Aborto: a vingança parte II

(ei, já vi títulos piores!)

Nota: o seguinte é adaptado e um pouco expandido de um comentário que fiz no blog do Mário Lopes. Uma boa parte do que se segue já foi dito noutros posts, recentemente, aqui, mas não exactamente por estas palavras… e nem tudo é repetido.

Tento, também, responder, finalmente, à questão do Samuel: “O que é que é um ser humano? Quando é que um feto se torna um ser humano?”, se bem que o comentário-tornado-post, em geral, não foi escrito para responder a essa questão, mas sim ao tal post do Mário Lopes. Daí ser expandido, e não copiado. 🙂

Without further ado…


Acho que é a história de sempre: a separação da moralidade e do sofrimento.

Se definirmos “moral” como aquilo que reduz o sofrimento, então a despenalização do aborto é obviamente moral: reduz o sofrimento das mães, e não condena crianças “obrigadas a nascer” (por um Estado que não tem, nem devia ter, nada a ver com isso) a vidas de sofrimento.

O problema é quando alteramos a definição de “moralidade”, de forma a esta não estar minimamente relacionada com o sofrimento ou a redução/aumento deste. É aqui o caso: quem é anti-aborto sob qualquer circunstância não tem problemas em condenar milhões de pessoas a vidas inteiras de sofrimento. Vêem-se como “defensores da vida”, e isso fá-los sentir-se muito bem. 🙁 É o que dá deixar-se dominar pelas emoções, e não pensar nas coisas…

O que é que define um ser humano? Se se é religioso, é algo indetectável e indefinível chamado “alma”. Não é o meu caso, obviamente. Então o que será? Eu acho que é o cérebro. Um feto ainda não tem o cérebro formado.. É um ser vivo? Sem dúvida… afinal, qualquer uma das células do corpo está viva, e inúmeras morrem e nascem todos os dias. Mas é um ser humano? Eu acredito que não o é, ainda… mas, mesmo que isso possa ser discutível, o que não é discutível é que a mãe o é… e é, também, dona do seu corpo.

De qualquer forma, para mim a questão do sofrimento é a mais importante. Todas as evoluções da moralidade ao longo da história (des-legalização (não necessariamente ilegalização, mas essas coisas eram parte da lei, em tempos) do racismo, da escravatura, da tortura, da inquisição religiosa, das mulheres como propriedade — algumas das quais ainda estão por acontecer em países muçulmanos) aconteceram porque as pessoas, com o tempo, perceberam que uma moralidade abstracta e arbitrária não justificava o sofrimento injusto e cruel de milhões.

Por isso é que, hoje em dia, quem disser que é a favor da escravatura será visto (e muito correctamente) como um monstro, um abusador de outros seres humanos, um fóssil de muitos outros que, em tempos, fizeram milhões sofrer durante séculos e séculos. A sua posição é a que era aceite pela maioria, séculos atrás. Considerada não apenas aceitável, mas moral. Mas a moralidade das pessoas mudou, felizmente. Evoluiu.

A criminalização do aborto é apenas mais um desses casos. E, um dia, será vista exactamente da mesma forma.

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3 Comentários a “Aborto: a vingança parte II”

  1. velvetsatine diz:

    É curioso que na minha perspectiva a questão do sofrimento não se coloca dessa forma porque a meu ver a mãe sofre igualmente ou possivelmente bem mais ao abortar. Julgo que na sua maioria as mulheres que tenham efectuado um aborto não o tenham feito de ânimo leve – e devem ter sofrido física e psicologicamente muito com essa escolha. Para todos os efeitos é uma violência que se pratica contra um ser vivo (o feto que se desenvolve no útero materno) assim como para o corpo que o aloja.

    Sendo a favor da despenalização do aborto não considero de modo algum a desculpa de os pais não terem condições económicas para criar a criança e proporcionar-lhe uma vida digna. Essa para mim é uma fraca desculpa que não serve de todo de desculpa. Existe o planeamento fmailiar que visa exactamente evitar situações do género.

    Deveria no entanto caber a cada um e de acordo com a sua consciência (ou falta dela) agir e decidir no que diz respeito a questão do aborto.

  2. [quote post=”325″]É curioso que na minha perspectiva a questão do sofrimento não se coloca dessa forma porque a meu ver a mãe sofre igualmente ou possivelmente bem mais ao abortar.[/quote]

    Sim, mas não é obrigada a fazê-lo, certo? Se o faz, é porque a alternativa é ainda pior…

    [quote post=”325″]Sendo a favor da despenalização do aborto não considero de modo algum a desculpa de os pais não terem condições económicas para criar a criança e proporcionar-lhe uma vida digna.[/quote]

    Não falei apenas em “condições económicas”, mas em condições, ponto.

    Eu acredito que até são raros os casos em que uma mulher quer abortar, mas, devido à lei, não o faz. As que têm dinheiro, vão a Espanha. As que não têm, fazem-no clandestinamente cá (muitas vezes sob grande risco de vida). Tornar o aborto legal não o vai tornar necessariamente mais frequente.

    Um dos argumentos dos “nãos” é que “as mulheres vão passar a abortar como quem vai ao dentista”, e isso é completamente absurdo, porque, mesmo que não haja grande consciência e maturidade da parte da mulher (e querem que ESSAS sejam mães!?!? que criem e eduquem uma criança?!?), o aborto é sempre um trauma físico e psicológico, além de que, mesmo legalizado, provavelmente não custará menos de 500 euros. Logo, são argumentos inválidos.

  3. Cris diz:

    velvetsatine, se achas que “não terem condições económicas para criar a criança” é uma desculpa, então sai da tua concha e olha o mundo com mais atenção.