Aborto e controlo

O segundo referendo sobre a descriminalização do aborto em Portugal aproxima-se, e, como é óbvio, há alguma polémica sobre o assunto.

Assim sendo, tenho de dar a minha opinião. Se, por um lado, ela deverá ser mais ou menos óbvia para quem já me conhece, por outro lado, talvez não estejam à espera dos motivos que vou dar.

Para começar: acho que não deveria haver referendo. A lei actual devia simplesmente ser anulada como sendo um atentado à liberdade individual, como tratando-se de algo sobre o qual o Estado nem devia sequer poder legislar (da mesma forma que não pode legislar a decoração interior da minha casa). O que a maioria quer nunca se pode sobrepôr aos direitos individuais de cada um. Uma maioria não pode decidir que este ou aquele se sacrificam pelo todo, e não deveria ter qualquer poder sobre o que cada um faz, desde que os direitos individuais de todos sejam respeitados. A criminalização do aborto é equivalente às leis de proibição da sodomia que existem ainda (sim, no século XXI) em vários estados dos EUA (a maioria no sul). Leis que proibem algo feito entre adultos, consensualmente. Leis absolutamente anti-constitucionais, violadoras da liberdade individual, que provêm de mentalidades retrógradas, e têm origem religiosa (para não variar).

A maioria nunca deve ter poder sobre os direitos e a liberdade de um indivíduo. Caso contrário, como outros já disseram, temos o equivalente a três lobos e uma ovelha a votar o que vai ser o jantar.

Neste caso, acho que isto vai mais longe. A origem desta questão é algo mais fundamental do que razões religiosas, de “onde é que começa a vida”, de existir ou não uma alma, dos direitos das mulheres, de puritanismo ou “promiscuidade”, de se ser liberal ou conservador, de o sexo por prazer (em vez de para fins reprodutivos) ser ou não uma coisa “pecaminosa”.

Passo a citar o Robert A. Heinlein:

Political tags — such as royalist, communist, democrat, populist, fascist, liberal, conservative, and so forth — are never basic criteria. The human race divides politically into those who want people to be controlled and those who have no such desire.

Percebem? Mais do que religião e afins, trata-se de controlo.

Uns limitam-se a querer liberdade. Liberdade para decidir, para fazer o que quiser com a sua vida. Querem, no fundo, que os deixem em paz.

Os outros não. Não lhes basta já poderem decidir por si (afinal, ninguém os vai forçar, ou às suas mulheres, a abortar). Não. Querem decidir o que os outros podem ou não fazer. Querem que a raça humana seja controlada segundo o que eles acham certo e errado.

Hipócritas. Com que direito decidem e controlam eles o que os outros podem fazer? Com que direito impõem eles a sua moralidade ao resto das pessoas?

Acho que uma frase que vi uma vez diz tudo: “És contra o aborto? OK, não abortes.”

20 Comentários a “Aborto e controlo”

  1. Acho que tens razão quando dizes que o estado não tem o direito de legislar sobre o que eu faço na minha vida, ou o que dois adultos fazem de sua livre vontade sem envolver terceiros, mas há um problema na tua lógica. Dizes que esta questão não tem nada a ver com“onde é que começa a vida”, mas na realidade tem tudo, porque só depois da resposta a esta questão se pode falar no resto.

    Se achares que a vida só começa com o nascimento, então qualquer mulher tem o direito de abortar até ao último minuto antes desse mesmo nascimento, mas se achares que a vida começa às 10 semanas, então uma interrupção da gravidez depois dessa data estará em conflito com o direito à vida deste novo ser. Se o estado não tem o direito de legislar sobre o que faço com a minha vida, também uma mãe não tem o direito de a tirar (assumindo que já é vida). Percebes o quão essencial é a resposta a esta pergunta para que se possa passar para o passo seguinte?

  2. Não estamos a falar de um bebé, mas de um embrião. É uma entidade viva (assim como, por exemplo, uma célula do corpo), mas não é um ser racional.

    Além disso, os argumentos para proibir o aborto têm quase sempre origem religiosa, e são os mesmos usados por tipos como o Bush para impedir o “stem cell research”. Para essa gente, tem tudo a ver com “almas”, e com o momento em que elas supostamente “entram no corpo”. Para eles, um bebé é completamente indistinguível de um embrião recém-fecundado. Porque não ir mais longe e tentar proteger os espermatozóides, como naquele sketch dos Monty Python (“Every Sperm is Sacred”)? Sob esse ponto de vista, a masturbação é assassínio em massa… e mesmo a fecundação é genocído em massa, excepto o espermatozóide que chega primeiro.

    E repara que, com isto, não acho que o aborto é algo desejável ou agradável. Só um idiota pensaria isso. Pode, sim, ser o “menor de dois males”, em muitos casos. E nem o Estado, nem a “opinião da maioria”, têm alguma coisa a ver com o que uma mulher decide fazer com o seu corpo.

    Para mim, é tudo uma questão de controlo. Uns querem decidir por si sós, outros querem decidir pelos outros – à força, se necessário.

  3. BB diz:

    Que grande frase essa do Robert A. Heinlen!

  4. continuas a fugir à questão. Quando é que há uma vida? Para mim essa é a questão e usando os teus argumentos, ESSA TEM DE SER A QUESTÃO. Quando é que deixa de ser apenas uma célua, um embrião, um pedaço do corpo da mulher para passar a ser um organismo vivo, com direitos?

    Porque é nesse momento que a mulher deixa de ter o direito de fazer o que quiser com o seu corpo, porque esse direito sobrepõe-se ao direito de viver do novo ser.

    É só isso, não me respondas outra vez com religião porque eu não falei em religião, não falei em alma. Apenas falei em vida, seres e direitos.

  5. [quote post=”308″]Quando é que deixa de ser apenas uma célua, um embrião, um pedaço do corpo da mulher para passar a ser um organismo vivo, com direitos?[/quote]

    Um organismo vivo, é sempre – tal como uma célula o é. Direitos, por outro lado, deverá tê-los quando passa a ser um ser racional.

    De qualquer forma, uma mulher é dona do seu corpo. O feto está lá por sua permissão.

    Depois, pode-se pensar em questões práticas. Que tipo de mãe vai ser uma mulher que queria abortar, que engravidou por acidente (ou por ser violada – e uma mulher pode ser violada pelo namorado ou marido, ou algum familiar; não tem de ser um estranho na rua), mas que não o pôde fazer porque isso é legalmente um crime? A que tipo de inferno estará ela a condenar a criança? Isto é outra questão, e (já sei, vais-me dizer para não falar em religião, mas é essa a origem, mais uma vez) tem a ver com o separar da moralidade e do sofrimento. Ou seja, viver uma vida infernal, para muitos, é preferível a não ter nascido. Eu discordo – o sofrimento não é, nem pode ser, o estado natural do ser humano.

    E, de qualquer forma (mais uma vez), o governo (ou “a maioria”) não tem nada com isso.

  6. patricia diz:

    “Direitos, por outro lado, deverá tê-los quando passa a ser um ser racional”
    Posso deduzir que para ti tudo o que não é racional poderia ser “livremente” morto (caso fosse um “incómodo”). Pois para mim matar um cão ou um gato é um crime, detesto gente cruel com os animais. Se formos a falar numa criança, então!

    a questão do Sérgio é pertinente e tu não a respondes. Defendes a despenalização do aborto até ao nascimento?
    é aí que passa a ser um ser racional?…. mas haverá uma tão grande diferença entre um bebé antes de depois do nascimento? falamos de racionalidade, claro!

    não deves conhecer muito bem a actual lei, mas deixa-me dizer-te que é legal o aborto em qualquer caso de violação!

    “viver uma vida infernal é melhor que não viver”, concordo! Mas como saber se se vai ter uma vida infernal? ou uma vida boa e feliz? E mais importante quem tem o direito de decidir por outrem?

    Concordo que há demasiada religião a condicionar esta questão.
    Mas, todos (ou quase) achamos que não temos o direito de tirar uma vida. e a questão do aborto acaba por reduzir-se a isso: a partir de quando é que o feto pode ser considerado uma vida humana?

    Eu, por exemplo não concordo com o aborto, mas tb não concordo com penalizações às mulheres que optam pelo aborto. Já aos carniceiros que o fazem em condições desumanas, concordo com grandes penalizações/multas. Ou seja, EU pessoalmente seria incapaz de optar por essa via, mas tb não condeno quem o faça.
    Mas após as 10 semanas, sou totalmente contra! Lá está, para mim é o tal limite!

    Não me parece que esta questão seja tão simples qto tu achas!

  7. [quote post=”308″]Posso deduzir que para ti tudo o que não é racional poderia ser “livremente” morto (caso fosse um “incómodo”). Pois para mim matar um cão ou um gato é um crime, detesto gente cruel com os animais. Se formos a falar numa criança, então![/quote]

    Animais inteligentes, como um cão ou um gato, são um caso bem diferente – e se eu visse alguém a torturar um animal, se pudesse, matá-lo-ia (ao verme, não ao animal). Por outro lado, acredito na eutanásia para um animal em sofrimento, o que já aconteceu (aconselhado pelo veterinário, e eu concordei) a uma gata que tive há anos. Ainda por outro lado, tens problemas em matar uma mosca ou uma formiga? Não, pois não? Há uma diferença entre um ser humano em potência e um ser humano, ponto.

    [quote post=”308″]a questão do Sérgio é pertinente e tu não a respondes. Defendes a despenalização do aborto até ao nascimento?[/quote]

    Eu respondi a isso, se vires bem. Falei também de outras coisas, mas comecei por lhe responder.

    [quote post=”308″]não deves conhecer muito bem a actual lei, mas deixa-me dizer-te que é legal o aborto em qualquer caso de violação![/quote]

    E os fanáticos acham que nem aí devia ser… Para eles, NUNCA poderia ser legal. Porque, como disse, eles separam o sofrimento da moralidade. Para eles, o sofrimento não tem mal nenhum, a única coisa que interessa é salvar almas.

    A ideia desses imbecis (e desculpa, são-no – é gentinha que pura e simplesmente não pensa) é que, se o aborto não for legalmente um crime, as pessoas vão passar a usá-lo como método contraceptivo; tipo, não usam preservativo porque “reduz o prazer”, engravidam, abortam, daí a uns tempos volta a acontecer, abortam outra vez, e assim por diante. Isso é ridículo! Alguma vez o aborto é uma experiência fácil ou agradável? Ou, já agora, de graça?

    Não acho que o aborto seja aceitável num exagero tipo um dia antes do nascimento, por uma razão: aí o bebé já pode sobreviver fora da mãe, e pode ser posteirormente adoptado.

    Mas prisão para uma mulher que aborta é algo repugnante, porque, mais uma vez, o Estado não tem nada com isso.

    Já agora…

    Sabias que, quando foi inventada a anestesia, houve imensos líderes religiosos a tentar proibi-la, porque a dor de parto era o castigo de Deus à mulher, por ter tentado Adão, e que reduzir essa dor era interferir com o plano de Deus?

    Sabias que a Bíblia Cristã menciona várias vezes a escravatura como uma coisa perfeitamente aceitável, e que os clérigos americanos foram dos maiores oponentes da emancipação dos escravos?

    Mas o mundo ultrapassou isso, e agora esses tipos são considerados retrógrados, primitivos. O que se passa nesta questão é a mesma coisa. É a História a avançar, e alguns tipos encolhidos, assustados, a tentar impedir esse avanço. Mas o mundo avança. E o nosso país não pode continuar na cauda do mundo (somente com os muçulmanos — para quem não só o aborto é punido com a morte, mas uma mulher violada é apedrejada por ter cometido adultério — atrás).

  8. Diana diz:

    Acrescento ainda que mesmo que permaneça a lei de ser penalizado após o referendo, as mulheres que realmente querem abortar vão continuar a recorrer a diversos meios: as que podem vão a Espanha, as outras arriscam a sua própria vida praticando-o em condições de elevado risco para si próprias. Aquelas que não têm outra opção senão deixar nascer o filho, estão a deixar crescer para o mundo (na maioria das vezes) alguém mal amado, com carências afectivas e problemas sociais.

  9. Pedro Moreira diz:

    Falamos sempre em liberdade, como se isso fosse o santo Graal das sociedades modernas!

    Sabem aquela frase feita, mas que costuma resultar muito bem: ”A liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade do outro!”. No caso do aborto, onde é delimitada essa fronteira? Existe “o outro”? Existe outro ser humano que, indefeso, necessita que alguém vele pela sua segurança e pelos seus direitos? São questões que a consciência de cada um pode responder.

    Não sou, obviamente, insensível à questão da saúde pública, do flagelo social do aborto clandestino e da falta de capacidade de muitas mulheres e homens terem os devidos cuidados contraceptivos e/ou o devido planeamento familiar,

    Também não ignoro as questões da descriminação entre as classes sociais (uns vão a Espanha os outros abortam em vãos de escada). Todos esses argumentos são de ter seriamente em consideração, mas isso não serve de desculpa para que o estado se demita das suas responsabilidades para os mais fracos (neste caso a criança no ventre).

    Eu também sou completamente contra a prisão das mulheres que abortam! Não é a cadeia que vai resolver o problema. Eu prendia, isso sim, quem ganha dinheiro à custa dessas mulheres (parteiras, ou “abortadeiras” – como lhes quiserem chamar – e médicos). Esses são os verdadeiros criminosos.

    Uma comparação que pode ser feita, salvaguardando as óbvias diferenças, é a sociedade começar a não julgar nada que seja feito em propriedade privada. Afinal, sou ou não livre para dispor do meu próprio espaço? Posso ou não agredir ou matar se for dentro da minha casa? Pelos vistos, nos EUA, esta começa a ser uma realidade! É este o caminho das sociedades modernas?

    Estas medidas parecem-me sempre a medida do facilitismo. A sociedade não consegue resolver um problema, demite-se dele. A droga: não conseguimos estancar o tráfico, LIBERALIZE-SE. Aborto: não conseguimos informar, formar e dar apoio para que as crianças cresçam e tenham a família a que todos temos direito, LIBERALIZE-SE O ABORTO.

    A sociedade tem de construir as bases para que haja medidas de ajuda para uma contracepção capaz, para que haja apoio a todo o nível para as mães de gravidezes indesejadas, flexibilizar os mecanismos de adopção para o caso das mães que não querem, ou podem, educar a criança, entre muitas outras medidas. Agora, não nos demitamos das nossas responsabilidades enquanto sociedade civilizada.

  10. [quote comment=”6176″]Falamos sempre em liberdade, como se isso fosse o santo Graal das sociedades modernas![/quote]

    Não “falamos, não”. Infelizmente, fala-se muito pouco. Eu falo, sim.

    [quote comment=”6176″]Sabem aquela frase feita, mas que costuma resultar muito bem: ”A liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade do outro!”.[/quote]

    Eu sou o primeiro a concordar com isso, se bem que acho que devíamos ser mais precisos, e dizer que a liberdade de cada um acaba onde começam os direitos individuais do outro.

    Podíamos ainda ir mais longe. Se definirmos “liberdade” como ter o controlo sobre o que nos afecta principalmente a nós, então não é preciso pensar em “fins” para a liberdade. Cada um controla a sua vida, e pronto. Quem quer afectar as vidas dos outros já não está a pensar em liberdade, mas sim em poder.

    O que, se queres manter o aborto como um crime, me parece ser o teu caso…

    [quote comment=”6176″]No caso do aborto, onde é delimitada essa fronteira? Existe “o outro”? Existe outro ser humano que, indefeso, necessita que alguém vele pela sua segurança e pelos seus direitos? São questões que a consciência de cada um pode responder.[/quote]

    Os cristãos e afins tentam sempre pôr a questão como “levianidade da mãe contra a vida do bebé”. Eu prefiro pôr a questão desta forma: direitos de um feto (que, se bem que está vivo, ainda está longe de ser um ser humano – caso contrário, um tipo ao masturbar-se está a cometer genocídio em massa) contra os direitos de uma mulher.

    [quote comment=”6176″]Uma comparação que pode ser feita, salvaguardando as óbvias diferenças, é a sociedade começar a não julgar nada que seja feito em propriedade privada. Afinal, sou ou não livre para dispor do meu próprio espaço? Posso ou não agredir ou matar se for dentro da minha casa? Pelos vistos, nos EUA, esta começa a ser uma realidade! É este o caminho das sociedades modernas?[/quote]

    Deves conhecer uns EUA diferentes. Lá, em vários estados, há leis contra a homossexualidade, e a sodomia (mesmo entre homem e mulher). E, sim, incluem o que se faz em privado, entre adultos, consensualmente. É certo que essas leis têm séculos, e hoje em dia ninguém liga muito, mas estão na lei, e ocasionalmente ainda há casos que vão a tribunal. Guess what… todas essas leis têm origem religiosa.

    [quote comment=”6176″]Estas medidas parecem-me sempre a medida do facilitismo. A sociedade não consegue resolver um problema, demite-se dele. A droga: não conseguimos estancar o tráfico, LIBERALIZE-SE. Aborto: não conseguimos informar, formar e dar apoio para que as crianças cresçam e tenham a família a que todos temos direito, LIBERALIZE-SE O ABORTO.[/quote]

    Bem, em relação à droga, é um facto óbvio que a proibição da mesma é igualzinha à Lei Seca dos EUA, há umas décadas. É uma lei completamente estúpida, de origem religiosa (para não variar), que transforma metade dos cidadãos em criminosos, e que serve para encher as prisões por “crimes” que não fazem mal a ninguém, quando os verdadeiros criminosos continuam impunes. Para não falar do crime organizado que cria: dantes era o Al Capone, agora são os traficantes. Que só existem (incluindo toda a violência relacionada) porque os governos do mundo são cobardes e têm de agradar aos velhotes ultra-moralistas, que são quem vota mais.

    Por isso, limitaste-te a dar como exemplo mais um caso de “moralistas a tentar controlar a vida dos outros”…

  11. Pedro Moreira diz:

    Não, não é, obviamente esse o caso. Agora, é consensual, entre quem não tem uma visão demasiado “liberal” da sociedade, que há alturas em que a sociedade tem de proteger os mais indefesos (principalmente crianças), alvos fáceis para quem quer, aí sim, impor a sua vontade. Ou tens dúvidas que quem consome droga está a ser usado por quem daí tira dividendos, e que, após instalado o vício se tornam bonecos nas mãos dos mesmos?

    Bem, mas concordo contigo. Considerando que a questão da droga é diferente e não tão grave como a do aborto, eu aceitaria perfeitamente a liberalização da droga. Aí, sejam crianças, jovens ou adultos, o poder de decisão já está nas suas mãos (nuns mais que noutros).

    Agora no aborto não. O poder de decisão de uma criança no ventre é nulo! Não me fales na questão da masturbação ou do uso do preservativo. Isso não tem lógica! Como é óbvio a concepção exige sempre um processo que, só após o “encontro” do espermatozóide com o óvulo está completo. A partir daí a VIDA surgiu. Está despoletado um processo que, se não for interrompido culminará no leito de morte de um novo ser humano, tenha ele a idade que tiver. Nós SOMOS desde essa altura. E os pais (seja mãe ou pai) não são DONOS dos filhos. São responsáveis por eles, não seus donos.

    Defendes então que uma mãe, que permita que o filho nasça, não o alimente com a justificação que é livre de fazer o que quer com o seu leite e o seu dinheiro? Ela é dona do seu corpo e carteira, pode fazer deles o que quiser, certo? Eu sei que isto é uma provocação e que ninguém pode defender esta posição de uma mãe, mas para mim, enquanto defensor de que a vida intra-uterina é vida humana, os casos são idênticos.

    Não sou defensor da vida a todo o custo, não. Depois de tudo o que li, discuti e reflecti tendo como base os meus princípios, não me sinto capaz de defender que uma mulher que tenha sido violada, quando há possibilidade de risco de vida da mãe ou quando o feto sofre de malformações, seja obrigada a continuar a gravidez. Acho que a lei actual prevê os casos mais graves que permitem à mulher abortar.

    E será que tens dúvidas que a maior parte dos abortos acontecem por pressão de uma sociedade conservadora. Quantos pais já obrigaram as filhas a abortar? Quantos patrões já ameaçaram as empregadas com despedimento caso engravidassem? Quem aqui quer controlar o quê? Estes sim, são os da fila da frente das igrejas. Os tais fanáticos religiosos que tanto gostas de falar.

    E já agora, os defensores do NÃO, não são todos fanáticos religiosos. Nem religiosos, sequer.

  12. Caro Sérgio,
    Li e reli as tuas respostas porque dizes que respondeste à pergunta inicial que era: para ti quando é que começa a vida e a partir de quando se deve proibir o aborto. No extremo és a favor que uma mulher à espera de um feto de nove meses possa abortar, ou não?
    E isso da racionalidade e irracionalidade: podes matar uma pessoa gravemente deficiente?
    E isso da distinção entre Direito e Moral não podia ser mais certo, mas até onde é que vai? É moralmente errado eu roubar, violentar, assassinar, violar… Mas como o Direito é diferente da Moral, eu vou permitir os ataques à propriedade, saúde, vida e liberdade sexual porque o estado não tem nada a ver com isso?
    O centro da questão aqui é apenas um: desde a sua concepção até à morte natural o ser humano tem vida que lhe não pode ser tirada nem mesmo por quem está mais próximo. Em alguns casos muito especiais (já previstos na Lei) por termo à vida humana não é punível, o que não quer dizer, mesmo assim, que seja moral mas nos outros, essa vida tem que ser defendida não por uma questão Moral, mas por uma questão imperiosa de salvaguarda de valores constitucionalmente protegidos como o Direito à Vida.

  13. Jerónimo diz:

    Li, fio a pavio, todas as opiniões aqui expressas.
    Sou um defensor acérrimo da liberdade de cada indivíduo. Sou a favor da eutanásia, sou a favor da liberdade de cada um escolher se se quer drogar ou não, como da liberdade de cada um escolher ingerir alcool ou não.
    É hoje comumente aceite, seja em programas humanitários de ajuda á fome ou a vítimas de guerra, seja em programas de recuperação de toxicodependentes ou de alcoolicos, que só se pode ajudar quem quiser ser ajudado.
    Esta permissa, também é válida nesta questão do aborto, ou seja, toda e qualquer mulher (esquecem-se sempre da responsabilidade do Homem que engravidou a mulher que pensa em abortar ou que abortou. Porque só há-de ir a mulher para a prisão? A responsabilidade do acto que a vai levar a cometer um crime não é exclusivo dela?)que decida (notem que eu não disse queira) abortar vai abortar.Não me vou alongar em questões de somenos sobre o processo doloroso e traumático da tomada desta decisão, os pros e cons que passaram pela cabeça da mulher que tomeu esta decisão. Acho que é inquestionável que não há NENHUMA mulher que aborte por prazer. Ainda não li nenhum relato sobre o processo que a levou uma mulher a abortar em que não seja referido “ainda hoje não recuperei”, o que demonstra que deve ser algo bastante penoso e traumático.
    A questão que eu coloco é a seguinte: será que uma mulher que tomou a decisão de abortar não o deverá fazer com todas as condições de higiene e segurança?
    Eu acho que sim, que devem ser dadas todas as condições de higiene e segurança á mulher para que lhe possam realizar o aborto sem que tenha de ficar com mazelas físicas daquele acto médico.
    Independentemente do resultado do referendo vão continuar a haver mulheres que decidem abortar em função do seu enquadramento de acesso a informação, educacional, capacidade financeira e outros.
    Eu também concordo que se devem dar todas as condições ás mulheres para que possam ter e educar os seus filhos(as) com boas condições de vida. mas isto é utopia, pois está provado que é possível eliminar a fome do mundo só que todos os dias continuam a morrer crianças á fome. Não pensem nas crianças de África, mas sim em cada um de vós a ver os vossos filhos a morrer á fome sem terem nada para lhes dar de comer.
    O argumento das 10 semanas ou de quando começa ou não a vida é muito interessante do ponto de vista científico, moral ou religioso, mas a resposta a esta pergunta não resolve a questão que deveria estar em debate (e que a pergunta não traduza com fidelidade) que é, porque razão uma mulher que decidiu realizar um aborto não o pode fazer num hospital público com apoio médico e em boas condições de hiegene e segurança de modo a evitar problemas de saúde futuros para si propria.
    Cada caso é um caso e os limites que se colocam são sempre muito questionáveis e delicados porque temos sempre o momento imediatamente a seguir e o momento imediatamente anterior que levantam sempre muitos problemas. Se a lei das 10 semanas vier a vigorar, será que uma mulher que decidiu que lhe façam o aborto com 9 semanas e 6 dias de gravidez deverá ser penalizada com a prisão?
    Acho a pena de prisão simplesmente inconcebível.
    Um último aspecto que me choca é que a lei permite que seja possível fazer o aborto por malformações congénitas entre outros.
    Significa que as actuais crianças que vivem com malformações congénitas são seres de segunda classe, desprovidos de direitos e de sentimentos? Esta pergunta fica para ser respondida para quem costuma fazer comparações entre animais e pessoas que ultimamente tem havido uma corrente muito hipócrita de defesa dos animais a todo o custo, inclusive em desfavor do proprio ser Humano, que para mim está inquestionavelmente num nível superior.Se eu tiver de escolher entre a vida (pois há quem coloque a questaõ do aborto como um caso de vida ou de morte) do animal mais magnânimo e nobre e a vida da criança mais feia, pobre e desamparada eu não hesito um segundo e escolho a vida da criança.

  14. Luís Neto diz:

    A questão do aborto não pode ser resolvida com base no direito à vida, porque não é impondo ás outras pessoas a proibição de abortarem (para que não violem esse direito) que estas deixarão de o fazer. Por outro lado, enquanto o sistema judicial continuar a condenar as mulheres que abortam fora dos termos actualmente previstos na lei, não é apenas a humilhação do julgamento e da prisão que elas terão que suportar. Numa tentativa de não serem condenadas judicialmente, elas recorrem a pessoas que não têm os conhecimentos, os meios necessários ou ambos para realizarem abortos de forma segura, provocando graves danos nos corpos dessas mulheres. De uma forma indirecta, quem apoia a actual política, está também a condenar as mulheres que interrompem voluntariamente a gravidez a penas corporais. Isto porque elas recorrem aos serviços de pessoas que não podem garantir-lhes a boa qualidade do serviço por causa da actual lei que as impede de recorrerem aos hospitais e clínicas abilitadas, lei essa que, por causa da teimosia dessas pessoas em não querer mudá-la, continua na mesma. O que verdadeiramente estamos prestes a decidir não é se continuarão a existir pessoas que interrompam a gravidez, mas sim, como é que elas saírão desse processo: se com os problemas psicológicos que possam daí advir (sim, abortar não é a solução perfeita, pois é sabido que há mulheres que ficam com problemas psicológicos depois de abortarem), ou se, para além desses problemas, ainda ficarão com danos físicos graves. Por isso, as pessoas que defendem o “não” à interrupção involuntária da gravidez, com base na defesa do direito à vida, não estão a olhar para o problema da prespectiva mais indicada e justa, pois, para além de não conseguirem impedir que os abortos continuem a serem realizados, ainda sujeitam as mulheres aos referidos danos físicos e à humilhação (que eu, nunca tendo passado por isso, só posso tentar imaginar) de verem a sua vida privada a ser exposta na praça pública e de serem vistas pela opinião pública como criminosas, porque é essa a mentalidade que os que defendem o “não” estão a instituir e a reforçar na nossa sociedade. Se interromper uma gravidez é inaceitável para esses, sujeitar as mulheres ao vil tratamento que acima descrevi, é, para mim (e sei que para muitos outros) indefensável. As mulheres que abortam não são assassinas de sangue frio. Por isso, se o fazem, têm que ter boas razões para isso.
    Luís Neto

  15. Jerónimo e Luís: concordo completamente; a questão é exactamente essa. Ninguém aborta por piada, ou porque usar um preservativo “dá muito trabalho”. É uma experiência traumática para a mulher, mesmo em condições ideais… e adicionar a esse trauma o facto de o ter de fazer clandestinamente, sem condições, e correndo o risco de ainda por cima ser presa é absolutamente nojento.

    Para mim, a causa disso é a separação da moralidade e do prazer/sofrimento. Quem decide essa “moralidade” não está minimamente preocupado com o sofrimento da mãe OU da criança; simplesmente, guia-se por slogans como “toda a vida é sagrada” e “a vida começa na concepção”, e depois impõe a sua moralidade aos outros.

    Jerónimo, só não concordo com o teu último parágrafo, e exactamente pelo que digo no parágrafo acima. Não se trata de as crianças deficientes terem “menos direitos” ou serem “cidadãos de segunda”. Antes de nascerem, nem se pode falar de “direitos”. A questão é que, ao NÃO abortar nessas condições, se condena tanto os pais como a própria criança a uma vida de sofrimento. Se nasceu, claro que se dá as melhores condições à criança que se pode dar, mas acho que só pais completamente idiotas – para não dizer monstruosos – é que decidem ter uma criança que nunca vai poder ter uma vida normal, que vai sofrer de uma forma à qual nenhum ser humano deveria ser condenado.

    É a tal separação que mencionei… o sofrimento não importa, não entra na equação para essas pessoas. 🙁

  16. Jerónimo diz:

    Pedro e restantes leitores: provavelmente fiz-me explicar mal.
    O que eu quis dizer foi que, os que invocam ser uma questão de vida ou de morte (considerar o aborto como um assassínio por parte da mulher) como motivo para defenderem a actual lei, nunca os vi manifestarem-se contra o facto de ser permitido abortar quando se detecta que o feto é portador de malformações congénitas. Apesar de ser um feto com malformações congénitas não deixa de ser um ser vivo em tudo idêntico ao feto que não é portador dessas mesmas deficiências.Tenho ouvido muito boa gente a defender o não alterar a lei por defender inexoravelmente a vida pelo simples facto de se tratar de uma vida humana, independentemente de se saber quando ela começa.Mas então aceitam que seja permitido realizar um aborto até ás 24 semanas pelo simples facto de ser portador de malformações congénitas? Então onde está a defesa intransigente da vida?
    Com esta reflexão apenas quero salientar que quando alguém é defensor de posições extremas acaba sempre por cair em contradição ou entrar em hipocrisia.
    Para terminar gostava de deixar bem claro que o caso (com todas as envolventes sociais e económicas que lhe estão associadas e que são condicionadoras do processo de tomada de decisão por parte da mulher que vai abortar) de uma mulher que decidiu abortar é diferente do de outra mulher com o mesmo problema. Pelo que a minha opinião é que se devem dar todas as condições de apoio médico higiene e segurança a uma mulher que decidiu abortar, independentemente de todas as acções a favor da vida que possam ser identificadas e principalmente concretizadas, com as quais eu também estou de acordo.
    Neste momento a questão que tenho de resolver comigo mesmo é se vou votar no referendo ou não. Primeiro, a pergunta está mal feita até porque objectivamente é provocadora do resultado SIM (o que vai contra as regras do jogo). Segundo, a questão que está a ser debatida está errada e serve apenas como fait-divers para não se debater o cerne da questão (até porque implica decisões políticas que ninguém de qualquer quadrante partidário quer assumir – enfim mantém-se o actual estado de profunda hipocrisia da actual sociedade). Terceiro e último, acho que a actual lei e qualquer que seja a que fique a vigorar depois do referendo continua a não resolver a questão essencial que é: que condições se devem proporcionar á mulher que decidiu abortar? até porque acho que é comummente aceite que os abortos se vão continuar a realizar, independentemente do resultado do referendo.

  17. [quote comment=”17487″]
    O que eu quis dizer foi que, os que invocam ser uma questão de vida ou de morte (considerar o aborto como um assassínio por parte da mulher) como motivo para defenderem a actual lei, nunca os vi manifestarem-se contra o facto de ser permitido abortar quando se detecta que o feto é portador de malformações congénitas. [/quote]

    Ah, mas muitos (os de inspiração religiosa, se bem que podem eles próprios não ser religiosos – é um fenómeno curioso, esse) acham que nem aí devia ser permitido. Afinal, como já disse, eles não vêem mal nenhum numa vida de sofrimento, só querem proteger “a vida” a todo o custo. Simplesmente, aí acham que já “perderam a batalha”, e por isso insistem na outra, que podem (vergonhosamente) ganhar.

    Quanto ao resto, eu acho que não votar “sim” é completamente imoral, irresponsável, impensado, cruel, monstruoso, demonstra uma necessidade patológica de controlo e de impor a sua moralidade aos outros, e uma total ausência de preocupação com o sofrimento humano. Acho que isto é como a escravatura, ou as mulheres serem legalmente propriedade dos homens: tem de acabar.

    Desculpem se isto ofende alguém. Normalmente não deixo que as coisas me afectem tanto, mas os cartazes pró-“não” que vejo, os argumentos irracionais e apelativos à emoção, tipo “won’t somebody please think of the children?”, juntamente com a hipocrisia dessa escumalha, cada vez me enojam mais. Tem de se pôr um fim nestas leis desumanas e retrógradas, ou viver neste país vai ser cada vez mais um motivo de vergonha.

  18. Samuel diz:

    Quando se discute a questão do aborto, a 1ª pergunta à qual se deve procurar responder é: quando é que começa uma vida humana? Este é o critério fundamental para uma discussão lógica pois, a partir do momento em que uma vida humana/indivíduo se forma, esta é inviolável. Segundo o artigo 3º da Declaração Universal dos Direitos do Homem “Todo o indivíduo tem direito à vida…”; julgo que toda a sociedade e toda a esfera política nacional está de acordo com este princípio, o que presssupõe que a partir do momento que uma vida humana passa a existir não existem razões que possam justificar uma investida contra ela, nem mesmo a invocação do direito à liberdade, de questões económicas, ou mesmo da problemática do aborto clandestino.
    É necessário responder a esta questão fundamental e não seguir os argumentos e as politiquices que dominam o debate actual. Aceitam-se respostas…

  19. Estava a responder aqui, mas acabei por escrever um novo post. Está aqui: http://blog.dehumanizer.com/2007/01/18/aborto-e-sofrimento/.

  20. […] Em resposta aos vários comentários em Aborto e Controlo: […]