Coisas que me irritam, parte 5

Pessoas (em geral idosos) que não têm qualquer problema em ficar na conversa fiada com os empregados de uma loja, havendo uma fila de pessoas atrás, estando essas pessoas muitas vezes com pressa (porque estão na hora de almoço e têm de ir trabalhar, por exemplo).

Repare-se, eu até compreendo a posição destes idosos aqui. Estão reformados, têm muitas vezes tanto tempo livre que não sabem o que fazer com ele (aqui ao pé do meu trabalho há um velhote que vai várias vezes por dia espreitar o carro, e com um lenço limpar qualquer tipo de “impureza” no mesmo; não deve ter mesmo mais nada pelo que viver), e em geral os membros mais novos da família não lhes ligam nenhuma, pelo que se sentem sozinhos e têm imensa necessidade de conversar, contar a história da sua vida, e coisas do género. Compreendo isso.

O que não compreendo é que se seja tão egoísta e se tenha tão pouca empatia para com o próximo que não se tenha problemas em prejudicar – possivelmente de forma séria, caso alguém tenha de tratar de uma coisa importante e tenha de ir/voltar para o trabalho – outras pessoas que não têm nada a ver.

E os empregados, em geral, não ligam: estão a ser pagos à hora, e estar a “ouvir na diagonal” as histórias do velhote durante uma hora é até menos trabalhoso do que atender 20-30 clientes nesse mesmo tempo. E das poucas vezes em que eles se apercebem disso (o que noto ser raro), o que é que eles podem fazer? Ser firmes/antipáticos com o idoso? É complicado. E em geral estes últimos não percebem a indirecta do “deseja mais alguma coisa?”.

Noto isto todas as vezes que vou aos correios; às vezes pode apenas haver uma pessoa à minha frente, e mesmo assim tenho de esperar lá 15-30 minutos, porque a velhota não pode enviar uma carta para a filha sem contar à empregada a história da filha desde o nascimento até hoje. E, claro, tratando-se de um serviço público e essencial, não há qualquer motivação para se ter um atendimento melhor, mesmo que isso signifique apenas “mais do que uma pessoa a atender”. No banco, onde fui ontem, a mesma coisa. Na loja da Vodafone, a que fui hoje, o mesmo – apesar de ter esperado quase meia-hora, quando saí ainda havia 2 pessoas a ser atendidas que já o estavam a ser quando eu cheguei (e não quando fui atendido). Num dos casos, o velhote queria que a empregada lhe estivesse a mostrar todos os toques do telemóvel dele para ele decidir… e claro que isso não implicava mostrar cada um apenas uma vez. E nem o velhote teve problemas com as inúmeras pessoas à espera, nem a empregada teve alguma consciência de que não devia propriamente estar a fazer aquilo (não havendo ninguém à espera, talvez… mas com a loja cheia?).

E desculpem o desabafo. 🙂

P.S. – isto não é anti-idosos, é anti-idosos-que-fazem-isto.

9 Comentários a “Coisas que me irritam, parte 5”

  1. Ana diz:

    Em defesa dos funcionários da loja(até porque ja trabalhei nessa empre

  2. Sarita diz:

    Sem querer ser insolente (já que esta é a tua casa e eu nao quero mesmo ser deselegante), a mim parece-me que as coisas que te irritam envolvem sempre idosos… :O

    Há coisas pelas quais nao vale a pena irritarmo-nos, porque simplesmente nao as podemos mudar. Fazer o que com os velhotes? Mata-los? Remove-los de vista? Proibi-los de sair a certas horas?

    O problema nesta situacao nao sao os velhotes, és tu. Será que as zonas por onde te movimentas sao urbanas o suficiente? Esse tipo de atendimento que tu almejas só mesmo em zonas com muito comércio e postos de trabalho, como por ex. Lisboa e mesmo assim, nem em todas as zonas de Lisboa. Estou-me a lembar quando trabalhei na Graca, o tempo era medido de maneira diferente 🙂

    Mesmo aqui em Londres isso se passa, um centro urbano com muitos postos de trabalho tem esse tipo de critério, mas peca por nao ninguém se conhecer e falar com ninguém, é o outro lado da moeda.

    Eu que tenho trabalhado na City e em Canary Wharf, o foco dos centros financeiros de Londres, noto que tenho outro tipo de atendimento, rápido e professional, e que basta-me sair da minha bowlfish para me stressar logo com o atendimento que recebo. Dou por mim irritada pela maneira como as pessoas andam, ninguém sai da frente de ninguém, andam todos sem tino e nexo, com grandes sacos ou carrinhos de compras, nas lojas ninguém fica em sentido quando entras para te atender, nao parece haver nenhum interesse em prestar atendimento rápido e eficiente aos clientes, cada qual tem as suas agendas e puta que pariu para o resto do mundo.

    No entanto, a outra parte do cérebro entra em accao (qual Flash Gordon) e diz : porra Sara, que puta de má disposicao com que tu vens hoje. Mas quem é que achas que és, importante? Ainda bem que estas pessoas nao tem que correr atrás do tempo, ainda bem que tem tempo de conversar ou de andar devagar, ainda bem que nao acham que tu és importante, mas quem és tu, para o mundo parar quando tu queres ser atendida then and there, isso demonstra que nao existem só lugares no mundo onde as pessoas tem que estar em frente ao seu ecra antes das 8 da manha e que saiem quando, olha, quando der, onde só tem 10mins para irem comprar uma sandes e voltarem a correr para o trabalho porque entretanto já tanta coisa aconteceu nos mercados financeiros.

    Exactamente isso, mas porque é que eu sou importante ou o meu tempo é assim tao valioso? Sou por acaso médica, tenho os minutos contados para ir salvar alguém? Nao me parece, e como tal, tudo é subjectivo. Eu tenho de me acalmar e perceber que em certos sítios as coisas acontecem a velocidade da luz, e andamos todos stressados – digas-se sem razao nenhuma, quanto mais trabalho em mercados bolsistas mais acho que nao deveriam ser tratados como uma questao de vida ou morte; e outros sítios nao pedem para que esse stress exista. E nao sao menos importantes por isso, sao e pronto, sao diferentes. E que somos nós que nos temos de adaptar, em vez de insistirmos em fazer x e y em determinado tempo, temos de, ou alargar o periodo de tempo em que esperamos fazer as coisas ou fazer-mos menos naquele período de tempo.

    Acredita, de uma stressada para outro stressado, damos demasiada importancia a coisas que nao importam. E nao adiante stressarmo-nos por certas coisas, só fazemos mal a nossa saúde e tornamo-nos amargos e resmungoes. E depois ninguém gosta de nós, quem gosta de falar com alguém que está sempre a remungar? 😀

    Bijus,
    Sarita

    • Quanto às zonas urbanas, um dos exemplos que usei foi a loja da Vodafone no Colombo. Bem, suponho que não é a Baixa. 🙂

      Quanto ao resto… eu percebo-te um bocado; talvez eu stresse demais com certo tipo de coisas, mas, ao mesmo tempo, acho que se não nos revoltamos por nada, somos capachos para tudo.

      Eu acredito em não fazer aos outros o que não gosto que me façam a mim. Tenho empatia suficiente para me aperceber de que as outras pessoas também são, efectivamente, pessoas, com os seus desejos, necessidades, e capacidade de sofrer. Logo, a ideia de fazer uma coisa que não só não está certa (ir para uma loja porque me apetece conversar) mas também prejudica, hipoteticamente, dezenas de pessoas (algumas por mais do que simples irritação — eu dei o exemplo de quem tem de está na hora do almoço, tem de estar no emprego às X horas, e não consegue tratar do que tem de tratar porque o velhote está a contar a história da sua vida em grande detalhe) é uma ideia que é anátema para mim. Seria enojante, mesmo, as in “não me conseguir olhar no espelho a seguir”. Apesar de ser meio anti-social, não sou desprovido de civismo e empatia, e teria de o ser para fazer tal coisa.

      Mas eles fazem-no, e estão-se a cagar.

      Desculpa se isso me irrita…

      • Sarita diz:

        Pedrinho,

        Nao tens de me pedir desculpa por isso te irritar.

        Vamos lá a ver, o que se passa é que eu percebo-te i-n-t-e-i-r-a-m-e-n-t-e, eu nao conheco outra pessoa que seja tao stressada como eu, quando faco alguma coisa em menos tempo do que aquele que esperava, tento logo fazer a próxima tarefa da lista naquela nesga de tempo, ha que aproveitar, é uma corrida contra mim e contra o tempo.

        E entretanto as vezes (raras), tenho claridade suficiente para perguntar porque, porque é que é tudo urgente comigo, porque é tudo tem de ser resolvido na hora. Claro que hao-de haver situacoes de facto prementes e que tem de ser resolvidas, mas nem tudo o que tenho de tratar é urgente. Se tiver que voltar no outro dia é chato, mas nao é o fim do mundo. Agora, saber isso é uma coisa e meter isso nesta cabeca dura, enfim, leva o seu tempo.

        E foi isso que me levou a comentar, been there, worn the t-shirt, por isso entendo que as vezes somos nos que temos que re-equacionar as nossas prioridades, que por vezes podem estar desajustadas.

        Gabo-te a paciencia para teres civismo, eu por vezes nao tenho, vou de mao na ianca e de pé no chinelo, o que nao resolve nada a nao ser irritar-me a mim e a pessoa que me está a atender, e depois passo os dias seguintes a ter vergonha do meu comportamento.

        E com os velhos, ai a porra dos velhos, é verdade sim, que irritam um santo, quanto mais a mim, refilona-mor, mas no entanto, oh Pedro, pensa lá bem. Quem é que quer ser velho? Velho, tosca, doente, lento, sózinho, provavelmente pobre e deprimido, com família que nao quer saber deles? Eu acho que vou chegar lá e todos vamos lá chegar lá, aliás, a minha avó anda exactamente neste momento por esse Portugal afora a irritar meio mundo 😀

        E é com esta que eu desco do degrau de irritacao para a realidade. Eles nao o fazem para irritar ninguém, fazem-no porque perderam se calhar a nocao da realidade, sentem que o mundo lhes deve algo, ou sentem-se simplesmente sós. Tu nao tens avós que andem a irritar meio mundo?! 😉 Eu sei que os meus nao existentes netos já tem, ihihihihih

  3. Sarita diz:

    tu tens de por um edit nestes comentários, qu’horror o meu está cheio de erros ortográficos e gramaticais… vi demasiados, que horror, que eu já nem sei escrever a minha língua em condicoes.

    (a parte os acentos, esses nao sao erros, que só sei o atalho para acentos agudos:D)

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      • Sarita diz:

        Tu, tu mas pelas calinadas que eu tenho mandado, acho que precisava de uma semana 😀
        Mas 5 mins ajudam, bigada.

        • Quase sempre a gente repara nos erros imediatamente a carregar no botão de “Submeter”, ou ao reler pela primeira vez… e assim isto está resolvido.

          A ideia de limitar o tempo é não permitir às pessoas fugirem da responsabilidade pelo que esceveram; por exemplo, imagina alguém que é apanhado numa contradição, e edita o comentário mais antigo para parecer que nunca disse tal coisa. Not here. 🙂