Não sei o que quero

(Aviso aos leitores do Planet Geek: este post é de um género que normalmente não se vê no referido agregador, sendo bem mais pessoal do que a maioria dos que lá estão. É, no entanto, algo previamente existente (se bem que de forma infrequente) no meu blog. Se divagações pessoais introspectivas intermináveis vos aborrecem, saltem à frente, eu não me ofendo.)

Acho que não sei o que quero.

Isto é uma coisa estranha de dizer, e, de certa forma, nada fácil de admitir, porque sempre acreditei que, efectivamente, sabia o que queria, em geral até melhor do que as outras pessoas. Quer dizer, tenho os meus gostos e as minhas paixões, a maior parte delas há alguns anos (videojogos, livros, fantasia, ficção científica, heavy metal, comics, zombies, gatos, etc.) e outras mais recentes (papagaios).

Mas isso são gostos. Não são objectivos, não são aquilo que realmente quero da vida. E o que é que é isso?

Acho que aqui se põem duas questões diferentes, se bem que ambas se enquadram no “não sei o que quero”. E ambas vêm em parte de andar a ler o livro do Steve Pavlina, “Personal Development for Smart People”. Ele refere várias vezes diversos conceitos, como “the path with a heart” como uma ajuda a tomar decisões na vida, mas no capítulo sobre a carreira ele fala do “purpose in life”… um conceito que sempre achei estranho e “suspeito”, talvez por causa da minha influência Aynrandística. Isto é, sempre entendi a ideia de “propósito na vida” como uma justificação para a vida, isto é, algo que fazemos que faz a nossa vida valer a pena, sem o qual não temos qualquer valor ou importância. Naturalmente, isso desagrada-me; como já disse aqui antes, o facto de algo precisar de justificação externa significa que esse algo não têm valor por si próprio. Eu recuso-me a aceitar que a minha vida só tem valor se eu a dedicar a alguma causa, se eu a sacrificar, se eu viver para os outros, se eu for voluntário nalguma caridade, e semelhantes. Não tenho nada contra essas coisas, mas dizer que a minha vida, ou a tua, ou a daquele tipo ali ao lado, não têm valor a não ser que façamos esse tipo de coisas… acho que é preciso odiar muito a vida e a humanidade para pensar assim. E, claro, já não falo (porque não quero ficar mal disposto) de quem diz que só temos valor na medida em que servimos “Deus”, “a nação”, ou “o povo”. O objectivo da vida é a própria vida.

Não discordo de nada do que acabei de escrever. E no entanto… não será possível interpretar o “propósito” de outra forma? Não como uma justificação externa, não como um “tens valor só se fizeres isto”, mas sim como algo que escolhemos para nós, que adoptamos como parte de nós? Aquilo que adoramos fazer e viver, que é mais do que um gosto, um hobby ou mesmo uma paixão; algo que é efectivamente a nossa vida, que nos define – ou, mais precisamente, que escolhemos para nos definir.

Isto não é necessariamente simples, como muitas vezes se pensa que estas coisas são. Pode não ser explicável numa só palavra, ou mesmo numa só frase. Mas é algo em que eu nunca pensei, e que, agora que o comecei a fazer, realmente me apercebi que não sei o que é, para mim.

É algo que quero descobrir.

A outra questão, que não é exactamente igual mas está (bastante) relacionada, é em termos de carreira, trabalho, ganha-pão, etc.; eu sempre acreditei que uma pessoa deve adorar aquilo que faz, que deve ser algo que para si não seja realmente trabalho, que ela já faria naturalmente, mesmo sem ser paga. Sempre acreditei que as pessoas infelizmente se acomodam a fazer coisas que detestam ou pelo menos apenas toleram, porque “é assim com toda a gente”, porque “temos de viver no mundo real”, e desculpas do género. Sempre achei que o facto de estar a fazer – e já lá vão uns bons anos, em sítios diferentes – coisas que ocasionalmente são interessantes mas muitas vezes são aborrecidas e stressantes, que o facto de que quase sempre, se tivesse escolha, iria para casa mais cedo ou não viria trabalhar – mais uma vez, aplicado a qualquer emprego que já tenha tido, ou que me imagine a ter a curto prazo – era algo temporário. Algo a aguentar, por razões financeiras e de oportunidades, até um dia ser feliz a fazer algo que adore.

Fazer… o quê?

Pois.

Não sei. Não imagino nada, mesmo entre as minhas actividades, que eu me veja a fazer todos os dias nos próximos 10, 20, 30 anos, e que faça por prazer, mas de alguma forma ganhe dinheiro com isto. Mesmo algo fantasioso neste país, como ser pago para jogar videojogos; acredito que rapidamente se tornaria trabalho, e preferiria cada vez mais estar a fazer outras coisas, em vez de algo que até hoje sempre adorei fazer. Aliás, mesmo agora, não passo a maior parte do tempo livre a jogar; tenho outros gostos, outros interesses, outras paixões. Não há uma coisa, não há a coisa.

É mais uma coisa a descobrir. Porque, mais uma vez, não sei o que quero. E já não estou na casa dos vintes há um bom tempo.

E é melhor nem começar para aqui a falar de sentimentos e relacionamentos…

6 Comentários a “Não sei o que quero”

  1. Paulo diz:

    Já somos 2, cheguei a conclusão, e é o que faço hj em dia pra ter o meu ao fim do mês e me sentir bem com a vida, que é tocar em varias áreas ao mesmo tempo, no meu caso, informática (técnica) e webdesign (criativo), assim quando me farto de uma, sinto vontade da outra, é matemático :). Quem sabe não resulta tb pra ti ter 2 áreas +/- opostas.

  2. Khorazyn diz:

    Saber qual é o significado da vida constitui uma questão filosófica que diz respeito ao propósito e significado da existência humana. O conceito pode ser expresso através de uma miríade de questões de semelhante teor, como porque é que cá estamos? Para que vivemos? Qual é o propósito de cá estarmos? Já houve imensa especulação filosófica, científica e teológica ao longo da história e houve um número ainda maior de respostas provenientes de variadíssimas culturas. O que sugere que o significado da vida é diferente para cada pessoa. Albert Camus (um argelino bem falante) observou que os humanos são seres que passam a vida a tentarem-se convencer que a a existência não é um absurdo.

    O conceito de a vida possuir um significado é usualmente parodiado na cultura popular:

    * Em relação aos livros da série The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, o sentido da vida é 42, por esta ser a resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais (que foi obtida após um período de sete milhões e meio de anos de processamento de um supercomputador gigante chamado Pensador Profundo, que havia sido construído por uma raça de seres hiperinteligentes).

    * Monty Python’s The Meaning of Life: nesta comédia, sugere-se que não haja significado para a vida.

    * Nos The Simpsons, no episódio “Homer The Heretic”, uma iamgem de Deus começa a explicar a Homer qual é o sentido da vida, mas a conversa é interrompida pelos créditos.

    Para terem uma melhor perspectiva, no Google, no campo da procura escrevam:
    The answer to life, the universe and everything

    Quanto ao Pedro é pensar bem no que quer estar a fazer daqui a 20 anos. Este prisma de opções tem variadíssimos vértices. Um deles é quer ser independente ou trabalhar para outros. Quer estar no ramo da informática ou dedica-se aos blogs? Quer estar viver ou sobreviver? Quer ser feliz mas pobre ou rico mas menos feliz?

    Uma vez mais a felicidade não representa o mesmo para todos.

    Há já vários anos que continuas nessa área e ainda não estás satisfeito… tenta outras áreas que penses que possas vir a ter sucesso.

    Para mim o que me dá gosto são os desafios. O Pedro já me conhece há uns 18 anos e pode confirmar. Eu já estive a trabalhar na área de letras e tive muito sucesso, mesmo muito e ainda consegui ajudar outros que estão bastante bem até hoje. Estive no mundo da economia com todos e também tive sucesso no mundo das previsões, estimativas, macro e micro economias, tive sucessos atrás de sucessos, que até hoje estão a ajudar milhares de pessoas devido aos programas elaborados. Recentemente embarquei no mundo das trocas comerciais internacionais e vamos a ver o que vai acontecer.

    Enquanto existirem desafios que goste e que ache que posso retirar algo deles, pessoalmente, profissionalmente e monetariamente, e aos mesmo tempo ajudar outros… não irei parar. Como diriam os fadistas… cantarei até que a voz me doa.

  3. Paulo diz:

    Entretanto com o comentario do Khorazyn lembrei-me deste videoclip, que ja tem uns anitos http://www.youtube.com/watch?v=xfq_A8nXMsQ , acho que vale apena ver e rever de tempos a tempos.

  4. Alex diz:

    Filosoficamente, o que estás a ter é uma aproximação quase Nihilista á vida, pois sugeres que não ha a melhor acção, ou uma acção não é melhor que a outra.
    Mas enquanto conseguires distinguir o bem do mal, não ha qualquer problema.
    Quanto ao significado da vida é uma das grandes questões da Humanidade.
    Por exemplo, eu sou casado pela igreja, mas considero-me agnostico. Não acredito em Deus como algo ditado, por uma entidade terrena como uma igreja, uma ordem ou seita. Acho que está muito acima disso, e nos somos formigas neste universo.
    Quanto ao fazer o quê, isso é algo que so tu podes responder, pois a vida é tua. Esse é o primeiro passo. O segundo, no qual actualmente muita gente está encalhada, é como chegar lá. Quer um, quer outro, parecem de uma simplicidade estupida, mas quando passados á pratica, são de uma complexidade absurda.

  5. lila diz:

    Nao se preocupe tanto em não saber aos 20 e tantos anos
    Estou chegando aos 40 e sinceramente nao tenho a menor ideia .. ainda… espero um dia acordar e ter uma resposta