Discussão e Agressividade

We must begin with a few round truths about myself: when I get into a debate I can get very, very hot under the collar, very impassioned, and I dare say, very maddening, for once the light of battle is in my eye I find it almost impossible to let go and calm down. I like to think I’m never vituperative or too ad hominem but I do know that I fall on ideas as hungry wolves fall on strayed lambs and the result isn’t always pretty. This is especially dangerous in America. I was warned many, many years ago by the great Jonathan Lynn, co-creator of Yes Minister and director of the comic masterpiece My Cousin Vinnie, that Americans are not raised in a tradition of debate and that the adversarial ferocity common around a dinner table in Britain is more or less unheard of in America. When Jonathan first went to live in LA he couldn’t understand the terrible silences that would fall when he trashed a statement he disagreed with and said something like “yes, but that’s just arrant nonsense, isn’t it? It doesn’t make sense. It’s self-contradictory.” To a Briton pointing out that something is nonsense, rubbish, tosh or logically impossible in its own terms is not an attack on the person saying it – it’s often no more than a salvo in what one hopes might become an enjoyable intellectual tussle. Jonathan soon found that most Americans responded with offence, hurt or anger to this order of cut and thrust. Yes, one hesitates ever to make generalizations, but let’s be honest the cultures are different, if they weren’t how much poorer the world would be and Americans really don’t seem to be very good at or very used to the idea of a good no-holds barred verbal scrap. I’m not talking about inter-family ‘discussions’ here, I don’t doubt that within American families and amongst close friends, all kinds of liveliness and hoo-hah is possible, I’m talking about what for good or ill one might as well call dinner-party conversation. Disagreement and energetic debate appears to leave a loud smell in the air.

Stephen Fry, 2007

Ao trocar ontem uns mails com aquela que ultimamente tem sido a comentadora mais frequente no Ostras, e que coincidentalmente ou não (ler o excerto acima) está a viver em Inglaterra há já algum tempo, lembrei-me de uma entrada no blog do Stephen Fry (entre muitas outras coisas, é o Melchett e o Wellington no Blackadder), escrita estando ele a viajar pelos EUA, e em que ele fala das diferenças entre as culturas inglesa e americana ao discutir – que, mesmo sem entrar em ataques pessoais, a forma de discutir no UK tende a chocar os americanos pela sua agressividade. Leiam o excerto acima, se não o fizeram já.

Eu confesso que cresci a acreditar que atacar ideias (ao invés de atacar pessoas) nunca seria encarado por nenhum ser racional como um ataque pessoal, nem devia ferir sentimentos ou susceptibilidades, mas o que é facto é que a vivência ensinou-me que a realidade é – infelizmente – bem diferente. Talvez por isso, tendo participado em muitas discussões, tanto cara-a-cara como em vários blogs – incluindo este, mas sobretudo o Way of the Mind –, seja bem mais “soft” no meu ataque às ideias de outra pessoa, quando as considero erradas, absurdas, auto-contraditórias e oriundas de a pessoa nunca ter pensado muito na questão, ou ter dificuldade em questionar coisas em que sempre acreditou. Não devia ser preciso, mas é… ou será?

É verdade que a maior parte das pessoas não consegue separar as ideias dos donos delas – sobretudo quando se trata do seu próprio caso. Dizer algo tipo “estás errado, por isto, isto e isto” não devia nunca ser ofensivo – pode ser uma “waking call”, e uma pessoa arrogante e orgulhosa pode sentir-se humilhada e ferida no seu orgulho, mas não é uma ofensa pessoal, e só um idiota é que o encara como tal. Mas, infelizmente, é – e eu próprio noto que caí na armadilha, já que, apesar de não ter papas na língua a criticar coisas como a religião em posts, tenho especial cuidado para não ofender visitantes em respostas aos comentários deles. Simpatia e cortesia são coisas positivas, sem dúvida, mas será que sou cuidadoso demais?

Opiniões?

3 Comentários a “Discussão e Agressividade”

  1. Sarita diz:

    É diferente quando o site é nosso. Eu, em geral tento ser cortes no meu site, é como se alguém visitasse a minha casa e nao posso exactamente por a pessoa na rua, mesmo se fosse um vendedor ou uma testemunha de jeová tentamos ser educados nao? Mas no nosso próprio site tentamos ser mediadores do site, e essa é uma tarefa difícil, porque nao nos deixa participar como desejaríamos. No entanto, se a pessoa nao tiver netiquette, ou for troll, bem oh meus amigos, é apagado e bloqueado, nao há cá pao para malucos, é simples 😀

    Agora a questao Fry… Tanta coisa para dizer 🙂

    Em primeiro lugar, a gaja em questao sempre foi brusca, sempre disse o que pensa, nao é só porque se mudou para as Englas. Fui criada com discussoes políticas a mesa, por isso o acto de discutir implica discutir ideias, discutir para o ar e nao discutir com alguém em particular.

    O Fry faz parte de uma casta em extincao no Reino Unido, the public school boys, que entretanto frequentaram Cambridge ou Oxford, universidades nas quais existem clubes de debate, onde as mais pequenas coisas sao debatidas apaixonadamente até a exaustao.

    Acerca do resto do Reino Unido nao posso comentar, porque vivo em Londres, mas o que observo é que o politicamente correcto está a ganhar a largos passos. Com tanta mistura de nacionalidades e religioes, já ninguém diz o que pensa com receio de ofender meio mundo. Como tal, até a mais pequena coisa que possa ter dualidade é rapidamente substituída por algo que nao choque e ofenda.

    É a minha opiniao que os ingleses entre si ainda o facam, mas só num grupo de amigos. E isto porque se calhar perceberam que esta capacidade da cultura inglesa de rirem de si próprios nao se estende tao facilmente a outras culturas. Por ex. aqui é natural e aceitável a cómicos gozarem com figuras distintas, aliás ainda há pouco tempo no espectáculo dos 60 anos do Charlito lá foram algumas piaditas ao príncipe e a sua consorte e eles nao puderam fazer mais nada que nao rir-se.

    Mas sim, culturalmente estas coisas nao sao levadas a peito. Por ex, problemas no trabalho nao sao pessoais, sao e pronto. Um chefe normalmente nao te vem dizer com gosto para te humilhar que as coisas estao mal, vem-te somente dizer para que passem a estar, para melhorar processos. E geralmente nao te considera um palhaco a partir daí, acontece a qualquer pessoa.

    A questao de egos, orgulhos feridos, tenho que confessar existe mais em Portugal que aqui, o que leva muita gente a estar constantemente a defesa, a sentir-se atacado e responder com agressividade. Já os franceses e os belgas sao iguais, trabalhei durante uns tempos com a bolsas francesa e belga e eles também nao se riem de si próprios, levam-se muito a sério. E os brasileiros, nao tenho paciencia para a recente cultura online brasileira, alguém faz uma pequena observacao e é acusado de racista e tem 10,000 deles a enviarem-te spam, nao há paciencia.

    Aliás, basta ir-se aos comentários do Público e aos comentários do The Sun. Repara que eu nem comparo com a BBC, até os comentários naquele que é o pasquim mais indecente, sensionalista, conservador, racista e de extrema direita deste país nao tem comentadores tao agressivos como no Público.

    Parece apanágio da cultura portuguesa o fugir o pé para o chinelo, o querer ser malcriado online, ser-se mesquinho, dar cortes, ser-se chico-esperto, e eu nao percebo porque. Se eu estou a ter uma discussao sobre um assunto, discuto sobre um assunto. Se nao concordo com opiniao alheia, pois nao concordo e digo-o e explico porque, mas isso nao me faz de a mim a pior pessoa do mundo, nem o é a pessoa que tem opiniao contrária a minha. E nao preciso de recorrer a mesquinheces ou cortes se nao estou contente com o que essa pessoa diz, simplesmente digo aquilo que penso, mesmo se deselegante, como já me viste fazer.

    Mas admito, acho que nesta questao em particular gosto mais da maneira como os ingleses tem pele mais dura e nao sao tao flores de estufa – ou nao viveria aqui, como é óbvio 😉 Por isso, a resposta a tua pergunta é, depende da tua audiencia!

    Bijus

    • Excelente resposta! 🙂

      Realmente o que dizes sobre os comentários nos sites dos jornais portugueses é 100% verdade — são absolutamente nojentos, muitas vezes feitos mais para chocar e ofender (o equivalente ao “flashing”, aqueles tarados que abrem a gabardina para chocar as senhoras na rua, e que obviamente são pessoas perfeitamente estáveis e com imenso significado nas suas vidas) do que para expressar uma opinião ou posição.

      E também acho que realmente as pessoas são muito “flores de estufa” no que toca a discordar uns dos outros, sobretudo quando isso envolve etnias, religiões e afins. Pessoalmente, repugna-me que alguém considere algo tabu, acima de qualquer discussão; isso não é racional, é dogmático e não faz qualquer sentido.

      Voltando mais ao tema, o que dizes do Fry e o seu “dying breed” é fascinante; realmente não tinha visto a coisa assim, mas tu efectivamente estás mais familiarizada com a cultura. Eu acho que me daria bem num sistema desses, porque adoro discutir, desde que a discussão seja baseada em factos e lógica — para mim, quando alguém diz “porque sim” ou “eu acredito que é assim e pronto” ou “tenho direito à minha opinião / crença” ou “isso é a tua verdade”, acabou de se declarar incompetente para manter uma discussão racional entre adultos. Para mim uma discussão serve para se aprender e se chegar à verdade (ou à melhor aproximação possível da mesma), não para “ganhar” (nem que seja por gritar mais alto que os outros), nem para a cortar a meio porque os nossos sentimentos (boo hoo hoo) foram feridos.

      Infelizmente, acho que não conheço praticamente ninguém como eu neste aspecto…

      • Sarita diz:

        A questao é, andamos a pussy-footing com toda a gente para nao ofendermos ninguém ou somos fiéis a nós próprios e fazemos o que queremos no nosso site? Nao estou a dizer para se chamar alguém de idiota chapado, mas também existe o outro lado da moeda; se alguém vem a um site debitar opiniao, pois tem de aceitar que outros também queiram debitar a sua nao? Senao, que fique a opinar sozinho na sua casita.

        Sim, a casta do Fry é uma casta em extincao, essa ideia que o resto do mundo tem sobre Inglaterra e os cavalheiros ingleses, os escolásticos, a mim parece-me que está a desaparecer. Sao muitas vezes considerados antiquados, desligados da realidade e entretanto com tantas misturas no Reino Unido, hoje em dia até parece que os ingleses tem vergonha de preservarem a sua cultura, como se esse facto fosse uma afrontra contra os estrangeiros.

        Celebra-se tudo o que seja estrangeiro nesta terra, St. Patrick’s day dos Irlandeses, o Diwhali, dos Hindus, o Ramadao dos Muculmanos, o Ano Novo Chines, o carnival de Notting Hill dos Caribenhos, tudo, tudo, tudo, enquanto que celebrar-se por ex. o St. George’s Day é vergonhoso e racista.

        Lá está, para nao ofender susceptilidades, temos que ser afáveis para todas as nacionalidades que aqui estao, mas o problema é que com isto se perde a tal capacidade de debate pelo pelo debate, é preferível aceitar-se tudo e nao levantar problemas, o que é uma tristeza, perde-se tanto com esta uniformidade 🙁

        Por isso, miguito, no teu cantinho tu é que ainda és dono e senhor para fazer estalar o chicote, e as coisas devem de se fazer como tu queres 🙂