Cortesia em blogs

Este blog tem 2 anos e 2 meses, e neste momento tem 558 comentários de leitores. Neste tempo todo, sem contar com o spam (e como sou, entre outras coisas, informático, só chamo “spam” a publicidade e afins, não meramente a coisas que não me agradam, como muita gente faz), acho que não devo ter “cortado” nem 5 comentários… até esta semana. Nunca tive problemas em que discordem de mim, e (talvez devido à minha maneira de ser) sou, talvez, permissivo demais; dou sempre segundas chances às pessoas, dou-lhes sempre o benefício da dúvida, e preciso de ter a certeza das intenções nocivas de alguém para lhe fazer o equivalente a, caso se tratasse de alguém fisicamente em minha casa, lhe mostrar a porta.

Aliás, essa comparação é, na minha opinião, bastante apropriada. Vejo um blog, fórum, ou outro tipo de site como o equivalente à casa de alguém. Quando se é um convidado numa casa alheia, pode-se, obviamente, discordar do anfitrião, e expressar esse desacordo, mas não se pode ser mal-educado com ele, nem desrespeitador ou insultuoso, nem sujar ou estragar a casa. Para mim, isso é óbvio — e acho que alguém que seja convidado a sair por estar a passar dos limites não irá (a não ser que esteja muito bêbado) barafustar porque “estão a atentar contra a sua liberdade”, porque “tem o direito de expressar a sua opinião”, ou porque “a casa onde está é um sítio público” (!).

Infelizmente, a Internet permite um tipo de anonimato que leva a que as pessoas não tenham em mente, por vezes, essas noções de cortesia básica…

É o caso, por exemplo, de alguns comentários aos meus posts sobre o aborto, que eu não aceitei, e que chegaram a um nível de insultos e desrespeito que, simplesmente, não é bem-vindo aqui. A maior parte desses comentários é da mesma pessoa, e, não, não é alguém que tenha comentado aqui no passado. Neste momento, hesito em aprovar algum comentário futuro dessa pessoa, mesmo que seja “decente”, porque o sistema, aí, passa a aceitar esses comentários automaticamente. Sim, é possível dar a volta a isso, mas não quero prejudicar o blog — nem o resto dos leitores — por causa disso.

O referido comentador pode, obviamente, criar o seu próprio blog, no qual pode insultar quem quiser, e ao qual eu terei todo o prazer em não ir. Mas eu não tenho qualquer obrigação — incluindo moral — de lhe dar uma plataforma para me insultar.

Antes que comecem a gritar “censura!!!”, vejam os últimos posts sobre o aborto, e vejam o tipo de comentários que eu permiti que passassem. A maior parte deles não concorda comigo (muito pelo contrário, não podiam discordar mais), e alguns chegam a não ser nada simpáticos — e são específicos para mim, não para “quem pense como eu”. E, mesmo assim, estão lá. Agora, imaginem os que não passaram…

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Um Comentário a “Cortesia em blogs”

  1. Mónica diz:

    Andava há algum tempo para vir aqui dizer qualquer coisa. Dizer que gostei muito do teu post sbre o aborto, que conseguiste sintetizar o que é essencial sobre a questão e sobre os argumentos do não: argumentos moralistas que só promovem a violência, como acontece com todos os discursos moralistas – provocam a violência que passa nos discursos, a violência que recai sobre cada um de nós e a nossa identidade. É muito difícil aceitar que alguém tente discutir um assunto tão importante sem ter bases racionais, usando apenas um moralismo fácil. Também é difícil aceitar que os própios media entrem nesse jogo – como é que a Visão faz um artigo sobre a resposta de cada religião? Não se trata de saber se uma religião é a favor ou contra o aborto – sinceramente até percebo que uma religião diga que não se deve abortar, e que como tal, os seus crentes não o façam – mas não faz sentido dizer “votem não” porque a religião X o diz. Eu não sou a religião X, nem a Y… E depois esta ideia do embrião-ser-humano-vulnerável-que-devemos-louvar… Dizer isto só faz com que uma mulher que tenha engravidado e abortado espontaneamente se sinta mal: afinal foi um filho que morreu e não apenas uma gravidez que não se concetizou, como acontece cada vez mais. Por fim desconfio que se isto fosse uma questão de homens (nada de pessoal, ok?) seria mais fácil aceitar que um indivíduo pode conscientemente decidir que quer interromper aquela gravidez. Da mulher fala-se no abstracto, na mulher não se pode confiar…
    Mas o que te queria mesmo dizer era que achei muito louvável da tua parte responderes a todos os comentários usando argumentos racionais e válidos, que é que se precisa para discutir assuntos tão importantes.