Discussões racionais

Considerem, please, este exemplo:

Pessoa A: (apresenta uma posição)

Pessoa B: “Acho que estás errado, por isto e isto…” (apresenta as razões)

Pessoa A: “Ah, mas estas tuas razões são inválidas, porque…” (diz porque é que cada uma das razões é inválida)

Pessoa B: “Não é bem assim, o problema que deste para aquela razão não é realmente um problema, porque…” (justifica)

Etc. etc.

Isto, para mim, é como as pessoas racionais discutem (no bom sentido da palavra, isto é, discutir uma ideia, não uma troca de insultos num volume de som excessivamente alto). Para mim, isto é divertido, estimulante, não é nada “pessoal”, não há espaço para zangas, ambos estão a demonstrar total respeito pelo outro, ambos estão a ouvir o outro e pensar no que ele diz, de forma a concordar ou discordar. Não se trata de “ganhar” ou “perder” (até adoro que me demonstrem que estou errado, e gostava que isso fosse mais frequente, já que dessa forma aprenderia mais), não se distorce factos ou a realidade, não há emoções envolvidas (pode haver paixão e entusiasmo, mas nunca se usa argumentos infantis e irracionais tipo “esse facto ou argumento magoa-me, logo não o podes usar”)… em resumo, é assim que eu acho, e sempre achei, que pessoas racionais e adultas discutem. E é só assim que se aprende, e se chega a algum lado.

Serei eu um extraterrestre por pensar isso? 🙁

Ou estarei a ter azar com as pessoas, e deverei controlar melhor as discussões em que me meto?

Ouvir uma pessoa e dizer-lhe como está errada, e porquê, é, para mim, a maior demonstração de respeito que lhe podemos dar. E não vou discutir (ou falar) mais com quem 1) se sente ofendido por esse respeito, e/ou 2) não retribui o mesmo.

15 Comentários a “Discussões racionais”

  1. CSousa diz:

    É verdade o que disseste, as emoções tiram o sentido às discussões.
    Acrescento apenas que o facto de uma pessoa não conseguir ter argumentos que convençam a outra não significa que esteja errada, e vice versa.

    • Sem dúvida, se bem que isso merece ser expandido.

      Se não a convencemos porque ela é teimosa e se recusa a considerar os nossos argumentos, então ela é irracional e não vale a pena continuar a conversa. É alguém que não dá luta, mas acha que dá, que “ganha”, só porque tapa os ouvidos quando falamos e/ou fala mais alto e mais agressivamente do que nós.

      Mesmo assim, pode ser que os nossos argumentos sejam incompletos, mas a conclusão esteja certa; simplesmente, ainda não temos os factos necessários, ou não chegámos ao argumento apropriado. Nesse caso, a outra pessoa pode rejeitar o nosso argumento racionalmente, de forma provisória; quando houver novos dados, reconsidera-se.

      Ou querias dizer outra coisa? 🙂

      • CSousa diz:

        Sim era isso. Mas também acontece por vezes uma pessoa não conseguir se exprimir (acontece-me por vezes), ou seja não consegue expor os argumentos nas melhores palavras.

        Um caso que me costuma acontecer é estar discutir um tema com a minha namorada e após muito esforço ela conseguir fazer ver as coisas como ela vê. Depois de concordar com ela apercebo-me que se ela tivesse exposto argumentos de uma forma mais clara eu teria mudado de opinião muito mais facilmente. É um exemplo de como a forma de argumentar é muito importante.

        Por outro lado um vendedor de banha da cobra consegue ser muito persuasivo e ter argumentos que parecem espectaculares mas suportam apenas mentiras.

        Quanto às pessoas teimosas, quando já não há hipótese de chegar a lado algum, a minha abordadegem habitual é começar a dizer “pois, talvez sim, não sei…”, e tentar mudar de assunto.

        Acerca dos argumentos, um artigo interessante: http://www.nizkor.org/features/fallacies/

  2. Cris diz:

    Tens aí duas utopias a meu ver:
    1) Nunca vais conseguir deixar de falar/discutir com as pessoas que não sabem discutir porque é uma necessidade humana, isto é, encontras forçosamente no teu dia-a-dia pessoas assim com quem és obrigado a comunicar por força maior (emprego, família, etc). Podes sempre evitar é o conflito (que é a minha abordagem à coisa), mas vai da contenção de cada um.
    2) Conseguir retirar a emoção às discussões não é possivel em todas as situações. O que eu acho que querias dizer é que com algumas pessoas é impossivel sempre, o que irrita profundamente, concordo. Mas há muita gente que, como tu, gosta de ter discussões saudáveis sobre temas que por norma até são impessoais. Essas discussões normalmente correm com tranquilidade e são até bastante interessantes. Se não se debatessem ideias a sociedade não evoluia. O problema são as discussões pessoais. Aí já depende do grau de contenção e educação de cada um, mas é muito mais fácil a conversa descambar e até a pessoa mais pacifica tem os seus momentos de perda de paciência volta e meia.

    Resumindo:
    -há aí muita gente que gosta de discussões saudáveis 🙂
    -não vais conseguir evitar discussões acessas para sempre (até pq a repressão da raiva traz os seus maleficios :P)

  3. AMFreitas diz:

    Apresentaste a forma/visão de como duas pessoas racionais devem disdutir/argumentar/conversar apresentando/expondo/defendendo as suas ideias/visões dobre um tema/assunto.
    No entanto devo fazer-te notar que nem só de discussões racionais se faz a comunicação entre pares… A emoção e a subjectividade, vem à flor da pele no trato e na vivência entre os Humanos… é verdade Somos racionais, mas a racionalidade ajuda-nos a discernir e a entender o racional, mas deixa-nos perplexos com o irracional, com o emotivo, com tudo aquilo que não tem nexo…
    Não te consigo racionalmente expor de forma mais simples o que te digo, mas deixo-te as minhas dificuldades do dia a dia para te debruçares e construíres outra formas de dialogo que certamente terás necessidade de usar…
    Tenho por hábito também ser racional, nas argumentações que faço, mas tenho de lidar com os meus filhos cuja racionalidade/maturidade, ainda não se encontra desenvolvida… como faço “chamo-os à razão”, mas são tão imaturos, como discutir e transmitir um conhecimento, como impor uma ordem e um regra, para a qual a sua pequena cabeça ainda não processa de forma consciente a razão? Sem desrespeitar nem perder eu próprio a razão??
    Trocando o lugar dos filhos por o lugar de um idoso, cansado como chama-lo à razão dos seus 90 anos de idade sem o ofender, mesmo consciente que os motivos da sua decisão são descabidos e sem sentido…
    Caio continuamente na necessidade de criar uma relação afectuosa e de confiança que possa ultrapassar essa barreira de dialogo irracional… mas tentar conduzir a bom porto as minhas convicções sem ferir nem deixar de mostrar a autoridade necessária.
    Com estes dois exemplos, e não querendo fugir do tema a discussão racional tem e faz todo o sentido em quem esteja disposto a construir e utilizar essa mesma regra/ formato /sintax de comunicação. Mas nós humanos somos um pouco mais que isso ou não??
    Há para terminar.. Não! Não és extraterrestre, mas tudo o que fuja do discurso racional é para ti muito dificil de lidar?? Estou certo?? ou nem por isso??? Não discuto nem vencedores nem vencidos. Só a dificuldade!!!
    Fica Bem

    • AMFreitas diz:

      PS: Será que fui de alguma forma off-topic??? Sempre te vi com resposta para quase todos os comentários, no entanto estou apreensivo por não ter recebido nenhum feedback. Eu sei que estiquei ligeiramente nos exemplos pondo um filho (não adulto) e um idoso (“excessivamente” adulto), mas a forma de entendimento entre as partes é muito complexa. Nem sempre o dialogo, resulta em discussão e como tal em conhecimento/crescimento.
      PSS: Eu também tenho discussões, que se transformam em diálogos e por fim em monólogos. Também não sei por vezes discutir, ou melhor saber ouvir…

    • António,

      eu sei que as pessoas não são racionais. Nem eu o sou, se bem que faz parte dos meus objectivos sê-lo o mais possível — e isso inclui a parte mais difícil, que é não me exasperar por os outros não o serem.

      É claro que não dá para lidar com toda a gente da mesma maneira. Mas, de certa forma, posso pegar nos exemplos que me dás: tanto uma criança pequena como um velhinho de 90 anos cuja cabeça já não funcione a 100% não são seres normalmente racionais, e uma pessoa tem de “dar desconto” e tratá-los como tal. Mas… o que dizer de alguém que não tenha esse atenuante e aja da mesma maneira? Alguém que se apegue emocionalmente à ideia de que 2+2=5 e se sinta pessoalmente ofendido e magoado, e nos acuse de “termos de ter sempre razão”, quando pegamos em 2 pedras e outras 2 pedras, as contamos, e dá 4 em vez de 5?

      Eu não vou tratar adultos como criancinhas mimadas, porque tal coisa é o maior insulto que lhes posso fazer, do meu ponto de vista. Prefiro mesmo não ter de lidar com essas pessoas, ou fazê-lo o mínimo possível. Tal como disse no post, não vejo maior demonstração de respeito do que dizer a alguém “estás errado, por estas razões”: isso significa que tratas essa pessoa como um “igual”, que a ouves, e que pensas no que ela disse. Quem, ao invés, veja isso como uma ofensa, acabou de se declarar mentalmente incompetente para uma discussão racional entre adultos, e, como não lhe vou dar o desconto que daria à criança ou ao velhinho, prefiro não lidar mais com essa pessoa.

      • AMFreitas diz:

        A minha exposição não pretendia nem pretende ir contra a tua reflexão. Bem pelo contrário, procura encontrar um caminho para o entendimento. Como racionais que somos, exasperamos pela ausência de argumentos aquando do debate /exposição de um assunto.
        Penso que devemos partir para uma discussão ou debate de ideias, alertando os intervenientes das regras de funcionamento (isso já tu o fizeste no teu blog).
        Penso que também tu sentes como eu o amargo de boca, da relação incongruente que imediatamente alguém faz entre o que eu defendo e o relacionamento pessoal. Há um transbordar de imediato uma sensação de raiva/ódio, que não deve ser trazida para o meio do debate, nem para o relacionamento entre pessoas.
        Aqui acabou o debate, não há racionalidade, não utilizamos a mesma linguagem/sintaxe. Ou seja como dizes “prefiro não lidar mais com a pessoa”.
        O problema é que nos relacionamentos humanos (seria um bom post) nem tudo é a construção de conhecimento, nem sempre a forma de comunicação de faz com e para a obtenção de razão.
        Os relacionamentos humanos, são também providos de sentimentos, afectos, comunicação futil e bem estar. Caso contrário seriamos perfeitamente intragáveis no trato
        Aqui neste ponto que não é o motivo do post, cai a nossa (desculpa falar por ti…) dificuldade, como lidar com os outro sem manter com eles uma conversa racional? Bem eu por mim falo, com muito custo, suor e lágrimas, muito arrependimento à posteriori pois o que me falta é sim a sã convivência com os outros e somente isso.

  4. Sarita diz:

    Diz-me lá, se o problema persiste com várias pessoas diferentes pode haver duas causas: ou a maneira como tu discutes ou encalhares com pessoas iguaizinhas entre si. O que achas que poderá ser? E nao, nao estou a ser sarcástica 🙂

    Beijinhos,
    sara

    • Diz-me o que achas que há de errado na minha maneira de discutir, e terei todo o prazer em responder-te. 🙂

      • Sarita diz:

        Pedrinho, eu nao estou a afirmar, estou a questionar, que acho que é o que tu deverias fazer, lembra-te que és um factor em comum nas referidas discussoes. Se fosses um cientista a analisar a coisa irias analisar todas as variáves, nao? :O

        Bijus

        • Mas eu questiono-me constantemente. No entanto, sei que posso aprender com os outros, sem dúvida… mas é preciso que os referidos outros me dêem mais detalhes do que um genérico “se calhar o problema está do teu lado”. 🙂

          • Sarita diz:

            Pedrinho, eu nao estou a dizer que sim ou soupas, estou a dizer se calhar. Questiona desta maneira, imagina que outra pessoa te responde dessa maneira e pensa se isso te irrita ou nao, e se sim, porque.