Comer demais, educação, desperdício e hábitos

Uma das razões pelas quais não sou tão elegante como fui em “tempos de juventude” é, curiosamente, um hábito que a minha família me incutiu em criança, e que é muito normal os pais ensinarem (ou, em muitos casos, tentarem ensinar) aos filhos: não deixar nada no prato. Comer até ao fim.

Isso é um hábito que faz imenso sentido, até certo ponto. Uma criança pode estar a fazer “birra”, seja ela de sono (e aí é bom comer alguma coisa antes de dormir), seja de embirrar com / não gostar dessa comida (é bom aprender a não ser tão “esquisito”, para não ficar como certas crianças que só comem hambúrguer com batatas fritas a todas as refeições porque é o seu prato preferido e os pais não se querem maçar quando ela faz “fita”), seja de qualquer outro tipo. É comum ver pais a queixar-se de que é um inferno fazer os filhos comer, que passam todos os dias várias horas nisso; daí, os pais que se preocupam com a nutrição e saúde dos filhos (e que estão para se maçar, que parecem ser cada vez menos) fazem tudo, desde cedo, para eles comerem tudo o que têm no prato. Além de que em geral os pais não dão aos filhos comida em quantidades exageradas, logo faz mesmo sentido que estes comam tudo o que lhes é dado (claro que há sem dúvida excepções que exageram, mas não penso que tenha sido o caso da minha família, e até aos 20 e poucos eu até era relativamente magro).

E comigo isso resultou. Se calhar, bem demais… já que aos 34 anos, sem ser pressionado a isto desde a infância, e estando a viver sozinho há 10 anos, ainda ajo, geralmente de forma inconsciente, como se fosse um “pecado” deixar alguma coisa no prato. Muitas vezes esforço-me para acabar, mesmo que já me sinta satisfeito ou até cheio. Quando lá consigo ultrapassar isso, os restos vão inevitavelmente para o frigorífico, para comer na próxima refeição. Tenho um horror a desperdícios que se acaba por tornar um problema.

Já não tenho o apetite que tinha há 5 ou 10 anos, mas continuo, por hábito, a encher o prato como se o tivesse – não por “gula”, mas simplesmente porque o faço sem pensar, e tenho o hábito de fazer o que fiz na maior parte da vida. Por isso, como realmente mais do que devia, em muitos casos.

Mas, pior ainda, é quando vou a restaurantes. Apesar de haver excepções, a maior parte dos restaurantes a que vou com alguma regularidade (ex. um certo chinês) ainda serve relativamente bem as doses; a maioria das pessoas não come uma inteira, e é mais razoável pedir-se dois pratos para três pessoas, ou mesmo um para duas, se forem pessoas que comam pouco. No entanto, eu – salvo raríssimas excepções – acabo sempre a travessa. Faz parte de mim; é algo inconsciente. Incomoda-me o facto de ter pago a travessa toda e parte dela voltar para trás, ser desperdiçada. É estúpido, eu sei. Conscientemente, sei-o bem. O que está pago está pago, e seria melhor para a minha saúde comer um pouco menos. O mesmo para quando como em casa: o dinheiro já foi gasto, não ganho nada em prejudicar a minha saúde só para “aproveitar” o que gastei. Mas a educação que tive foi eficaz demais.

É algo a que tenho de passar a ter atenção no futuro. O hábito que me serviu positivamente na infância agora é-me prejudicial, logo tenho de o mudar – e mudar um hábito implica sempre esforço consciente.

4 Comentários a “Comer demais, educação, desperdício e hábitos”

  1. Não há muitos restaurantes onde se possa fazer isto, mas os chineses são conhecidos por o permitirem: quando sobra comida pode pedir-se para embalar os restos para levar para casa. Já agora, nos restaurantes indianos que costumamos frequentar também costumamos fazer o mesmo 🙂

  2. Ka diz:

    Ora aí está, podes sempre pedir para embalar o que sobra. Em casa simplesmente guarda algum para a refeição seguinte. Além de mais saudável ainda poupas dinheiro. 😀

  3. velvetsatine diz:

    Em casa é simples: reduzes a porção de comida que confeccionas e a porção de comida que colocas no prato. No restaurante optas pela solução já indicada nos dois comentários anteriores.

  4. Obrigado desde já pelos comentários. 🙂 António e Ka, isso faz sem dúvida sentido quando sobra metade (ou mais) da travessa, e nesses casos — por exemplo, uma vez em que fui a um chinês com outra pessoa e nenhum de nós estava com fome –, já pedi para levar o resto para casa.

    A questão é quando sobram umas 3-5 garfadas; isso não é uma refeição completa, e uma pessoa sente alguma vergonha de estar a pedir para embalar tão pouca quantidade. Por outro lado, com o horror aos desperdícios que eu tenho, a tendência é sempre comer o resto, mesmo que já esteja satisfeito. Vou ter de me mentalizar que, sim, deixar essas 3-5 garfadas não é um crime.

    velvetsatine, tens toda a razão, mas é como eu digo no post: em geral escolho as quantidades sem pensar nisso, por hábito. É algo como andar; tu não estás a pensar “pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo, pé direito…”, fazes por instinto. Para andares de outra forma tens de o fazer de forma consciente e deliberada, até que isso se torne um novo hábito para substituir o antigo… o que não é fácil quando o antigo tem décadas de avanço. Mas lá terá de ser.