Ainda sobre "ser compreensivo"

Imagina que tens de decepcionar alguém.

As especificidades não interessam para aqui; por exemplo, tens coisas combinadas com várias pessoas para um período de tempo, mas uma avalanche de trabalho, cansaço, ou outra razão obriga-te a cancelar uma dessas coisas.

Supõe que os candidatos a decepcionar são os seguintes:

  • O gajo A é muito emotivo, e vai reagir mal à decepção. Não vai necessariamente ficar fisicamente violento, mas vai “explodir”, gritar contigo, acusar-te de não dares valor nenhum à sua amizade, descrever-te usando vários termos pouco simpáticos, e não te vai querer ver tão cedo.
  • O gajo B é também muito emocional, mas neste caso as emoções levam-no a uma atitude depressiva e auto-destrutiva, causada por pouca auto-estima. Vai dizer N coisas que activarão o teu sentimento de culpa, vai-te lembrar de como isto era importante para ele, de como o feriste na alma, e pode até chorar ou falar em suicídio. Sim, há pessoas assim.
  • O gajo C, por outro lado, não consegue esconder a tristeza durante meio segundo, mas rapidamente se controla, força um sorriso para não te preocupares, e diz “OK, eu compreendo; a gente fala depois.” Não se irrita, não faz birras, continuará a falar contigo sem problemas, e, se não fosse aquele meio segundo inicial, até acreditarias que ele realmente não deu qualquer importância à coisa.

Imagina que és tu (seja quem fores; este post não é decicado a ninguém especificamente) neste caso. Queres apostar como, quase de certeza, vais escolher decepcionar o gajo C?

E isso não te faz sentir injusto/a e cobarde?

6 Comentários a “Ainda sobre "ser compreensivo"”

  1. Bender diz:

    Sim, escolheria a C, e sim, faria-me sentir injusto na mesma. :/

    Mas é assim, preferia que ele ficasse magoado durante um a dois dias, do que uma pessoa não me querer ver durante, hipoteticamente, um ano ou assim (caso A), ou que alguém morresse (caso B). :S

    Mas preferia mesmo poder ir aos três, embora estivesse impossibilitado. :S

  2. Sara diz:

    Da maneira como eu sou, se o gajo/a A e B me tivesse feito isso da primeira vez, nao fazia mais – deixava de o conhecer, nao suporto drama queens.

    Drama queens nao sao amigos, sao demasiado envolvidos neles próprios para serem bons amigos, como tal, au revoir mes amies!

    • Estou orgulhoso de ti… mas, acredita, és uma excepção.

      Até não iria tão longe, de certa forma. Não acho que os “A”s e “B”s sejam os “vilões” desta história; o verdadeiro “vilão”, aqui, é o que escolhe decepcionar (sistematicamente, se necessãrio) o “C” por pura cobardia. “Um insulta-me, outro chora, e o terceiro aceita; vou lixar o terceiro.” Enojante.

      Posso também culpar o “C” se este, depois de isto acontecer uma ou mais vezes, não perceber que a pessoa em questão não merece, não é de todo digna da sua amizade. Wishful thinking é das coisas mais desprezíveis no ser humano.

      Os “A”s e “B”s… nem os posso censurar, são o que são. Não são propriamente gente que queira ao pé de mim, mas de certa forma deve-se dar desconto, they don’t know any better.

      E, caso não seja óbvio pelo post, eu já fui o “gajo C ultra-mega-compreensívo” (leia-se “capacho”) mais vezes do que gostaria de admitir. Mas mais vale abrir os olhos tarde do que nunca…

      • Sarita diz:

        Até parece que nao somos todos em diferentes alturas o gajo X, A B e C. E pensarmos que somos constantemente o gajo C também nos faz ser drama queens 😉 Think about it!

        • Aí estás a entrar num relativismo exagerado, tipo “somos todos iguais”. Obviamente, não posso concordar. Sem dúvida que já tive momentos de A e B (quem é que não os tem), mas sou bem mais “C” do que a maior parte das pessoas à volta. 🙂 Anyway, this is not about me, mas em relação aos Xs que preferem decepcionar os Cs por pura cobardia.

  3. Sarita diz:

    Oh Pedro, mas a escolha como as pessoas te tratam é tua. Se nao queres que te facam isso tens 2 opcoes: ou deixas da mao gente que tu nao achas que tenham respeito por ti como amigo ou se achas que eles valem a pena, falas com eles e explicas que nao gostas que te facam isso, que achas que é uma falta de respeito.

    E tu as vezes também és o gajo X, se bem me lembro no início da nossa amizade tive uma conversa contigo sobre isso. E tu pediste-me desculpa e disseste que nao me querias perder como amiga, e 4/5 anos mais tarde continuamos amigos, se bem que nunca tenhamos sido amigos chegados.

    As pessoas fazem-nos o que os deixamos fazer; quando somos crescidos e maduros o suficiente, falamos com as pessoas em vez de as cortarmos da nossa vida. Nós também cometemos erros e seria bom que os nossos amigos que valem a pena nos dessem oportunidades para nos desculparmos e crescermos enquanto pessoas.

    A forma como lidamos com amizades só nos traz skills para o resto das relacoes nas nossas vidas: amorosas, com a a familia, com os colegas de trabalho, com os chefes, com clientes, com empregados de mesa, enfim, melhoramos as nossas capacidades de interagir com outros e mais importante deixamos de ser “capachos”, o que reduz em muito a eventualidade de novas pessoas nas nossas vidas nos tratarem com tal.