O círculo vicioso da televisão

Quem me conhece, sabe que não vejo televisão há anos. Não só pela falta de qualidade e infestação constante de publicidade, mas também porque não gosto de ver coisas (séries, neste caso) a conta-gotas, com intervalos quando eles querem (e não quando eu preciso de ir à casa de banho ou coisa parecida :)), e não tenho pachorra para me lembrar de que o programa X dá à hora Y no dia Z.

Mas sei que estou em relativa minoria, sobretudo em relação aos motivos que não têm a ver com a falta de qualidade. Por outras palavras, sempre que vejo alguém a dizer que vê cada vez menos televisão, é apenas porque os programas, em geral, não prestam. As minhas outras razões, aparentemente, são só minhas. 🙂

Quanto à falta de qualidade em si, ao comentar no blog do Rui Moura, veio-me à cabeça o seguinte: a televisão está (segundo dizem; eu não posso confirmar 🙂 ) cada vez pior porque… está cada vez pior. Ou seja, é um círculo vicioso.

A coisa é mais ou menos assim:

A qualidade dos programas é baixa, o que faz com que quem tem mais miolos vá deixando de ver. Quem é que fica? Quem tem menos miolos. De seguida, os vários canais fazem, naturalmente, pesquisa de mercado, entre quem continua a ver televisão… e o que é que os inquéritos demonstram? Que ninguém vê este ou aquele documentário ou série com interesse que ainda resta, que o que “as audiências” querem é: mais telenovelas, mais “reality shows”, mais futebol, mais sensacionalismo nas notícias, mais coisas “pimba”, mais programas de treta.

Ora, eles seguem o que essa pesquisa indica, fazendo descer ainda mais a qualidade dos programas. Resultado? A “camada de cima” (em termos de inteligência) também já não aguenta, e deixa de ver. Com isso, a média de inteligência desce ainda mais. Adivinhem lá o que é que os próximos inquéritos vão mostrar…

Por outras palavras, é um caso perdido. Quem tem bom gosto vai deixando de ver; quem tem mau gosto e fica, “pede” coisas ainda piores.

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4 Comentários a “O círculo vicioso da televisão”

  1. Rui Moura diz:

    Nunca seuqer tinha pensado nisto, mas realmente tem uma lógica tremenda … É mesmo um ciclo vicioso, sempre a nivelar para baixo a qualidade dos programas.

  2. velvetsatine diz:

    O teu raciocínio tem lógica mas a verdade é que há bons programas na TV e, felizmente, muito variados. Há é que saber escolher. Por exemplo, normalmente vejo séries que me agradam (em especial nos canais por cabo, nos outros canais adormeço durante os intervalos); há documentários interessantíssimos também sobre ciência, medicina, educação, vida animal, etc – é só escolher as nossas áreas de interesse.

    Sempre gostei muito de comédias e não faltam canais (novamente por cabo) a transmitir excelentes séries de humor: The Office, Little Britain, The League of Gentleman, Wild West, Goodness Gracious Me entre muitos outros.

    A TV pode ser como um mau livro. Mas os maus livros também se podem colocar de parte e permitir-nos escolher um melhor ou mais conforme os nossos gostos.

    A questão da inteligência é segundo a minha opinião sobrevalorizada. Uma pessoa cognitivamente mais dotada do que outras não será necessariamente uma pessoa mais interessante. Não me esqueço nunca do choque que foi para mim descobrir que um amigo meu, ser intelectualmente brilhante e capaz dos raciocínios mais arrojados que alguma vez tive o privilégio de conhecer, me dizer que a pintura e a literatura em geral a ele não lhe diziam nada.

    Houve uma altura em que não via TV de todo porque tinha outros interesses. Actualmente passam-se dias sem ver TV mas sempre que quero e/ ou posso vejo os programas que mais aprecio, mas tenho a vantagem de poder escolher mais do que o que os 4 canais têm para oferecer.

  3. [quote post=”311″]O teu raciocínio tem lógica mas a verdade é que há bons programas na TV e, felizmente, muito variados. Há é que saber escolher. Por exemplo, normalmente vejo séries que me agradam (em especial nos canais por cabo, nos outros canais adormeço durante os intervalos); há documentários interessantíssimos também sobre ciência, medicina, educação, vida animal, etc – é só escolher as nossas áreas de interesse.

    Sempre gostei muito de comédias e não faltam canais (novamente por cabo) a transmitir excelentes séries de humor: The Office, Little Britain, The League of Gentleman, Wild West, Goodness Gracious Me entre muitos outros.[/quote]

    Eu admiti que não vejo TV há uns bons anos, e que grande parte das minhas razões não têm a ver com a qualidade dos programas, mas sim com o facto de eu querer escolher o que vejo, e a que horas, e sem publicidades, e com botão de pausa. 🙂

    Para mim, a ideia de ligar a TV e ficar um bocado a vê-la, independentemente do que estiver a dar, é completamente absurda, ridícula, estúpida, e impensável. E no entanto, acho que é isso que as pessoas ditas “normais” fazem…

    Anyway, não só vejo as pessoas a queixar-se permanentemente da “pimbalização” da programação e do crescente sensacionalismo das notícias, como ocasionalmente alguém me fala, por acaso, de algum programa, e eu fico assombrado… no mau sentido. Não tarda muito há um “Blackmail”, como nos Monty Python. 🙂

    [quote post=”311″]A questão da inteligência é segundo a minha opinião sobrevalorizada. Uma pessoa cognitivamente mais dotada do que outras não será necessariamente uma pessoa mais interessante. Não me esqueço nunca do choque que foi para mim descobrir que um amigo meu, ser intelectualmente brilhante e capaz dos raciocínios mais arrojados que alguma vez tive o privilégio de conhecer, me dizer que a pintura e a literatura em geral a ele não lhe diziam nada.[/quote]

    Talvez isso seja uma visão muito limitativa de “inteligência”. É como dizer que alguém é um grande matemático só porque faz contas de cabeça muito depressa. Matemática — e inteligência — é bem mais do que isso…

    Quanto ao “sobrevalorizada”, diria exactamente o contrário: que as pessoas não lhe dão a devida importância. Mas isso é outra guerra…

  4. velvetsatine diz:

    Não se trata de uma visão muito limitativa da inteligência mas sim um exemplo que cumpria ilustrar a minha posição.

    Existem tantas coisas estúpidas e ridículas. Para mim é impensável ficar por exemplo a jogar horas e horas. Prefiro criar: pintar, fazer colagens ou outras coisas. Acho que o facto de todos termos personalidades e estímulos diferentes nos fazem preferir umas coisas em detrimento de outras.

    Quanto à TV temos sempre escolha: ligamo-la ou não. (Tu por exmeplo, optas por não a ligar.)Quando algo me interessa ligo-a, quando não interessa, desligo-a. O mesmo procedimento é feito com livros, cinema, música: se gosto leio, vejo, oiço – se não gosto, não. O facto de ser boa ou má para mim é irrelevante: é um meio tecnológico de informação e entretenimento válido como outro qualquer. Já a qualidade de programas poderá ser questionável, mas o objectivo da caixinha colorida, no que me diz respeito, faz todo o sentido independentemente de ver TV todos os dias ou não.