Cristianismo sem a Bíblia

Para um Cristão tradicional, a Bíblia é a “palavra de Deus”. Penso que até aí ninguém discorda. 🙂 Mas, obviamente, as coisas não são assim tão simples…

Em Portugal, onde o Cristianismo é quase sempre Catolicismo, e as pessoas são Católicas mais por tradição do que por fé, participando nos rituais (baptismo, 1ª comunhão, missa ao domingo, casamento pela igreja, etc.) mas não levando realmente “a coisa” a sério, isto não é normalmente um grande problema. Mas em sociedades mais fundamentalistas, como os Estados Unidos, é comum uma grande parte da população acreditar na Bíblia à letra. Mundo criado em 6 dias, Adão, Eva e uma cobra, a patecice completa da Arca de Noé, Jesus Cristo a fazer milagres, ser crucificado e ressuscitar, o Universo existir apenas há cerca de 6000 anos, a evolução ser uma fantasia de cientistas, etc..

Como disse, a Bíblia não é tão “levada a sério” no Catolicismo tradicional (a maior parte dos Católicos, acredito, nunca a terá sequer lido). Mas será que isso faz sentido? Eu (já agora, sou ateu, para quem esteja aqui pela primeira vez 🙂 ) penso que não.

Se pensarmos um pouco, só há 3 hipóteses: ou a Bíblia é 100% divinamente inspirada, ou é parcialmente divinamente inspirada, ou não o é de todo (isto é, não tem nada a ver com qualquer deus (ou deuses) que exista). Bem, vamos ser honestos, e adicionar uma 4ª possibilidade: Deus não existe. 🙂

Vamos, então, explorar cada uma das hipóteses, e os problemas que cada uma levanta:

1- Deus existe, e toda a Bíblia é divinamente inspirada.

Problema: Isto inclui, então, as partes que dizem que as mulheres são propriedade dos homens, as partes de sacrifício de animais, as partes que dizem para matar quem acredita noutros deuses, as partes que condenam à morte quem trabalha no sábado, as partes de genocídio de outros povos, as partes de regras alimentares ultra-rígidas, e, claro, as partes que contradizem outras partes.

2- Deus existe, mas somente algumas partes da Bíblia são divinamente inspiradas.

Problema: Não é possível determinar quais partes. Pergunta a dez crentes, e provavelmente obterás dez respostas diferentes. A maioria das pessoas escolherá aquelas partes com as quais já concorda como sendo divinamente inspiradas, e as partes com que não concorda como sendo obviamente produto de seres humanos comuns. (Por exemplo, um homem sexista provavelmente escolherá as partes sexistas; quem não o seja, não concordará com ele.)

Mas o que é que faz as tuas partes preferidas divinamente inspiradas, e as do tipo ao lado não? Objectivamente, não podes ter a certeza (“eu sinto Deus nestas partes” não é objectivo!). Qualquer um pode achar algo na Bíblia que justifique as suas acções.

Assim, se acreditas que só parte da Bíblia vem de Deus, então não achas arriscado obedecer a alguma parte? Afinal, podes estar a seguir a parte errada, e a ignorar algo que realmente é a vontade de Deus… E, se a tua alma imortal está em jogo, então é, simplesmente, um risco grande demais tentares, como ser humano falível que és, “adivinhar” que partes vêm de Deus. É como jogar aos dados com a alma.

3- Deus existe, mas a Bíblia não tem nada a ver com ele.

Problema: OK. Mas, então, como é que conheces Deus? Como é que sabes alguma coisa sobre ele? Como é que sabes que existiu um tipo chamado Jesus que era o filho de Deus e morreu pelos teus pecados? Não há nenhum registo contemporâneo da vida de Jesus, fora da Bíblia. “Sinto isto no meu coração” é algo completamente subjectivo; outra pessoa pode sentir “no seu coração” algo completamente oposto, e, objectivamente, não tens maneira de saber que os teus sentimentos vêm de Deus, enquanto o outro tipo está simplesmente a imaginar coisas. Afinal, ele está, provavelmente, igualmente certo de que os seus sentimentos têm origem divina. Se Deus realmente comunicasse através de sentimentos ou sensações, então todos nós — ou pelo menos uma grande maioria — sentiríamos exactamente as mesmas coisas; Deus não iria transmitir mensagens tão diferentes e contraditórias. Mas isso não acontece. Não há uniformidade no que “sentimos cá dentro”.

4- Deus não existe, o que implica que a Bíblia vem apenas da imaginação humana.

Problema: Nenhum, que eu veja. 🙂 Esta é a mais simples e mais provável das hipóteses, na minha opinião.

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7 Comentários a “Cristianismo sem a Bíblia”

  1. careca diz:

    voto na 4ª

  2. cristina diz:

    Podes-me explicar como é possivel seres ateu? Quer dizer, és capaz de determinar quanto do universo é conhecido pelo homem? Acredita-se que 0,0001%. Então eu pergunto: Será que na restante percentagem ñão haverá prova de que Ele existe? E uma pergunta: onde foste buscar a ideia de que a bíblia diz que a mulher pertence ao homem? É a ideia mais absurda que já ouvi em toda a minha vida de cristã. Um conselho: antes de te afirmares ateu, procura primeiro investigar tudo. Eu sou cristã convicta, praticante mas não católica. EU nunca acreditei que a bíblia dissesse que o mundo foi criado há 6.000. Alias, não está escrita em parte nenhuma la. Foste ler isso na bíblia? Então como te atreves a dizer que a bíblia diz isso? Porque alguém diz que a bíblia o diz e se afirma cristão, não significa que de facto todo o mundo cristão comparticipe dessa ideia, ou que ela de facto esteja na bíblia. Este é o problema face ao cristianismo: toda a gente diz que diz, que ouviu dizer, que a bília diz. Já alguma vez leste? Então é apenas gossip, como dizem os ingleses, é o diz que disse, que tudo bem sumadinho, não passam de ideias de alguém que não tem mais nada para fazer do que influenciar as outras pessoas com ideias amplamente infundadas. Implementa-te!!

  3. [quote comment=”19312″]Podes-me explicar como é possivel seres ateu?[/quote]

    É o estado de “default”. Qualquer crença em “algo mais” requer esforço adicional: implica fé, implica acreditar em algo que não vemos, nem temos nenhuma indicação de que existe.

    Se tenho tantas provas da existência de um deus como tenho da existência de um unicórnio invisível cor-de-rosa, ou do Pai Natal, acho desonesto dar o benefício da dúvida a um, e não aos outros.

    É impossível que exista um deus? Não. Mas, até haver provas, até haver indicações de que tal coisa exista, vou tratá-lo como qualquer outra criatura imaginária.

    Afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias…

    [quote comment=”19312″]E uma pergunta: onde foste buscar a ideia de que a bíblia diz que a mulher pertence ao homem? É a ideia mais absurda que já ouvi em toda a minha vida de cristã.[/quote]

    Estamos a ver quem é que não leu a bíblia aqui. 🙂

    http://www.skepticsannotatedbible.com/women/long.html

    Vá, diz lá que aqueles mais de 300 exemplos são “tirados do contexto”… 🙂

    [quote comment=”19312″]Um conselho: antes de te afirmares ateu, procura primeiro investigar tudo. Eu sou cristã convicta, praticante mas não católica.[/quote]

    E tu, investigaste “tudo”?

    Incluindo a hipótese de o universo ser 100% natural?

    Incluindo a hipótese de acreditares num deus só porque queres muito, muito, muito que ele exista? Que queres acreditar que não se acaba tudo depois de morreres, mas simplesmente vais para “um lugar melhor”? Que o usas como “explicação” preguiçosa de tudo o que não compreendes (é muito mais fácil dizer “ah, Deus fez isto” do que investigar, ou simplesmente admitir que não sabemos, ainda…)?

    [quote comment=”19312″]EU nunca acreditei que a bíblia dissesse que o mundo foi criado há 6.000. Alias, não está escrita em parte nenhuma la. Foste ler isso na bíblia? Então como te atreves a dizer que a bíblia diz isso?[/quote]

    http://en.wikipedia.org/wiki/Young_Earth_creationism

    Se tens preguiça de ler, a parte importante é esta:

    The defining characteristic of this belief is that the Earth is “young”, on the order of 6,000 to 10,000 years old, rather than the age of 4.5 billion years estimated by a variety of scientific methods including radiometric dating. Some YECs derive their range of figures using the ages given in the genealogies and other dates in the Bible, similar to the process used by James Ussher (1581–1656), Archbishop of Armagh and Primate of Ireland, when he dated creation at 4004 BC. Ussher’s chronology, published in 1650, has been subsequently revised many times, most recently in 2003 by Larry and Marion Pierce. YECs believe that life was created by God ‘each after their kind’ in the universe’s first six normal-length (24-hour) days. Additionally, they believe that the Biblical account of Noah’s flood is historically true, maintaining that there was a worldwide flood (circa 2349 BC) that destroyed all terrestrial life except that which was saved on Noah’s Ark. Barry Setterfield proposed in 1999 that the flood occurred much earlier around 3536 BC.

  4. Wemerson diz:

    A biblia é, de fato, um livro complexo. Mas isto se explica pelo fato dela não ser um manual a respeito de Deus, mas uma biblioteca, ou coletânea contendo a história, a cultura, a ciência, o pensamento religioso e as revelações de Deus ao homem no decurso da existência humana. Ela não se preocupa em teorizar como o fazem os teólogos, mas em mostrar empiricamente como Deus se relacionou e por meio de quais códigos.
    Se você observar, Deus agiu de forma diferente em diferentes momentos da história respeitando a cosmovisão e desenvolvimento do ser humano.
    Mas ela contém pensamentos a respeito do que é o melhor para o homem, interpretações do homem sobre estes pensamentos e relatos sobre estas experiencias. Vendo assim, faz mais sentido ler a biblia. E é mais compreensível seu conteudo e suas contradições.

  5. Joana C. diz:

    Caramba, para um ateu, intriga-me este teu excessivo interesse em debater questões religiosas. Deixa cá ver…precisas de te convencer que és mesmo ateu e daí que este tipo de artigos sejam de facto recorrentes?
    Ok. Não acreditas, tudo na boa. Já o tens dito. Penso no entanto que te excedes nestas considerações e isso é que dá para desconfiar. É como a história do Constantino e do lobo: De tanto apregoar, às tantas já ninguém lhe ligava. Parece-me que isso está a contecer contigo.

    Cump.tos
    JC

    • Caramba, ao teres o trabalho de comentar num blog de um ateu (ainda por cima, num post com mais de 3 anos), não será que lá no fundo não tens realmente qualquer tipo de crença e só te queres convencer de que tens fé?

      Ou alguma coisa neste post te fez por momentos pôr em causa as tuas crenças, que já não eram muito fortes, o que te deixou furiosa comigo, porque a tua fé é aquilo que te define e dá sentido à tua existência, e se a perderes sentirás que desperdiçaste toda a tua vida?

      Não é agradável, pois não? 🙂 Mas dois podem jogar esse jogo.

      A sério, traçar perfis psicológicos parvos — como o que fizeste, ou como os dois que inventei para mostrar como isso é idiota — sobre alguém que não se conhece de lado nenhum… é algo típico de quem não tem argumentos quanto às questões propriamente ditas. Um bocado cobarde e desonesto… e muito típico nos religiosos. Não tarda muito estás a dizer-me que “odeio Deus” por alguma coisa que me aconteceu na infância.

      E, com o comentário acima, a contagem dos argumentos meus aos quais religiosos responderam, em vez de me insultar, dizer que “não percebo nada disto”, ou os tais perfis psicológicos baratos relativos às minhas motivações, passou a ser… zero. Não se tem resposta às ideias, ataca-se a pessoa.

  6. ike diz:

    Sou outro que vota na quarta opção.