A capacidade de conduzir, parte 2: o álcool

Os leitores regulares do Ostras (eu ainda gosto de me convencer de que eles existem) saberão qual é a minha opinião em relação aos limites de álcool no sangue, que é igual à dos limites de velocidade: devem existir, mas são baixos demais.

Mas pensemos, ainda em relação a este assunto, na questão dos limites de álcool.

A razão principal para estes existirem e serem tão baixos, dizem “eles”, é que o álcool reduz os reflexos, aumentando o tempo de reacção, o que é propício a acidentes.

A implicação disto para mim é óbvia, se bem que ninguém parece pensar nisso: há um nível mínimo de reflexos considerado “seguro” para conduzir. Supostamente, o álcool faz-nos descer abaixo desse limite, tornando-nos um perigo para nós e para os outros.

O que dizer, então, de alguém que, mesmo sem tocar numa gota de álcool, no seu estado normal, tem reflexos abaixo desse nível? Tem naturalmente piores reflexos do que os da pessoa “média” depois de 2 copos? Não está implícito que tal pessoa não tem capacidade para conduzir nunca? Que como tal devia ser impedida de o fazer, pelas mesmas razões que existem limites de álcool: a sua segurança e a dos outros? “Lamentamos, mas o senhor demonstrou não ter reflexos para conduzir”?

Eu acho que sim. Já sei, já sei, elitista nojento.

19 Comentários a “A capacidade de conduzir, parte 2: o álcool”

  1. Sarita diz:

    Ai a arrogancia, a arrogancia. Se um dia tivesses um acidente sério em que magoasses alguém, nao sentirias o mesmo. Um erro que cause um acidente, seja de quem for, do condutor, do passageiro, do peao, da estrada, do carro, é irrelevante, todo e qualquer pequeno erro pode causar a morte de alguém. E depois, haverá alguém que se sinta melhor porque a morte de alguém nao foi causada pelos seus dois copos, mas por estupidez alheia?

    Nao me parece, olhe que nao, olhe que nao 😐

    • Acho que isso se afasta um bocado do que eu escrevi. 🙂

      Ou melhor, acabas, inadvertidamente, por concordar. Se se proíbe os dois copos porque eles diminuem os reflexos e podem causar acidentes, então não haveria mais razão para se proibir a condução ao gajo que, sem beber, tem reflexos tão maus ou piores do que o primeiro gajo depois dos dois copos?

      E no entanto…

  2. Sarita diz:

    Pedrinho, mas isto é um concurso para ver qual é o estúpido que mata mais pessoas? Eu só mato duas com dois copos, tu matas cinco sem nenhum?

    O ideal seria nenhum acidente acontecer, ou pelo menos por falha humana, o que faz com que se estabelecam limites por baixo, de forma a tentar que pelo menos cada condutor esteja no seu melhor.

    Isto é uma nao discussao, por mais voltas que a tua brilhante capacidade intelectual e linguistica lhe saiba dar, tu sabes que nao ha discussao possivel – mesmo que eu nao a consiga discutir 🙂

    Biju

    • Mantenho que não percebeste o que queria dizer, e que estás a discutir uma coisa um bocado ao lado. 🙂

      Sim, eu acho que os limites de álcool são demasiado baixos, mas o meu post não é sobre isso… é sobre o facto de que, se é por aí, então devia-se proibir quem quer que seja que, sem beber nada, tem piores reflexos do que os que beberam. E, sim, isso inclui muita gente de cabelo branco. Sorry, mas é verdade.

      Por outras palavras, se o problema são os maus reflexos, então ataquem os maus reflexos — seja qual for a causa dos mesmos, incluindo doença ou idade –, e não apenas uma certa causa específica.

      • Sarita diz:

        E eu volto ao meu comentário inicial, as palavras de abertura: arrogancia, arrogancia.

        Esperemos que nunca causes um acidente que provoque a morte ou o ferimento de alguém, porque aí os teus reflexos rápidos deixam de servir para alguma coisa. É que as realidades nunca sao tao lineares assim, só porque tu tens reflexos melhores que o sr. de cabelos brancos, nao quer dizer que um acidente nao aconteca. Aliás, se calhar as vezes até podia acontecer exactamente por teres melhores reflexos, porque ainda tentas fazer algo, que se calhar por obra do acaso, ainda piora as coisas.

        Pedrinho kikos, estas coisas nao sao preto e branco, as coisas mais estúpidas e estranhas acontecem, mesmo aos melhores.

        • OK, mas esquece o caso dos copos agora. Não achas que há tantos motivos válidos para impedir de conduzir o senhor de cabelos brancos que já não vê assim tão bem e tem reflexos tão maus como um jovem alcoolizado?

          Não é nada contra ele como pessoa; só acho que tem tão poucas condições de conduzir em segurança como o tal jovem com os copos. Se são “boas” ou “más”, isto afasta-se do tema do post; a questão é que são [i]equivalentes[/i].

          • Sarita diz:

            A equivalencia so pode ser medida pelo numero de acidentes que cada qual tenha, o que convenhamos, talvez nao seja a melhor maneira de medida.

            Concordo contigo que se calhar algumas pessoas mais velhas nao devessem conduzir, mas discordo quando a ponto assente na idade. Eu acho que todos os condutores deveriam ser testados anualmente, há por aí muito bronco na estrada, e nao é só pela falta de conhecimento do código da estrada, existe também muita falta de civilidade, o que provoca acidentes.

            Ah, e esqueceste-te, um jovem pode ter melhores reflexos, mas isso nao faz com que tenha mais experiencia, o que quer dizer que uma pessoa mais velha pode ter um melhor actuacao, poderá manter o tino, ao invés de um jovem alcoolizado, que podera nao saber o que fazer.

            A verdade é que um velho tem nocao que é velho, provavelmente sente-o em tudo o que faz, e como tal terá mais tendencia a ter mais cuidado a conduzir, dar-se-a mais tempo e margem de manobra para fazer as coisas, porque sabe que pode nao estar tao bem como foi um dia – o que o torna um condutor mais seguro.

            Enfim, Pedro, podemos elaborar em todas as situacoes possiveis, mas isso nao quer dizer que 1) estas acontecam como esperamos que acontecam e 2) que estejamos correctos.

            • Sarita diz:

              e porra, a minha linguagem é atroz, civilidade? shoot me!
              civismo, civismo, porra!

              • Ei, estás a viver num país de língua diferente, é natural. Eu também tenho esse problema, mesmo estando em Portugal, porque só leio em inglês. Por exemplo, como é que se traduz “enforce”, no sentido de “enforce a law”? Ainda não cheguei lá. 🙂

                • Sarita diz:

                  manter a lei? Ha expressoes dificeis de traduzir, mas a responsabilidade de manter a lei, de exercer a autoridade?

                  • Acho que não é bem isso, sorry. “Fazer cumprir”, talvez, mas mesmo isso não é perfeito.

                    A minha ideia era algo assim:

                    It is to any government’s advantage to make many laws that are vague and virtually impossible to follow, and which it has no intention of ever enforcing, because that turns everyone into a “criminal” — and the government will act on that if it ever needs to.

                    Isso é para um possível post futuro. Vês o que dá ler tanto em inglês? Aí é fácil, e soa natural. 🙂

                    • Sarita diz:

                      Eu detesto traduzir, ou penso numa lingua ou na outra, as linhas nao se cruzam, e quando se cruzam, nao faco a minima ideia que língua ou gramática esteja a usar, mas é sempre imaginativa!

            • A verdade é que um velho tem nocao que é velho, provavelmente sente-o em tudo o que faz, e como tal terá mais tendencia a ter mais cuidado a conduzir, dar-se-a mais tempo e margem de manobra para fazer as coisas, porque sabe que pode nao estar tao bem como foi um dia – o que o torna um condutor mais seguro.

              Sabes como é que a polícia apanha os condutores com algum álcool (não me refiro aos bêbados a sério, mas aos que já beberam um bocado mais do que o limite)? Mandam parar aqueles que andam visivelmente mais devagar, com mais cuidado.

              Portanto, se eles têm juízo para andar mais devagar devido aos reflexos mais lentos, isso não implicaria que são tão seguros como os tais idosos que mencionas?

              E no entanto só uns é que são multados.

  3. Sarita diz:

    E ouve la, mas és mais importante que o resto de nós (os teus leitores assíduos)? Porque é que tens uma font maior cás nossas? 😛

  4. Marcos diz:

    Pedroca,

    concordo com você… em parte. A Sarita tem razão ao dizer que preto + branco nem sempre resulta em 5. É só olhar as estatísticas de acidentes nas diferentes faixas etárias: entre condutores com 18 a 28 anos elas são assustadoramente mais altas que entre condutores com 42 a 60 anos. Por que? Porque apesar de os quarentões terem os reflexos até certa medida atenuados pela implacável ação do tempo, eles não dão uns de dare-devils da vida de querer superar limites insuperáveis. A experiência conta, sim. Lógico, pessoas que estão mais pra lá do que pra cá no quesito reflexos, coordenação motora e tal, têm mais é que sair de circulação. Literalmente.
    Uma coisa é certa: você pode encher a cara e elevar os níveis de etanol a mais de 2 partes por mil – por mais cuidado que você tenha, as suas chances de se envolver em um acidente não são nada baixas.
    Assinado: Marcos, que trocou as perigosas ruas de sua cidade natal pelas agradáveis vias de sua nova cidade, onde transita despreocupadamente de bicicleta…