Trabalho: o “maluquinho do xadrez”

Vi esta história há uns bons anos no Slashdot, numa discussão sobre questões de trabalho. Segundo o tipo que contou a história, a coisa era assim: em certa empresa, havia um tipo, técnico, que passava a maior parte do dia a jogar xadrez online. No entanto, sempre que havia algum problema “bicudo”, daqueles de fazer parar serviços vitais, ele resolvia-o em minutos, quando qualquer dos outros técnicos se via às aranhas para entender sequer a causa do problema, quanto mais resolvê-lo. Fazia isso com uma mistura de experiência e “insight” que mais ninguém tinha. E por vezes passava dias inteiros sem fazer qualquer tipo de trabalho para a empresa.

Depressa a discussão se dividiu em dois campos.

Os primeiros, que penso estarem em maioria, achavam que o “guru” em questão devia ser obrigado a trabalhar as 8 horas por dia ou ser despedido, porque, afinal, a empresa pagava-lhe para trabalhar, e ele não o fazia durante a maior parte do tempo. Se o trabalho que lhe era atribuído estava feito, ele devia fazer outras coisas para a empresa durante o horário normal de expediente. E, diziam eles, estar a jogar, ou a entreter-se em geral, de forma aberta, era estar a gozar com os chefes e colegas.

Os segundos, por outro lado, acreditavam que o que ele faz pela empresa é tanto ou mais do que qualquer dos outros, já que os resultados não podem ser medidos pelo tempo gasto a obtê-los, e que a empresa tem é sorte de ter alguém assim a trabalhar para ela, porque ele resolve problemas que mais ninguém resolve, faz o que mais ninguém consegue fazer (pelo menos fazer em tempo útil), e o que ele faz com o tempo livre dele é com ele: ele fez por merecer esse tempo livre. Se querem que ele faça outras coisas no tempo livre que tem – ou seja, fazer o trabalho de dois –, paguem-lhe por dois… tendo ele a hipótese de rejeitar isso (é como se fosse um segundo emprego, só que para a mesma empresa), se estiver satisfeito na situação actual. É claro que a empresa o pode despedir, mas não tem justa causa, e de qualquer forma só ficaria a perder, porque um tipo destes vale cada cêntimo que lhe pagam.

Discuti este assunto (não propriamente com este exemplo, mas de forma generalizada) com colegas há uns anos, e vi que toda a gente com quem falei concordava com os primeiros (“pagam-lhe para trabalhar 8 horas, ele que trabalhe 8 horas”), enquanto eu concordo com os segundos (“pagam-lhe para fazer o trabalho dele, não para estar ocupado”).

O que é que vocês acham?

14 Comentários a “Trabalho: o “maluquinho do xadrez””

  1. Rúben M. diz:

    Se tempo é dinheiro, eu prefiro ter um técnico que me resolve o problema em minutos e não em horas, se ele passa o dia a fazer outras coisas que nem trabalhar, pode se considerar um funcionario de emergencias, mas se o contracto dele disser que tem de resolver os problemas, e ele o faz penso que faz o que o contracto especifica :P, se nao existme sempre problemas vao por um tecnico a limpar o chao ? X)

  2. Já muitas vezes falei da imbecilidade do sistema actual, em que és pago pelas horas que trabalhas. É um sistema que beneficia os preguiçosos. Quem é bom no que faz é sempre prejudicado. Tem de fazer mais, e muitas vezes acaba por ter de fazer uma data de trabalhos daqueles que ninguém quer, porque é o que fica livre mais rápido.

  3. Podia começar por gastar algum tempo a educar o resto da equipa em relação aos equipamentos que tem mais conhecimento insight e produzir documentação interna de troubleshooting. Depois se tivesse mais tempo livre, que anda-se pela net a ver novas possíveis soluções tecnológicas para a empresa e as apresenta-se, é isto que se pede a um bom profissional, pro-actividade e ambição. Um empregado que apenas quer fazer bem as mesmas coisas de sempre, passa de bom a medíocre com o tempo

  4. Marco diz:

    Creio que esta questão é um pouco mais complexa do que aparece à primeira vista. Se por um lado ele passar o dia todo sem fazer nada de trabalho pode ser desmotivador para o resto dos colegas e como tal criar conflitos dentro da empresa, por outro lado o facto de só ele saber resolver certos problemas torna-o vital para a empresa que a longo prazo pode ganhar bastante com ele. Além disso, ele jogar xadrez é uma forma de manter o cérebro activo e perspicaz.

  5. Obviamente… se fosse patrão dele, duplicava-lhe o ordenado. Só um Look At The Hand! se pode pôr a fazer contas, condições, imposições e outras cretinices do género sem saber do que fala. Só quem nunca trabalhou sobre um grande-grande DataCentre e ter as passwords de root todas na mão (por exemplo) é que se pode dar ao luxo de arrotar a pescada sem as ter comido primeiro.

    PS. “Look at the hand” is a line used by beggining “magicians” (or prestidigitators) when fumbling their “trick” and everyone is clearly seeing what they are trying to hard hide but failing…

    Also used in different context by technology sales reps when you ask them about this or that feature and they reply with some standard “our product has been defined by Gartner as leader in its niche and implements all current web standards and is compliant with the KJAHSHGFWYT comitee…

  6. zeto diz:

    Pensei que a resposta ia ser que era ele que criava os problemas, e sabia assim como os resolver, ou seja, devia ser despedido porque não fazia nenhum real trabalho.

    Mas estou de acordo que devia fazer o que lhe competia, se tinha que fazer x, tarefa e as cumpria estava tudo ok.

    • Por acaso, ao escrever este post ontem, pensei nessa possibilidade, que nunca me tinha vindo à cabeça quando li sobre esta história no Slashdot há anos. 🙂 Estive para a mencionar (realmente, o tipo conseguiria ter o emprego perfeito para muita gente: ser bem pago para não fazer nada, e justificar isso sendo o único a saber resolver problemas… que ele criou deliberadamente para serem rebuscados e mais ninguém decifrar em tempo útil), mas preferi não o fazer, para não complicar a questão (à qual já recebi, at the time of writing this, várias respostas interessantes, e sobre a qual vou escrever mais no futuro).

      • Por acaso tens o link para o artigo do Gildot ?

        Andei lá a procurar, mas o motor de busca daquilo sempre foi mau. E apesar de lá ter sido (e ainda ser) editor, não tenho (tal como todos, com duas excepções) acesso ao MySQL para fazer uma query.
        Gostava de ver se por acaso fui eu a aprovar o artigo e mais ainda, se participei nessa discussão e, confirmando-se isso, o que escrevi então.

        Seria uma boa oportunidade para ver se a minha opinião mudou ao fim de tantos anos e outras tantas experiências.

        PS. Será que podias fazer o favor de me fechares a tag do itálico na minha resposta anterior ?
        Não o fiz a seguir a “Look At The Hand!” e o resto do comentário ficou todo em itálico. Dumb me 🙁

        • Editado. 🙂 Por acaso, aqui supostamente dá para editar os nossos próprios comentários durante 5 minutos; se isso não estiver a funceminar, é um bug, e agradeço que me digam. 🙂 Mas se calhar só viste depois… tudo bem.

          Não foi no Gildot, foi no Slashdot, e não num post, mas nos comentários. Foi mesmo há muitos anos, e não me parece que alguma vez se consiga encontrar.

          • Obrigado.

            Porra, é no que dá escrever comentários depois de um dia de trabalho cansativo e já tarde. Li Gildot onde estava Slashdot.

            A caixa de edição está a funcionar. Eu é que submeti e saí. Não cheguei e ter tempo de ver que tinham ficado as coisas em itálico. Só há pouco quando cá recebi uma notificação de novo comentário é que cá voltei e vi.

  7. Cristina diz:

    Hello. Vejo que este tema ainda te assola o espírito eheheh
    Eu acho que se o gajo, se é assim tão bom, devia despedir-se e trabalhar como freelancer, assim ganhava 10x mais e fazia o que entendia com o seu tempo sem meter inveja a ninguém 😉
    Jocas

    • Alex diz:

      Por isso é que dizem que o empreendedorismo é uma alternativa viavel para que está preparado para o desafio. Contudo a elevada taxa de mortalidade (falencia) das startups, ainda mais em tempo de crise, podem fazer mta gente pensar 2x.

  8. Alex diz:

    Depende da cultura da empresa. Há empresas que patrocinam este tipo de posturas, outras que olham para ele como um pecado, e outras ainda que consoante lhes convem ficam-se pelo 50/50.
    Em Portugal acho que este empregado é quase uma utopia, pq os gestores na generalidade, não têm uma visão de que um Dr.House da informatica é imprescindivel, são loucos pelo lucro sem olharem a meios, e um gajo que esta parado, está a gastar agua/electricidade/telefone/ordenado/subsidio de alimentação/etc…pagos pela empresa.
    Aliado ao facto de que a tipica gestão latina não possuir QUALQUER especie de planeamento seja do que for (basta ver a derrapagens orcamentais em projectos, que NÃO são exclusivas do sector publico), significa que o “Dr. House” não pode estar parado e no fundo, se têm de facto tempo livre, tem de ser um Jack-of-all-trades, o sr dos 7 oficios, DBA, programador, sysadmin, network admin, suport tecnico,etc, etc, etc…
    Agora em Portugal ninguem paga a um o trabalho de 2 ou 3, é mais o contrario, querem o trabalho de 2 ou 3 a pagar por um.
    Ha empresas de renome no mercado portugues, que não é preciso citar, pois quem conhece bem o mercado, sabe do que falo, que têm projectos de media/grande complexidade e profissionais a condizer, mas igualmente uma altissima rotatividade de emprego, pois não querem pagar a especialistas o que eles merecem, ainda mais agora.