Lucros, despedimentos, Bloco de Esquerda e colectivismo

Nos últimos dias, ao regressar a casa, vejo na IC19 este outdoor do Bloco de Esquerda:

Bloco de Esquerda: Quem tem lucros não pode despedir

Serei eu o único a ter um grande problema com a mensagem transmitida?

Um pequeno à-parte: a minha posição política não é simples de definir. Não concordando com a habitual divisão em “esquerda” e “direita”, é verdade que em termos sociais estou quase sempre de acordo com a dita esquerda: apoio a descriminalização do aborto, o casamento de homossexuais, a não existência de censura, o fim das regalias à Igreja, e, acima de tudo, a liberdade – mesmo que seja liberdade para fazer coisas com as quais não concordo, ou que certas pessoas não consideram “decentes”.

Por outro lado, em termos económicos, acho que estou no “centro”. Isto é, se por um lado não partilho completamente da filosofia da Ayn Rand (que admiro muito, e cujos livros adoro, apesar de certas preferências sexuais meio curiosas) de um estado/governo totalmente minárquicos – ou seja, acho que o estado deve assegurar certos serviços essenciais, sem no entanto proibir ou punir a competição com ele próprio nesses mesmos serviços –, por outro lado, não gosto de ideias como “economia planeada”, “ter direito a um emprego”, “guerra de classes”, e a descrição de quem tem sucesso como “latifundiário” ou outros termos menos ridiculamente antiquados.

E é por isso que – e desculpem-me os eventuais bloquistas a ler isto – considero este anúncio totalmente repugnante, sob todo e qualquer ponto de vista ético, moral, social, lógico, o que lhe quiserem chamar.

Por um lado, a parte do “não pode despedir”. Isso quer dizer que um empregador tem o “dever social” (yuck) de sustentar qualquer tipo de parasita? Por muito incompetente e inútil que este seja? Por muito que esteja claramente a explorar o sistema? Quer dizer que qualquer pessoa (e reparem que não digo “trabalhador”) tem o direito (yuck again) a um emprego, independentemente do que faz ou não faz? Que o empregador não tem qualquer voto na matéria, porque o trabalhador, por muito incapaz que seja, “merece” (triplo yuck) um emprego, e o empregador em questão foi o escolhido para o dar?

Sou só eu a achar que ao recompensar-se os parasitas se pune os trabalhadores competentes… e se cria mais parasitas?

Por outro lado, o “quem tem lucros”. Quer isto dizer que ter sucesso – ser competente – dá a alguém obrigações adicionais? Que o melhor é seres completamente incompetente e não dares nas vistas, ou alguém vai decidir que tem “direito” ao fruto do teu trabalho, e o estado ideal do Bloco de Esquerda vai-lhe dar razão? Que a única forma de não seres legalmente e humilhantemente roubado é seres – ou aparentares ser – totalmente incapaz? Que, mais uma vez, a competência, produtividade e honestidade são punidas?

E depois dizem que o país não avança…

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6 Comentários a “Lucros, despedimentos, Bloco de Esquerda e colectivismo”

  1. Eu também não tenho raízes politicas quer com a esquerda quem com a direita mas parece-me que tiraste essa afirmação do bloco do contexto. O que se passa é que empresas com lucros, estão-se a aproveitar da crise para fazerem despedimentos _colectivos_ “legais”, e chama-me ingénuo mas se não existe dever social nos tempos que correm também não deve existir ganância.
    Os parasitas não entram nesta equação porque a lei de trabalho dá ao patronato o direito ao despedimento por justa causa quando assim o é, não estamos a falar de funcionários públicos com todo o tipo de direitos e poucos deveres.

    Não tens um grande problema quando a Direita (CDS) diz isto?

    “quando há apoios directos do Estado às empresas não exista a possibilidade das empresas poderem despedir”

    Só populismo de um lado e de outro, ambos sabem que isto só iria minar o tecido empresarial a médio prazo se não fosse analisado caso a caso

  2. Pedro,

    Acho que o Gonçalo já comentou exactamente o que eu queria comentar.

    Estão a haver por todo o mundo (Portugal inclusive…) despedimentos em massa pela “suposta crise”.

    O que o bloco de esquerda está a defender não é o manter o trabalho de parasitas mas apenas a levantar a questão social de que certas empresas despedem pessoas APENAS para manter os seus lucros!

    Por exemplo, a Microsoft despediu 5000 trabalhadores o mês passado (se não estou em erro). No entanto, teve altos lucros! Não teve foi TANTOS como no ano anterior…

    Isso justifica os despedimentos? É que isso vai fazer com que mais pessoas se tornem parasitas para a sociedade (quer o fossem ou não na empresa). Em vez de estarem a comer dinheiro à empresa (novamente, isto se forem parasitas) vão passar a comer do Estado (de todos nós)!

    E isto piora EVIDENTEMENTE a crise! Já que gajo desempregado consome dinheiro a todos os cidadãos E não consome bens (o que piora a crise).

    Sou completamente a favor desta mensagem do BE! Têm de haver penalizações para estes animais que querem manter os seus lucros à custa da sociedade (sem darem nada em troca…).

    Outra situação que tenho visto acontecer é uns FILHOS DA PUTA de uns administradores fazerem isto também para ganharem prémios.

    Ou seja: mandam X para a rua, os lucros aumentam pelo que se determina que teve bons resultados a gerir a empresa. Resultado: PROFIT em bónus! :o\

    Enfim…este mundo tá todo fodido!

    Hugz,
    Luís

  3. phoenux diz:

    Eu partilho a opinião do Gonçalo e do Luís. Eu acho que a ideia do BE não era impedir despedimentos individuais por justa causa; penso que a ideia seria travar a onda de despedimentos colectivos por causa da suposta “crise” (que só afecta alguns). Penso que o código do trabalho facilita os despedimentos colectivos, não obrigando o patronato ao pagamento de todas as indemnizações que um trabalhador teria direito como no caso do despedimento individual (no qual não se aplicasse a justa causa).

    De facto acredito que algumas empresas se estejam a aproveitar desta onda de impunidade pela suposta crise para manterem os seus lucros, tal como fez a Microsoft e outras grandes empresas onde, apesar de o lucro ter diminuido, ficarão com a balança bem acima de água. Eu acredito que seja mais fácil despedir centenas de trabalhadores do que justificar uma quebra significativa das receitas a um accionista (perdoem-me a expressão, “quem tem cú, tem medo…”), mas o efeito na economia acaba por ser muito mais devastador – serão centenas de famílias que a curto/médio prazo verão o seu orçamento familiar reduzido, com um poder de compra muito menor e que irão fazer pender a balança económica negativamente, fazendo com que outras empresas comecem também elas a passar por dificuldades. Infelizmente penso que entramos num ciclo vicioso onde a balança está a ficar muito desequilibrada, e onde a situação tende a piorar e muito se não se fizer alguma coisa.

    Voltando ao tema do artigo, e para finalizar, quando passo por esse cartaz o meu yuck vai para os poucos empresários (com milhões no banco e para os quais a crise é não ganhar tanto dinheiro como no ano passado) e para os quais a verdadeira crise não vai chegar. Se continuarmos à espera que a crise passe, vamos ser como “sapos numa panela com água ao lume”…

  4. Luís Bastos diz:

    Pois eu partilho inteiramente da opinião do Pedro e assino por baixo. Concordo que o Bloco de esquerda ao lançar este cartaz não pretende atingir o empresário sério, competente e criador de riqueza para o país. O que o bloco de esquerda se esqueceu (ou talvez não!) é que o tal parasita (que trabalha para o empresário sério, competente e criador de riqueza) vai ver o cartaz e vai achar que não tem que ser despedido porque o patrão tem lucros. Este anúncio é de facto “totalmente repugnante, sob todo e qualquer ponto de vista ético, moral, social, lógico, o que lhe quiserem chamar”.

  5. Pessoal, obrigado pelos vossos comentários. Resposta aqui.

  6. Luís Bastos,

    Acho que realmente tens razão, só os “parasitas” (pessoas BURRAS) é que vão interpretar isso dessa forma ;o) he he he (não querendo insultar a ti ou ao Pedro, mas sim aos que não querem trabalhar e que possam fazer essa leitura).

    Hugz,
    Luís