A capacidade de conduzir

Sim, é mais um “rant” sobre a condução em Portugal. 🙂

Uma das coisas que me deixa frustrado, ao conduzir, é ir atrás de pessoas que claramente não têm – ou não têm – capacidade física e/ou mental para conduzir… mas continuam a fazê-lo, estando-se nas tintas para o facto de prejudicarem o trânsito, e, muitas vezes, porem outros em perigo.

Em geral – mas não sempre – trata-se de idosos. Não, não tenho qualquer tipo de preconceitos contra os mesmos, mas considero a situação da condução de muitos deles equivalente à dos cegos. Não deixar os cegos conduzir é sinal de preconceito contra eles? Claro que não, nem ninguém sugeriria tal disparate – nem se vê aí campanhas da parte dos cegos a reivindicar o seu direito à condução, mesmo não vendo (literalmente) nada à frente deles. Não é preconceito, não é descriminação – simplesmente, eles não têm a capacidade física para conduzir.

Eu acredito – e já sei que vou ser acusado de elitismo, but bear with me – que isso devia ser extendido a outros casos.

Já o disse aqui há uns anos, mas conduzir, acreditem ou não, é algo bem mais complicado do que parece, e a maior parte dos condutores não se apercebe disso porque faz quase tudo por instinto, por hábito. Mas, se esquecermos temporariamente o hábito, e formos a contar em quantas coisas é preciso mexer, e a quantas coisas é necessário estar atento, vemos que não é assim tão simples. É, até, bem mais exigente em termos de coordenação motora, reflexos, e sentidos em geral, do que praticamente qualquer videojogo – que muita gente se “gaba” de não ser fisicamente capaz de controlar (veja-se o sucesso da Wii, que dá a volta a isso). O que é que é mais difícil de controlar: um carro típico, ou um jogo de Xbox ou Playstation? Eu diria que é o primeiro. Até porque há uma coisa totalmente imprevisível e caótica chamada “outros condutores”.

E preciso de mencionar que um videojogo, em geral, não nos põe a nós nem aos outros em perigo de vida?

Mais um exemplo para comparação: pilotos comerciais de aviões. Não é qualquer um; é preciso, entre outras coisas, ver muito bem, ter a capacidade para tomar decisões “split second”, e não se enervar à primeira dificuldade. Ninguém acusa uma companhia de aviação de “descriminação” por recusar alguém que não esteja em perfeito estado físico e mental – muito pelo contrário, seria criminalmente irresponsável se não o recusassem.

Não era bom começar-se a aceitar que conduzir não é um “direito de todos” (afinal, os cegos já não podem), e, para a segurança de toda a gente, passar-se a testar a tal coordenação física e estabilidade mental de toda a gente – mesmo que isso implique tirar a carta a metade das pessoas acima dos 55 anos (e muitos bem mais jovens, também)?

Vá, acusem-me lá de elitismo, descriminação contra os idosos, e essas coisas. Eu adoro quando as pessoas me chamam nomes sem ler o post inteiro. 🙂

Um Comentário a “A capacidade de conduzir”

  1. […] pensemos, ainda em relação a este assunto, na questão dos limites de […]