Discussão, debate, e afins

Como já mencionei aqui recentemente, eu acho piada a discutir (no sentido original da palavra, a troca de ideias, não a de insultos) ou debater assuntos. Gosto, acho divertido, faz-me ter “paixão”, garra, etc., e sem alguma vez entrar em ataques pessoais (pelo menos acredito nisso – se bem que há quem ache que um simples “estás errado, porque…” é um ataque pessoal. Enfim…). Raramente tenho quem me dê luta (excepto neste blog e noutro), e é ainda mais raro encontrar alguém que se interesse suficientemente pelos mesmos assuntos do que eu de forma a achar, tal como eu, piada à coisa.

Mas há uma coisa que me frustra imenso em geral, e algo que me faz participar em discussões muito menos do que gostaria: é que muita gente (e aqui refiro-me a quem à partida já quer a discussão, não estou a falar de quem não acha pura e simplesmente piada a isto; it’s their right) usa uma “arma” que no fundo não é uma arma, é uma declaração de incompetência para discussões racionais, mas a pessoa fá-lo com um orgulho que pura e simplesmente me ultrapassa. É uma pessoa render-se… completa e inabalavelmente convicta de que ganhou a guerra.

Do que é que eu estou a falar? De quando a pessoa usa aquilo a que chamo o “argumento da criança de 6 anos”: variantes de:

  • “porque sim”
  • “isto é verdade para mim”
  • “isso é apenas a tua verdade”
  • “sinto que isto é assim, e isso chega-me”
  • “é uma questão de fé / crença; não é suposto ser racional / ter de explicar”
  • “tenho o direito à minha opinião”
  • “quem és tu para afirmares isso com tanta certeza”

E assim por diante.

Foi, no entanto, ao ler hoje este post que me apercebi de que esse tipo de argumentos são válidos para certo tipo de discussões – as discussões de assuntos subjectivos. Arte, música, sentimentos, e afins; aí não há uma única realidade, uma única verdade; uma pessoa pode dizer que uma música ou um poema são talvez tecnicamente melhores do que outros, mas não que são melhores, ponto – porque a arte é algo subjectivo, é algo que depende muito do observador. O mesmo em relação a sentimentos; em geral, não escolhemos gostar de uma pessoa porque pesámos os prós e os contras disso, mas apenas porque acontece (se bem que, tal como a autora do post, acho que um pouco de racionalidade nos relacionamentos seria algo óptimo, para nos impedir de cometer os mesmos erros repetidamente, ou de continuarmos a acreditar que pessoa X gosta de nós quando é óbvio que isso (já) não acontece). Não digo que uma pessoa não possa discutir arte, música ou sentimentos, mas esses assuntos realmente são subjectivos, e a discussão deve ser uma troca de experiências e de emoções provocadas pelas mesmas, não uma forma de chegar à “verdade” sobre o assunto.

Mas isso é para coisas subjectivas. Discutir a realidade dessa mesma forma, desculpem dizer, é absurdo e irracional. É ter uma perspectiva de místico “new age”, que acredita que a realidade é fluida, subjectiva e criada por nós próprios e pelas nossas crenças. Ou de homem das cavernas, que não entende as razões para nada e acredita que tudo é completamente imprevisível e incompreensível, que vê explicações mágicas para tudo, e que acredita poder mudar a realidade se agradar aos “deuses” ou “espíritos”. Ao ver-se a realidade como subjectiva, ao acreditar que partes dela o são, acaba-se por negar o próprio conceito de “realidade”. É como tapar os olhos com as mãos e acreditar que o mundo deixa de existir quando o fazemos, que podemos fugir às consequências das coisas se não pensarmos nelas, que há “leis da atracção” que transformam crença em realidade… em resumo, que a tua realidade é diferente da minha, mesmo relativamente a coisas como as leis da natureza.

É, depois de eu dar argumentos para o Deus da Bíblia Cristã ser um monstro, dizer “o meu Deus não é assim, é um Deus de amor.” (Porquê? Como é que sabes? “ah, eu sinto-o, e isso basta para mim.”) É, depois de ser confrontado com estatísticas que mostram que a astrologia não funciona, afirmar que “para mim funciona e pronto.” É dizer “eu tenho direito à minha opinião” quando o assunto é se a Terra é ou não redonda, ou qual a idade da mesma, ou se o aquecimento global é real.

Obviamente, não dá para discutir racionalmente com pessoas assim. Curiosamente, elas acham que isso as faz “ganhar”, e sentem-se orgulhosas por isso.

É como jogar xadrez com alguém que não aceita que o cheque mate o faz perder, e se mantém fiel a essa “crença” não importa quantos livros de xadrez eu lhe mostre, e continua a insistir que ganhou o jogo (porque, para ele, as regras são outras, nem que tenham sido acabadas de inventar por ele, e isso constitui a “realidade dele”). Assumindo que gostas de xadrez, jogavas com alguém assim? Eu não.

Ainda outro caso, claro, é quando as pessoas acham que há assuntos proibidos, que são absolutamente tabu, e nos quais discordar delas ou dizer-lhes que estão erradas (e porquê) é uma ofensa pessoal. Em geral, quanto mais irracional é a crença em questão, mais certas pessoas se ofendem – seja a sua crença em Deus, ou na astrologia, ou que aquele tipo que tem imensas one night stands “a ama”. Ninguém se ofende se tem bases racionais para defender a sua crença. E por isso, já evito discutir certos assuntos com pessoas que não se incluam em 2 grupos: completos estranhos, e amigos em quem tenho total confiança. O pior caso são os intermédios: colegas de trabalho, amigos de amigos, visitantes ao blog que eu já conheça de outras andanças, etc.. Aí evito um pouco assuntos sensíveis – talvez mais do que devia, mas enfim.

Daí eu ter tão poucas oportunidades para discussões racionais. E a minha vida é mais pobre por isso, porque é algo que me fascina, estimula e diverte.

5 Comentários a “Discussão, debate, e afins”

  1. Se quiseres ler a minha opinião sobre o mais ou menos sobre o assunto (embora focada num tema):
    http://www.apeadeiro.org/musica/qualidade-da-musica-et-al

  2. Feliz aquele que não quer reflectir sobre as coisas.

    Temos de aceitar que há pessoas que pensam de determinada forma apenas porque no meio onde estão inseridas lhes ensinaram a pensar assim, e não sentem grande necessidade de o questionarem. Nunca vi uma dessas pessoas dizer “a minha vida é mais pobre por isso”.

    Todos aqueles que conheço que meditam sobre as coisas, que as questionam, que não se satisfazem com um é assim porque é são, na generalidade, pessoas menos felizes.

    Todavia, acredita que não estás sozinho no mundo.

    • @Paulo Abreu: Tens toda a razão. Também estou no mesmo barco do que tu e o Pedro. Não estamos sozinhos, há mais felizmente.

      Contudo, penso que não me sinto menos feliz por isso. Seria então uma espécie de abençoado pobre de espírito e que o Reino dos Céus seria um dia meu.

      Prefiro pensar que sou uma pessoa com um cérebro que pensa, que põe as coisas em causa, se interroga e que isso é uma coisa boa.

    • Eu percebo o que queres dizer, e acho que até já escrevi sobre isso algures. Daí vem o ditado “ignorance is bliss” (não me lembro se tem equivalente em português); de qualquer forma, não vejo isso como felicidade, apenas como um estado neutro de apatia. Claro que de certeza há excepções, e há quem seja “simples”, nunca tenha questionado nada do que aprendeu nos primeiros anos da sua vida, e seja efectivamente feliz. Eu… preciso de mais.

      Acho que reflectir sobre as coisas, e querer aprender sempre mais, nos dá “awareness” (mais uma vez, deve haver um termo perfeito em português, mas…) das coisas boas e más. Ver as más pode afectar-nos, sem dúvida — caso contrário, eramos máquinas. Mas não vou preferir a ignorância e apatia por causa disso. Aprender, pensar, e viver as coisas de forma intensa também nos dá prazeres que não trocaria por nada.

      Em relação ao post propriamente dito, não condeno quem não gosta de discutir assuntos até à exaustão, quem não acha piada a uma argumentação lógica, como eu acho. Mencionei-o no post. O meu problema é com quem tenta argumentar, mas quando a lógica e factos que tem falham, começa a falar em subjectividade, sentimentos, “verdades diferentes” e afins… quando o assunto são factos sobre a realidade, sobre o universo, e não coisas como gostos (arte, música, pessoas, etc.).