Ateus, crentes, agnósticos, gnósticos e “apateus”

A Sara, simpaticamente, disse num comentário:

Eu não sou religiosa, sou agnóstica, não porque jogo pelo seguro, mas porque não me importa de uma maneira ou outra. Não dou importância a qualquer deus ou religião para perder tempo a achar se existe ou não, simplesmente passa-me ao lado. Se existir, parabéns sr. deus/deusa/deuses, se não existir é-me irrelevante.

O que vou escrever agora não é a discordar da Sara, de forma alguma; é só uma dissertação sobre as várias definições, já que acho que há muita gente que as confunde, e/ou não as conhece todas. Sara, isto não é especificamente para ti, OK? 🙂

Então é assim: há muita gente que vê as coisas como Ateu —- Agnóstico —- Crente, equivalendo esses nomes a diferentes “níveis” de crença num ou mais deuses. Mas isso é uma simplificação exagerada, um bocado como o “Esquerda —- Direita” em política. Tal como neste último exemplo, o melhor é pensar em duas medidas diferentes, que poderiam ser demonstradas num gráfico em duas dimensões:

  “Não dá para saber” “Dá para saber”
“Deus não existe” Ateísmo Agnóstico Ateísmo Gnóstico
“Deus existe” Teísmo Agnóstico Teísmo Gnóstico

Exemplos:

  • qualquer crente fanático / fundamentalista é um crente gnóstico (há algum equivalente em Português a “theist”? “Teu” não me parece ser uma boa tradução… 🙂 )
  • a maioria dos crentes por tradição (comuns nos países europeus com religião estatal, como Portugal) são crentes agnósticos (acreditam que há um Deus, mas nunca poriam as mãos no fogo por isso, nem se preocupam muito com o assunto), ou então “apateus” (já lá vamos)
  • a posição que considero ser racional para um céptico, que só acredita em afirmações quando há evidência, é ser um misto de ateu agnóstico e gnóstico; ou seja, eu sou agnóstico em relação a algum deus, mas sou gnóstico – isto é, afirmo convictamente que não existem – em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 grandes monoteísmos na Terra, que têm características específicas e muitas vezes auto-contraditórias, e cujas afirmações em relação a eles, tanto históricas como científicas, são completamente destruídas, you guessed it, pela História e pela Ciência.

Já agora, muita gente auto-descreve-se como agnóstica quando na verdade é “apateísta”. “Agnóstico” significa “é impossível saber se sim ou sopas”, mas não é isso, pois não? “Apateísmo”, vindo de “apatia”, significa “estou-me nas tintas para se existe um deus ou não”. E esse é o caso de quase todos os auto-proclamados agnósticos. Não é que achem impossível saber; simplesmente, não estão realmente interessados no assunto, one way or another.

Por último, uma coisa em que em geral as pessoas não pensam: tanto os “apateus” como os verdadeiros ateus agnósticos são ateus “de facto”, isto é, vivem toda a sua vida no pressuposto de que não há nenhum deus. A diferença principal entre eles e um “verdadeiro” ateu é que não pensaram muito no assunto, não o consideram importante, e nem fazem qualquer tipo de activismo (que se pode limitar a escrever sobre o assunto). Mas, na totalidade das suas vidas, agem exactamente como ateus. Acho importante ter isto em conta, sobretudo quando acusam os ateus de “fanatismo” ou de “precisarmos de tanta fé como os crentes”.

Já agora, a Sara — como suspeito ser verdade para a maioria dos portugueses, pelo menos abaixo dos 60 — é claramente uma “apateia”. 🙂

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3 Comentários a “Ateus, crentes, agnósticos, gnósticos e “apateus””

  1. Sarita diz:

    Sim, sou de facto apateia e só nao me defino como ateia porque acho que seria dar demasiado importancia ao assunto, como se deus, a sua existencia ou nao, fosse assim tao relevante que me fizesse parar e pensar. Ao definir-me assim, estou a retirar-lhe qualquer importancia que possa ter. É-me completamente indiferente.

    No entanto, se a existencia de deus/entidades deísticas fosse alguma vez provada, se calhar seria religiosa ou teísta (=theist), nao sei. O que me torna agnóstica, nao?

    Sei lá, acho que a existencia de deus ou religioes interessa-me tanto como estudos sobre se o uso de saltos altos stilletos é mais nefasto para os homens que para as mulheres, like who cares?!

    Mas fica tu sabendo que tenho “The God Delusion” do Dawkins na minha estante e li-o de ponta a ponta. Segundo as definicoes do Dawkins, sou claramente ateia 🙂

    Aqui existe agora uma campanha com slogans nos autocarros que diz “There’s probably no god. Now stop worrying and enjoy your life”.

    http://www.humanism.org.uk/bus-campaign
    http://www.humanism.org.uk/bus-campaign

    Se bem que eu concorde com o slogan, fiquei sem perceber muito bem porque é que alguém se interessa com isso. Gastar dinheiro em andar a divulgar isso? Disparate 😀

    No caso de alguém ser religioso ou acreditar num deus, good for them, who bloody cares? E o mesmo se passa com nao acreditar. Good on you, agora queres uma medalha?

    O facto de ser apateia nao é casual ou denota preguica para ser sim ou soupas. É convicto, sou convictamente apateia, tudo o resto denota certezas que eu nao estou disposta a ter nem admito sequer perder energia ou tempo da minha vida a analisar se deus/entidades deísticas existem! 🙂

  2. Franco diz:

    Eu acho que a coisa é mais simples (curto e grosso).
    Deus não pode ser 1 (um), porque um é limitado, nem infinito, por ser uma indeterminação.
    Estatisticamente a medida que os eventos tendem para um máximo o resultado tende para a certeza. Como a comprovação da existencia de Deus é mínima o resultado…