Ligar a quem nos deseja mal

Imagina que alguém chega ao pé de ti e diz o seguinte:

A tua felicidade causa-me sofrimento. Não perguntes porquê, isso é cá comigo. Mas, se não és um monstro egoísta, a partir de agora, serás infeliz, de forma a que eu não o seja.

Qual seria a tua reacção? Eu sei qual seria a minha, e seria tudo menos simpática… 🙂 Acho, também, que qualquer um que ligue sequer a esse ser hediondo, estará a demonstrar uma tremenda falta de auto-estima e auto-respeito.

Mas… se bem que o exemplo é obviamente exagerado (entre outras coisas, porque ninguém que nos deseja mal é, normalmente, tão sincero), será que não há versões mais subtis disto, no dia a dia?

E será que não cedemos a essas criaturas, ocasionalmente?

Um exemplo comum: alguém, que já sabemos ser desprezível, vulgar, baixo, etc., diz-nos algo para nos magoar. Critica o nosso trabalho, ou a nossa maneira de ser… e não me refiro a uma crítica construtiva, mas mesmo a algo dito obviamente para nos deitar abaixo. Trata-se de alguém que sabe exactamente onde tocar para nos fazer sentir uns seres desprezíveis. Isso afecta-nos, deprime-nos.

Ora, ao reagirmos assim, não estamos a fazer exactamente o mesmo que faz alguém que ceda a um “a tua felicidade faz-me mal; sê infeliz”? Não é algo mais semelhante do que parece à primeira vista? Não passamos a nossa vida a ligar a quem obviamente nos quer mal — seja um colega de trabalho, um familiar, ou algum outro tipo de conhecimento? Sentimos que, se essa pessoa nos diz isso, deve ter alguma razão para isso, e acreditamos no que ela disse — apesar de só nos querer deitar abaixo.

Porque é que ligamos tanto a pessoas que nos querem mal? Será porque consideramos que elas são incapazes de ser más? Porque pensamos que são tão honestas e bem-intencionadas como nós? Ou porque, simplesmente, achamos que toda e qualquer forma de auto-estima é “egoísmo arrogante”, que temos de tentar agradar a todos, e que a nossa felicidade não é importante? Porque acreditamos que julgar os outros é sempre errado, mas, ao mesmo tempo, achamos que, quando nos julgam a nós, devem ter lá as suas razões?

Além da falta de auto-estima, isto vem também de uma “moralidade” subjectiva e relativista, de uma incapacidade de ver as coisas objectivamente. Devia ser óbvio. Alguém quer-nos mal? OK, é uma pessoa má. Agradar-lhe não deverá estar na nossa lista de prioridades; é uma pessoa a ignorar, e, se possível, evitar. Fim da questão. Mas não… achamos sempre que não podemos julgar os outros, e que ninguém é “mau”, que pensar em “bom” e “mau” é coisa de criança…

4 Comentários a “Ligar a quem nos deseja mal”

  1. velvetsatine diz:

    Ó Pedro, mas tu acreditas mesmo que as pessoas não se julgam umas às outras? Fazem-no constantemente; apenas não o dizem. Emitimos juízos de valor a toda a hora; comparamo-nos aos outros; comparamos as nossas vidas com as dos outros. As nossas relações pessoais são um intricado de julgamentos, críticas, sentimentos paradoxais, ambíguos. Claro que no meio disto tudo existem também sentimentos de simpatia, empatia, amor pelos outros.

    Muitas vezes as pessoas dizem coisas somente para magoar; sabem os danos que causam. Eu já o fiz. Nalgumas vezes arrependo-me de o ter feito, noutras acho que tudo o que disse à pessoa foi pouco.

    Se numas alturas tu és magoado, noutras magoas. Não há preto e branco nas relações humanas; são bem mais complexas do que colocar as pessoas em compartimentos com rótulos de mau ou bom. Uma “pessoa boa” faz coisas más, uma “pessoa má” faz coisas boas. Há um livro do Nick Hornby (um dos meus preferidos) a respeito disto; chama-se “How to be good”

    Mas, apesar de tudo o que escrevi, não me parece nem muito saudável nem muito normal alguém sentir sofrimento perante a felicidade alheia; que não te sintas feliz porque o outro está feliz (existindo obviamente alguma razão particular para tal é uma coisa) mas sentir-se sofrimento perante a felicidade do outro é caso para ser psiquiatricamente estudado.

    Isto dava pano para mangas, mas estou muito cansada e já não consigo articular o meu pensamento tão bem quanto o que desejaria.

  2. patricia diz:

    Ao ler o teu post, sinti-me bem. Tive, por momentos, a ilusão de que viviamos num mundo composto essencialmente por gente “honesta e bem-intencionada”, por gente “boa”. Tive a ilusão que os “maus” estavam identificados, que só havia preto e branco (bom, esta parte arrepia-me um bocadinho).
    Mas foi só por momentos.
    Só porque alguém não gosta de nós, não tem que ser necessariamente uma pessoa “má”.Tal como eu não me considero má por não gostar de certas pessoas. Obviamente não me sinto feliz com a infelicidade deles. o máximo onde já cheguei, foi essas pessoas me serem indiferentes. Não quero saber o que lhes acontece.
    A “intenção” de magoar alguém, é sem dúvida condenável, muitas vezes justificável e acima de tudo Humana. Ou tu nunca criticaste ninguém? Nunca magoaste ninguém com, maior ou menor, intenção?
    Quanto a julgar os outros, tento não o fazer. Geralmente não consigo deixar de o fazer. Tenho opinião, e como toda a gente, tenho a tendência para achar que tenho razão! Mesmo quando não a tenho!
    Mas tento não ser demasiado intolerante, porque tenho noção que eu também estou longe da perfeição; que a vida humana, o ser humano não se podem traduzir numa equação linear. Por isso é que é tão divertido viver. Como dizia o Forrest Gump, ” a vida é como uma caixa de chocolates”.
    Quanto a “auto-estima”, não acho que sentir-se magoado com alguém mal-intencionado seja não a ter. (até podia dizer-te “quem não se sente não é filho de boa gente”, mas acho que não irias achar piada, por isso é melhor não).
    fica bem

  3. to diz:

    Eu conheço pessoas que estão mal quando me sinto feliz, e pior já o sabem e portanto fazem de tudo para me fazer sentir mal. O que aprendi é que realmente não merecem nada nem a minima preocupação, apenas sinto mais curiosidade no porquê que isso acontece porque quanto a ligar-lhes e ás suas queixas já não sinto vontade de lhes ligar pois não o fizeram comigo. Embora saiba algo mais, está tudo muito complexo e na verdade às vezes não sei o que fazer, e essa duvida é mais destrutiva que alguma reacção mesmo que errada, mas revela sem duvida a falta de auto-estima.

  4. Sarita diz:

    Concordo com a resposta da Velvetsatine e assino por baixo. Mas pelos vistos ja nao sou a primeira a dizer-te para leres Nick Hornby. Sera que ele ja resolveu (e escreveu sobre) os problemas que tu ainda queres resolver 😉

    Beijinhos,
    sara