Coisas que me irritam, parte 8

Pessoas que, quando mencionas a tua preocupação com alguma coisa, dizem algo como:

“Há <coisa mais extrema> a acontecer, e tu estás preocupado com isso?!?”

O exemplo mais comum da “coisa mais extrema” é, naturalmente, crianças a morrer à fome em determinado sítio / continente.

Eu (e qualquer um que demonstre uma preocupação por qualquer coisa) não estou a menosprezar essa questão. O que não aceito é que me digam que, por tal questão existir, a preocupação com qualquer outra é ilegítima, e possivelmente imoral (já que quem faz esta pergunta, em geral, a faz com um ar de superioridade moral arrogante e enojante).

Noto também, curiosamente, que quem faz esta tão idiótica pergunta não faz, em geral, nada relativamente à questão das crianças a morrer em determinado sítio. Simplesmente, revoltam-se contra o facto de eu / tu / quem quer que seja se preocupar com outra coisa que não isso.

(Um caso ainda pior é quando usam este argumento para se defenderem de uma acusação: e.g. “estás preocupado por eu ter roubado uns trocos quando há gente por aí a ser morta?”)

Assim sendo, não me chateiem por me preocupar com coisas que incluem (sem ser por qualquer ordem, e sem ser uma lista exaustiva): o monopólio da Microsoft, o racismo, o sexismo, a violência doméstica, a religião, a adopção do Firefox, o conflito ciência-religião, o facto de a Sony estar a prejudicar o mundo dos videojogos, o aquecimento global, o mal que a religião causa ao mundo, a crescente apatia das pessoas em relação a tudo o que não seja futebol, telenovela ou o último escândalo, o facto de as pessoas não terem qualquer conhecimento ou interesse em História e sistematicamente repetirem os mesmos erros, a extinção de várias espécies animais, a continuada existência de ditaduras e teocracias no globo, o crescimento do criacionismo no mundo ocidental, e tudo o resto com que eu me escolha importar.

Não me chateiem. Porque aposto que o facto de compararem as minhas “causas” a uma supostamente maior… não passa de uma forma de ocultarem o facto de não terem qualquer uma nas vossas vidas, e, lá bem no fundo, terem vergonha disso.

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8 Comentários a “Coisas que me irritam, parte 8”

  1. velvetsatine diz:

    You’re not alone, pal!

    Há muitas pessoas (me included) que se preocupam exactamente com várias questões que te preocupam a ti também.

    A mim, por exemplo, preocupa-me e deixa-me perfeitamente irritada, os jornais abandonados nos meios de transporte.

    Na verdade é extremamente desagradável quando ouvimos esse comentário: “Estás preocupado com isso!?” Até parece que tudo o resto que nos possa preocupar ou irritar não é legítimo, tal como referes no teu post. É legítimo e ainda bem que assim é!

    • Sarita diz:

      A mim, por exemplo, preocupa-me e deixa-me perfeitamente irritada, os jornais abandonados nos meios de transporte.

      E eu deixo sempre os jornais bem dobradinhos para que outra pessoa o possa ler e usufruir de um bem que ainda pode utilizado, ao invés de o deitar fora e nao servir a mais ninguém.

      Que engracado que é, temos muita dificuldade em pensarmos como outros pensam, mas extrema facilidade em julgar… 😉

      • Sarita diz:

        Oops, eu reli o que escrevi e só queria dizer que a última frase nao é destinada a Velvet Satine, é mais um desabafo para o ar de como todos nós somos, ok?

        Eu é que é as vezes sou um pouco brusca e nao meco as minhas palavras, mas nao queria de todo ser desagradável :$

  2. Sarita diz:

    Porque aposto que o facto de compararem as minhas “causas” a uma supostamente maior… não passa de uma forma de ocultarem o facto de não terem qualquer uma nas vossas vidas, e, lá bem no fundo, terem vergonha disso.

    Acreditas mesmo nisso?! Bem, se o escreveste, é porque acreditas, mas considero este tipo de pensamente bastante petulante. O que as vezes nao enxergamos é que cada qual tem a sua vida e que muitas vezes nao tem tempo nem para a sua vida quanto mais andarem a debitar opinioes sobre a vida dos outros ou sobre o que os outros pensam.

    É cruel mas é verdade, nós achamos que temos mais importancia em vida alheia do que na realidade temos.

    O mundo nao revolve ah nossa volta, a volta das nossas accoes e das nossas opinioes, e é triste (mas também libertador) acordar para a realidade que todas as pessoas tem as suas agendas e que andam a ver se as resolvem – incluindo eu e tu!

    E como tal, as suas agendas sao diferentes e nao percebem (nem dao devida importancia) a agendas alheias… 😉

    • Sabes quantas das várias pessoas que, ao tomarem conhecimento de uma preocupação ou “causa” minha, me dizem o equivalente a “és louco! há crianças a morrer à fome, e tu preocupado com isso, fazem alguma coisa por essas crianças? Mesmo que seja dar um minuto do seu tempo, ou um euro do seu bolso?

      Zero.

      Sem dúvida que há muita gente com preocupações ou “causas” maiores, mais nobres e mais importantes do que as minhas. Mas, curiosamente, nenhuma dessas pessoas alguma vez gastou saliva (ou os dedos) a menosprezar as minhas.

      Deve haver alguma razão…

      • Sarita diz:

        Oh Pedro, se calhar fazem outras coisas, cuidam das suas famílias, dos seus pais, dos seus filhos, sei lá, fazem-no de outra maneira. E se calhar essas respostas tolas sao mais respostas de ocasiao que ao fim de 5 minutos sao remetidas para o esquecimento – lá está, as suas agendas levam-nos a dar importancia ao que é relevante. Nao leves a peito, nao tornes essas repostas pessoais, sao tolas e devem de ser tratadas como tal 🙂

        bijus

  3. Marco A. diz:

    Excelente post, Pedro. Está mesmo espectacular. Cada vez que venho ao teu blog abro um post interessante, e seguem-se logo mais 3 ou 4, graças aos “possivelmente relacionados”, que nunca desapontam. Relativamente ao post em si, tanho a dizer-te que a última frase pode resumir esta questão de as pessoas compararem a “grandeza” das suas “preocupações” à legitimidade ou interesse das causas dos outros. O que é absurdo.

    “Porque aposto que o facto de compararem as minhas “causas” a uma supostamente maior… não passa de uma forma de ocultarem o facto de não terem qualquer uma nas vossas vidas, e, lá bem no fundo, terem vergonha disso.” – merece ser guardada. 🙂