A obsessão por um "emprego estável"

Já o mencionei aqui antes, mas quero aprofundar mais esta questão, já que a considero um dos maiores problemas neste país: a obsessão por um “emprego estável”.

Pelo que leio e vejo, isto não é assim tão mau lá fora, mas cá é terrível. A ideia de alguém trabalhar por conta própria, não tendo um emprego, um patrão, e um ordenado ao fim do mês é completamente impensável. Somos fanáticos pela questão da “segurança”, de termos o ordenado fixo todos os meses. Deixar de ter essa “rede de segurança”? Nem pensar!

Acho que grande parte disso vem da nossa história – tanto o salazarismo como o semi-comunismo/socialismo que se seguiu são filosofias colectivistas. O incerto aterroriza-nos; mesmo que detestemos o que fazemos, mesmo que ganhemos mal, “há tanta gente desempregada…” o melhor é ficar-se onde se está. E assim toda a gente parece pensar.

Outro “problema” de se trabalhar por conta própria é que isso obriga a ser-se bom, criativo, competente, original. Para mim, a ideia de ganhar em função do que faço (ao invés de algo fixo) é um sonho; para a maioria das pessoas é um pesadelo, porque estão conscientes da sua incompetência. Mas as leis deste país são suficientemente colectivistas para que quase ninguém (especialmente, mas não só, na função pública) seja despedido por incompetência. Um “emprego estável” equivale, para muita gente, a “posso trabalhar tão pouco e tão mal quanto quiser, mas tenho o ordenado no fim do mês”.

E toda a evolução, ou “crescimento”, segundo esta mentalidade, vem de promoções, que acontecem apenas por duas razões: tempo na empresa, ou cunhas. Ninguém, cá, é promovido por fazer um bom trabalho, por fazer o trabalho de várias pessoas, por desenvolver processos novos que poupam milhões a uma empresa ou departamento.

Em resumo, senhoras e senhores, somos uns cobardes inúteis. Umas criancinhas aterrorizadas.

Por eu querer trabalhar por conta própria – e isso não está tão longe como já esteve -, tenho lido bastante sobre o assunto, e uma das coisas que mais me ficou na cabeça foi o que ouvi num podcast do Steve Pavlina: que o tempo em que estamos a trabalhar para outros, para uma empresa, é tempo desperdiçado. Tempo em que não evoluímos, em que só mantemos, só estagnamos. Tempo em que não estamos a melhorar as nossas vidas, não estamos a crescer, não estamos a fazer o que podíamos fazer, com algum trabalho, criatividade e inteligência. Qualidades desperdiçadas se trabalhas para alguém e tens um ordenado fixo. Só a empresa é que ganha, tu não.

Infelizmente, parece-me que só eu é que vejo isto assim; quase toda a gente que conheço parece partilhar da tal obsessão por estabilidade (por muito má que esta seja), e mesmo amigos e família, em geral, reagem com um “estás maluco!?” quando lhes digo que não quero acabar o ano empregado.

  • “E se alguma coisa corre mal?”
  • “Mesmo que faças outras coisas nos tempos livres, não é melhor manteres o emprego, por uma questão de segurança?”
  • “Isso é tudo muito incerto! E se os blogs forem só uma moda, e esta passar?”
  • “Sem um emprego fixo, nunca podes saber como vai ser o dia de amanhã.”
  • “Há tanta gente desempregada, tu não sabes é a sorte que tens!” (esta é linda…)

Paciência. O incerto, o novo, significa caos, mas sem caos não há mudança, e sem mudança não há crescimento. 🙂

3 Comentários a “A obsessão por um "emprego estável"”

  1. patrícia diz:

    sei que já falámos sobre isto e que sou uma das que não concorda contigo a 100%. não faço ideia se já trabalhaste ou não, exclusivamente por conta
    própria, ou como tu dizes, se já recebeste de acordo com o que trabalhas/produzes; e quando corre bem, é de facto fantástico.
    mas nem sempre é fácil. implica esforços e cedências, implica escolhas. e depende MUITO se tens alguuém dependente de ti ou não.
    Não sejas tão rápido a acusar….. e não te esqueças que se não houvesse gente disposta a trabalhar para outrém isto era uma pouco complicado…
    eu por exemplo, não tenho, nem nunca tive qq sonho de trabalhar por conta própria. e não me acho uma incompetente nem uma criancinha
    aterrorizada.
    e tb arrisco, mas com riscos calculados, que prezo e muito a minha independência económica.
    a maioria das pessoas tem também que pensar nos filhos, nos pais ou em quem quer que estaja dependente de si, o que torna inviável decidir se
    compra comida ou aquela ferramenta indispensável para trabalhar.
    e por estranho que pareça até tenho aprendido imenso no meu trabalho. nem tudo é um mar de rosas (tu até aturas as minhas imensas queixas)
    mas não considero o tempo que estou a trabalhar “tempo perdido”.
    mas desejo mesmo que consigas ser profissionalmente muito feliz e que realizes rapidamente todos os teus projectos.
    boas férias
    patrícia

  2. Isto dá pano para mangas. Um emprego estável está aliado a uma vida economicamente estável necessária pelo menos para se pagar a renda da casa e outras despesas relativas à casa, a comida, roupa e calçado e transportes. Com um emprego estável as pessoas têm forma de pagar essas suas despesas fixas. Quando temos alguém dependente de nós tal como a Patrícia referiu as coisas tornam-se bem mais complicadas.

    Se por um lado concordo contigo, será apenas de facto parcialmente porque acho que devemos fazer aquilo de que gostamos e se não o fazemos, devemos tentar; devemos arriscar, por outro julgo que nem todos temos a capacidade ou o desejo de trabalhar por conta própria e na verdade não vejo nisso qualquer mal. Uma sociedade assenta em toda uma complexa estrutura de tarefas e de papéis e não estou bem a ver de que modo as coisas poderiam funcionar se cada um trabalhasse para si. Mas, sim, acho que quem tem um bom projecto, quem deseje trabalhar por conta própria, deve arriscar.

    Bem, isto fica por aqui e um pouco incompleto. Talvez amanhã acrescente mais qualquer coisa.

  3. Emília diz:

    Essa questão dessa procura constante pelo emprego estável é um dos motivos que acarretam todo o processo de entrevistas , provas de seleções e etc. Coisas indispensáveis atualmente já que a a oferta de bons empregos é pouca e a procura por eles é enorme. O simples desejo de querer uma rede de segurança desenvolve todo um ciclo desgastante para o profissional que enquanto não encontra um emprego que lhe dê essa segurança se submete a inúmeras vezes a ele. E mesmo após achar esse suposto “emprego estável” algumas pessoas entram em outro ciclo, o de tentar ser o mais bem sucedido possível para não perder o emprego.