Last.fm, 3 dólares por mês… serei só eu a achar que as queixas são absurdas?

Muito se tem falado (por exemplo aqui) do facto de o last.fm ir passar a cobrar 3 dólares por mês para os utilizadores poderem fazer ouvir rádio (em geral baseado em recomendações segundo os gostos dos utilizadores) por streaming, para países que não sejam os EUA, Grã-Bretanha e Almanha, quando isso até agora era gratuito.

Primeiro, um disclaimer: eu não vou pagar, por uma simples razão: já não usava, mesmo de graça. Nunca fui de ouvir rádio, nem em casa, nem no carro, nem pela net; gosto sempre de escolher o que ouço. Quando quero ser surpreendido, prefiro pôr a colecção de uns 5000 oggs e mp3s em shuffle. Ouvir música escolhida por outros, ou escolhida aleatoriamente, não faz mesmo o meu género, até porque sempre preferi ouvir álbuns de uma ponta a outra, ao invés de ouvir só “aquela música de que eu gosto”; sempre que me apetece ouvir X, ponho um ou mais álbuns de X na playlist (ou, antigamente, punha o CD no leitor). É esta a minha estranha forma de ouvir música, que é completamente incompatível com o conceito de ouvir rádio. Uso o last.fm para ter estatísticas do que ouço, mas isso vai continuar a ser de graça. Logo, a parte de rádio não me interessa mesmo, e naturalmente não vou pagar pelo que não consumo.

Mas isto sou eu.

Se fosse uma pessoa “normal”, que gostasse de ouvir rádio pelo last.fm, não teria qualquer problema em pagar os patéticos 3 dólares por mês. Sim, eu sei, estamos em crise e essas coisas todas, mas, bolas, 3 dólares! São pouco mais de 2 euros! Dá menos de 30 euros por ano, coisa que muitas vezes se gasta num almoço ou jantar com os amigos!

E, se usufruem do site, e o usam para ouvir música onde quer que estejam, sem a terem comprado, não acham que, sei lá, o site merece?

Porque é que em Portugal há todo este horror – mesmo de quem ganha bem – a gastar dinheiro em coisas não palpáveis? Porque é que isto está a ofender tanta gente? Podia-se falar da questão de haver 3 países que continuam a pagar, mas nem me parece que seja isto.

Acho que é a mesma história do “este programa é um espectáculo, tenho de ver se acho o crack”. Ou então como várias pessoas que já vi, que compram jogos nas lojas para as novas consolas, mas “nunca na vida, estás maluco” comprariam algo (bem mais barato) na Xbox Live Arcade / Wii Virtual Console e WiiWare / Playstation Network. Isto da parte de quem gastou mais ao almoço do que o registo vitalício do software ou compra do jogo downloadável custariam, da parte muitas vezes de quem ganha vários milhares de euros por mês. Em Portugal, parece que pagar por algo não palpável (como software, ou a assinatura de um serviço) vai contra os “princípios” de muita gente.

Mas, como sempre, posso estar errado. Se sim, agradeço que alguém me explique porque é que isto o/a ofende e revolta tanto.

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25 Comentários a “Last.fm, 3 dólares por mês… serei só eu a achar que as queixas são absurdas?”

  1. Cris diz:

    São $3 nos EUA, €3 na Europa, não há cá câmbios lol
    Eu também não uso a rádio da last fm, como tu tb uso mais a last fm para ver as tabelas estatisticas e pelas recomendações de novas bandas.

    Mas acho que estás a ver a coisa pelo prisma errado. Acho que o pessoal não está ultrajado por a rádio passar a ser paga, compreende-se que eles tenham que pagar direitos aos artistas, etc.
    Mas é normal dizer-se “oh, vai deixar de ser de borla :(” porque como seres humanos gostamos de coisas de borla. Não quer dizer que se vão seguir manifestações, nem sequer protestos, mas aqueles suspiros como quem diz “oh o verão já acabou” são normais 😉

    • São 3 euros cá? No artigo do Público eles faziam a conversão… bem, isto já se sabe, na Europa somos sempre lixados, o $ passa sempre a €. 🙁

      O que dizes em relação ao suspiro / decepção faz sentido, e deverá ser isso em alguns casos, mas o que tenho observado no Twitter e blogs vai bastante mais longe… é pura raiva, revolta, “estão a gozar connosco!”, e “nunca na vida!”.

      Hmm, será que é simplesmente a segunda fase disto?

      • Cris diz:

        lol doidinho

        Já agora deixo-te o post da last fm onde eles anunciam isto tudo: http://blog.last.fm/2009/03/24/lastfm-radio-announcement

      • AMFreitas diz:

        Não estarás a ir um pouco longe ao comparar o fim de uma “borla” com uma “tragédia” através do modelo indicado…

        Eu sei que para muitos é uma verdadeira tragédia pagar o acesso e ainda o conteúdo???. fizeste-me lembrar Dr. House…

        Fica é a possibilidade de a taxa de audiovisual presente na Factura da Luz, vir a ser estornada 🙂

        António Freitas

        • António, não sou eu que estou a reagir exageradamente. São os tais cuja atitude eu estranho no post. 🙂

          As reacções que tenho visto no Twitter e blogs são tudo menos calmas… as I said,

          é pura raiva, revolta, “estão a gozar connosco!”, e “nunca na vida!”.

          • AMFreitas diz:

            Se tivessem de gerir durante um dia o Last.Fm, não falariam assim. As receitas Pub em queda acentuada, o consumo idem
            Do lado da despesa, custos de ligação, servidores (desconheço em detalhe a arquitectura), hospedagem, salarios, etc… nunca mias chega o Break even Point.

            Bem, há sempre gente do contra… e reclamar passou a ser a bandeira de mta gente, como se tudo ficasse resolvido pelo esbracejar e gritar aos 7 ventos,

            Se tivessem de lidar com a “morte anunciada”, ai sim as prioridades da vida viriam ao de cima e sempre gostava de os ver saltar para a fase 4

  2. O que me incomoda são duas coisas.

    Por um lado acho mal apenas alguns países pagarem a subscrição. Se incluíssem toda a gente o custo iria baixar mais ainda. (Imagino que não o façam por causa do acordo com as discográficas, mas isso seria outro assunto)

    e em segundo lugar eles ganham duas vezes ao ter subscritores. Não é só o fee, é também toda a informação acerca das preferências que os ajuda a melhorar o software de recomendação. Na mesma onda, algumas agências de comunicação recorrem à Last.fm para avaliar campanhas que envolvam músicas feitas por encomenda.

    • Cris diz:

      Pelo que li, nos EUA, UK e Alemanha, a last.fm é autosuficiente porque tem um número de utilizadores mais elevado. Mas isto também é hearsay :/

      • Hmm, por acaso pensei que fosse uma questão de largura de banda, talvez por estar habituado a que os ISPs portugueses façam distinção entre tráfego nacional e internacional. Mas, sim, faz mais sentido que seja pelos acordos com as discográficas.

    • O primeiro ponto, bem, pode ser um pouco chato se nos formos a comparar com os outros, mas se virmos só isto de um ponto de vista absoluto, 36 euros por ano por música ilimitada é irrisório.

      Quanto ao segundo, será que a venda dessa informação (que até está disponível publicamente, não é algo que eles guardem para vender às discográficas ou agências de comunicação) compensa a largura de banda brutal que devem gastar?

  3. Simao Mata diz:

    Eu costumo ouvir rádio no last.fm, provavelmente vou pagar os 3€, a unica coisa que me dá vontade de não os pagar é não achar justo que outros países não tenham que o fazer…

    • Rui diz:

      Eu também estou disposto a pagar, são valores muito baixos.
      Mas nunca o farei enquanto me tratarem como um ser inferior por ter nascido e viver neste país.

      O passar a pagar até é compreensível, apesar de desagradável. Mas ser explicitamente discriminado? Parem aí.

      • A pensar assim, não compras NADA.

        É que, caso não saibas, todos os gadgets, hardware, etc. são bastante mais baratos nos EUA (às vezes custam só metade). É discriminação contra o resto do mundo!

        • Rui diz:

          Uma coisa é Rádio Popular vs Walmart. Outra coisa é comércio na Internet.
          Qualquer serviço online tem o mesmo custo em todo o mundo.
          Compras uma música numa loja online, pagas o mesmo cá como nos EUA. Uma conta premium num jogo online, pagas o mesmo em todo o mundo. Compras um livro no Amazon, idem, pode-te sair mais caro por causa dos portes de envio, mas aí já estás a pagar outro serviço, o produto livro custa o mesmo para qualquer parte do mundo.

          A seguir à liberdade e acesso à informação, um dos principais aspectos positivos da Internet foi o quebrar barreiras. Barreiras que ainda existem como no caso desses hardwares e gadgets. Estes senhores deram um passo atrás relativamente a esse aspecto.

          E não se esqueçam de uma coisa, este site vive maioritariamente às custas de contribuições dadas pelos próprios utilizadores. Ao passarem uma imagem mais comercial muita gente ficará com a impressão que não lhe compete tal coisa, pois não se vêm tanto como membros de uma comunidade mas sim como meros clientes. E um cliente usufrui, normalmente não contribui.

  4. CSousa diz:

    A grande vantagem de ter mu’sicas escolhidas por outros, em particular a ra’dio de remomendacoes da lastfm, e’ a possibilidade de descobrir novas bandas, dentro do ge’nero que gostamos, completamente desconhecidas anteriormente. Grac,as ‘a lastfm descobri bandas menos comerciais das quais fiquei fa…

    • Cris diz:

      Concordo contigo, para mim essa (e as tabelas estatisticas, tal como tinha dito acima) é uma das grandes razões porque uso a last fm. Mas continuas a ter acesso às recomendações e podes sempre utilizar outros sites (como o youtube) para veres se gostas de uma determinada banda recomendada por eles 😉

  5. Marco diz:

    A única coisa que me gera espécie no facto de pagar é simples: não tenho conta de cartão de crédito, muito menos posso ter um meio de a utilizar online. A minha mãe tem fobia a pagamentos via internet. Já lhe expliquei o SSL todo detalhadamente, mas nem assim cheguei lá. :/

  6. Rui Moura diz:

    Bem, falo por mim, não tenho qualquer horror em comprar coisas “não palpáveis”, e pago uma mão cheia de serviços na internet porque me são realmente úteis.

    No caso do last.fm, estarem a cobrar para um gajo ouvir as rádios é quase como que (como ontem alguém disse no twitter) a wikipédia cobrar dinheiro para um gajo lá escrever.

    Ao fazeres o scrobling das músicas estás a contribuir para o site, estás a dar-lhes dados importantes a nível comercial, e sinceramente não consigo entender porque raio uns têm que pagar e outros não (sim, já li bem as razões que eles apresentam para isso).

    Enfim, não tenho qualquer tipo de problema em pagar, mas no caso do last.fm acho que não há necessidade nenhuma de pagar por algo que podiam muito bem continuar a oferecer. Secalhar é mais um reflexo da “crise”, não sei, mas não contem comigo. Além do mais, aquilo sempre esteve mal feito e as recomendações eram péssimas e altamente aleatórias (já me tinha queixado disso várias vezes).

    Tinha a vantagem de ter um site porreiro, a vantagem de ter uma comunidade porreira, e a vantagem de se conhecer imensa música nova, e de ter clientes para desktop porreiros, mas assim não é para mim.

    • Rui,

      ainda duvido muito que os dados estatísticos que lhes damos valham assim tanto comparado com a tremenda largura de banda (para não falar de software, e sysadmins) que aquilo deve gastar.

      Quanto às razões para uns países não pagarem, desculpa, mas se leste as razões apresentadas, deves entender. Podes não achar bem, podes não concordar, podes achar que eles estão a mentir, mas entender, entendes. 🙂 Há 3 países onde a publicidade lhes paga o serviço; o resto do mundo não.

      Podemos afirmar — e aí posso dar razão aos queixantes — que, mesmo nessas circunstâncias, eles deveriam ter feito todo o mundo pagar, até porque os referidos 3 países são dos mais ricos. É possível. Se o tivessem feito, não viria ao de cima o nacionalismo do resto do mundo, que eu não partilho (vejo o valor de uma coisa apenas em termos absolutos, caso contrário nunca compraria nada, já que os EUA pagam sempre muito menos por tudo). Ganhavam mais uns trocos, e os utilizadores dos países em questão são precisamente os que menos se recusariam — uns por falta de dinheiro, outros por acharem que não pagar por nada é um princípio — a pagar a assinatura. Sim, provavelmente tinha sido melhor. Mas o erro está feito. Não podem, nunca, agora anunciar que vão passar a cobrar aos 3 países também, simplesmente porque o resto do mundo protestou.

      Se me dizes, como no penúltimo parágrafo, que o serviço de rádio deles não prestava, OK, posso entender isso (não o uso, por isso vou acreditar em ti), mas, dessa forma, também não valeria a pena sendo de graça, não é? É isto que eu não consigo entender: como é que uma coisa vale a pena a €0/ano, mas “é um roubo descarado” a €36/ano. Para mim, os valores estão tão ridiculamente próximos que algo ou não vale a pena a nenhum dos preços, ou vale a pena a ambos.

      • Cris diz:

        “Não podem, nunca, agora anunciar que vão passar a cobrar aos 3 países também, simplesmente porque o resto do mundo protestou.”
        Discordo, a pensar assim ninguém protestava contra nada

        • Mas neste caso seria completamente dar um tiro no pé. Se eles tivessem anunciado que iam cobrar a toda a gente, tudo bem, mas fazê-lo depois de terem dito o contrário iria pôr os 3 mercados mais importantes (para eles) totalmente contra eles.

          Pessoalmente, não vejo mesmo sentido nenhum neste nacionalismo todo à volta do “porque é que eles não pagam? descriminação!!!”. Um preço deve ser visto em termos absolutos (“compensa-me ou não?”), e pronto. Como disse em resposta a outro comentário, se vamos por aí nunca compraríamos, sei lá, uma máquina fotográfica, telemóvel, consola, GPS, jogo, música, e tudo o resto; afinal, os americanos pagam bem menos por tudo isso… é discriminação! Boicote já! 🙂

  7. Cris diz:

    Eu concordo que seria muito mau para o negócio se eles voltassem atrás até porque, como referiste, os 3 grandes em causa são quem lhes “dá de comer”.
    Mas mais uma vez acho que tás a ver a coisa pelo prisma errado 😉
    A esmagadora maioria das pessoas não deixa de consumir uma coisa só porque cá está muito mais cara do que nos EUA (quanto muito, manda vir do amazon ehe), mas isso não quer dizer que a malta não se revolte e não mande vir com a situação.
    E quem sabe até se, com muita gente a refilar, as coisas não se alteram 😉 Todos nós temos a capacidade de contribuir para a diferença, como de certeza disse alguém importante um dia 😛

    • OK, mas aqui eles só têm 3 hipóteses: aguentar as queixas (perdem muitos utilizadores fora dos 3 países, mas muitos ficarão, e outros voltarão eventualmente), voltar a ser tudo de graça (impossível para o negócio deles), ou cobrar os 3 dólares aos 3 países que faltam (como disseste, não é viável). Acho que terá mesmo de ser a primeira (se bem que deviam ter começado com a terceira).

      • Simao Mata diz:

        Eu não vou deixar de ler, jogar, ou comer porque é mais caro do que noutros países, mas posso bem deixar de ouvir rádio no last.fm só porque é mais caro do que noutros países. 🙂