isso, que não é possível “subir na vida” de uma forma honesta, através de competência e trabalho.
  • a ideia de ganhar dinheiro a fazer algo de que se gosta é completamente absurda, impossível e impensável.
  • sendo assim, se alguém sugerir uma forma de ganhar dinheiro com algo que já se faz por gosto, isso é considerado uma “corrupção” que tira a pureza da coisa.

Concordam? Duvido. 🙂

Outra crença curiosa do Português é esta: que um emprego não é uma troca entre o empregador e o empregado que favorece ambas as partes, mas sim um favor que o empregador faz ao empregado. Por muito competente e trabalhador que este seja, por muito dinheiro que ele faça à empresa – é sempre um favor, e o empregado não tem nada que reclamar se alguma coisa está mal – se ele não quer estas condições, há muitos que as querem. Ele já tem “sorte” (que conceito ridículo, aqui…) em ter um emprego. Afinal, há tanto desemprego…

E isto se calhar estaria melhor no Way of the Mind, mas, por outro lado, só faz sentido num blog Português…

5 Comentários a “Os Portugueses e o Dinheiro”

  1. Kanzentai diz:

    I like cash, to me cash is the life, that which makes my blood keep flowing and the heart beating…

    Money is the life 🙂

  2. Concordo parcialmente. Com a primeira parte não enquanto generalização. Com a última parte concordo em absoluto e acho q tal é cada vez mais visível na sociedade em q vivemos.

  3. Sarita diz:

    Pedrinho, acreditas mesmo nisto? Já se passaram 3 anos desde que escreveste isto… Entao os portugueses que trabalham lá fora?

    • Acredito que é o que muita gente acha, sim. É claro que há excepções.

      Tu achas que as pessoas não pensam assim, neste país?

      Quanto aos portugueses que trabalham fora, não sei. You tell me. 🙂

      • Sarita diz:

        lol I’ll tell you 🙂

        Acho que o mal do país está na falta de um sistema justo, a justica nao funciona. Como tal, ser-se chico-esperto, cortar esquinas e ser-se desonesto nao é punido, o que leva a que mais o facam e que seja a única maneira de vencer. Se um sistema justo fosse posto em prática, isso faria com que a apatia em que as pessoas se deixaram abater desaparecesse.

        Se soubessemos que o nosso esforco nos levava a algum sítio, aí sim, o país prosperava. Assim, achamos sempre que somos fodidos ah partida ainda antes de comecarmos, o que leva a… que ninguém faca nada.

        Já leste o Undercover Economist ou o Freakonomics? Interessantíssimos os dois!