Greta Christina: música nova, nostalgia, e o perigo de se ficar um “velho resmungão”

(Nota: este é o primeiro de 3 artigos a divulgar e comentar posts recentes da Greta Christina, cujo blog é das coisas mais inteligentes e interessantes que para aí andam.)

O post em questão chama-se Against Nostalgia, or, I’m In Love with the Modern World: On Not Being a Crank, Part 2. Título um bocado grande 🙂 , mas faz sentido. Como o mesmo implica, é a continuação de outro post dela, ambos tendo como tema a preocupação dela de, com a idade, não ficar “resmungona”, fechada, presa aos seus hábitos, a dizer mal de tudo o que é novo, e assim por diante. Mais ou menos como estes tipos (ela própria usa esta imagem):

velhos-marretas

Neste caso específico, ela refere-se à música, mas o que ela aqui diz podia adaptar-se a qualquer outro campo. Ela avisa quanto à possibilidade de ficarmos presos à nostalgia (coisa muito forte em mim, se bem que não acho que ela me limite, pelo menos por agora – but, then again, tenho uns meros 34 anos), que facilmente faz com que vejamos o passado – quase sempre, a época da nossa adolescência ou princípio dos “vintes” – com “óculos cor-de-rosa”, e fiquemos presos a isso, rejeitando tudo o que há de novo. Ela propõe-se o seguinte:

Listen to music that’s being made now.

My rule is this: I don’t let myself just listen to music that was recorded when I was in college and my early twenties (or earlier). I make a conscious effort to listen to at least some music that’s being made now, by musicians and bands who are still alive and still working. (And no, reunion tours don’t count.)

Olhando para mim, eu acho que não estou (para já) muito mal neste aspecto. É certo que muita da música que ouço – Black Sabbath, Pink Floyd e afins – tem origens relativamente antigas (anos 60), se bem que continuaram a fazer música nova até aos anos 90, e eu continuei a segui-la (ou explorá-la, no caso dos Pink Floyd, que só “descobri” bem depois). É também certo que o que ouço em geral não está de forma alguma na moda, se bem que me posso orgulhar de isso não ter qualquer influência nos meus gostos – ou seja, se por um lado não ouço algo só por estar na moda, também não o ouço só por não estar, ou não deixo de o ouvir só por estar. O anti-conformismo cego é tão estúpido e “em segunda mão” como o conformismo cego. 🙂

Acredito também que não rejeito algo – banda, álbum, música – só por ser novo. Em geral afasto-me um bocado da rádio e afins, mas não por na mesma se ouvir música moderna; é, sim, por se ouvir música de plástico, comercial, e em geral toda igual. Não assumo isso em relação a tudo o que se faz; apenas àquilo que, por razões comerciais compreensíveis, as rádios em geral passam. Mas se me mostrarem algo muito bom e for o primeiro álbum de um novo artista ou banda, vamos a isso. Acredito que isso ainda é assim. Por outro lado, é um facto que continuo a seguir bandas da minha “juventude”, como Iron Maiden, Judas Priest, Blind Guardian, ou membros e ex-membros dos Black Sabbath.

Mas muita gente que seja tão ou mais discernente do que eu, e em idades semelhantes ou superiores à minha, dirá que “a música de hoje é toda igual, é toda uma merda”. Será verdade? Eu próprio tenho um pouco essa ideia (se bem que estou sempre preparado para abrir excepções). Mas a Greta Christina diz algo em que ainda não tinha pensado:

I think there are two things that make it easy to think everything was better in the good old days. There’s Sturgeon’s Law — and there’s the filtering process of time.

Sturgeon’s Law states, quite simply, that 90% of everything is crap. Romantic comedies, symphonies, science fiction novels, porn videos, dress designs, epic poems, comic books, popular music… 90% of all of it is crap.
But time has a tendency to filter out the crap. We don’t listen to the mediocre 18th century operas; we don’t read the mediocre 19th century novels; we don’t watch the mediocre silent movies. We listen to Mozart, read Jane Austen, watch Buster Keaton. We listen to Janis Joplin and The Who. “To Sir With Love”? Not so much.

It’s not a perfect filtering process. Some good stuff gets filtered out; some mediocre crap gets through the screen. But on the whole, we let the crap get swallowed into the maw of history, and hang onto the good stuff. Which makes it very, very easy to mistakenly think that the operas and novels and movies and popular songs of the old days were so much better than any of the crap they’re making today.

Acho que isto é inteiramente verdade. Acrescentaria ainda que uma música que conhecemos e ouvimos há anos é como um “velho amigo”; conhecemos cada nota, cada sílaba. Algo acabado de ouvir pela primeira vez, sobretudo em géneros mais complexos, soa… estranho; muitas vezes um álbum inteiro parece “todo igual”, porque as melodias precisam de algum tempo para serem absorvidas. A música, tal como o vinho 🙂 é, em grande parte, um gosto adquirido – se rejeitamos algo à primeira vista (ou audição, neste caso), estamos a pôr de parte coisas que poderíamos vir a adorar.

Relativamente ao “dantes era tudo muito melhor”, querem um desafio? Pensem naquela que consideram a “época de ouro” da música, aquela altura em que adoravam o que se fazia na altura, aqueles anos nos quais se inclui mais de metade da vossa colecção de MP3s. Provavelmente é a vossa adolescência. É bem provável que sejam os anos 80.

Agora, investiguem o que estava nos tops em várias semanas / meses nesses anos. Não apenas as músicas da altura que ouvem hoje. Vejam mesmo o que estava efectivamente nos tops. Há formas (a net é uma delas, assinar a Retro Gamer é outra 🙂 ) de o saber.

E digam lá quantas músicas conhecem. E quantas foram esquecidas pelo mundo desde essa altura. Vejam também quão horríveis algumas são. 🙂

You know what? If what you truly love is old- time bluegrass or ’60s psychedelia? That’s cool. It might behoove you to check out some modern music anyway — there are contemporary musicians doing some interesting interpretations of bluegrass and psychedelia — but life is too short to listen to music that you hate. There are wonderful things from the past, and by all means, we should be enjoying them and preserving them and keeping them alive.

But we shouldn’t treat our aesthetic preferences as a moral imperative. We shouldn’t pretend that it’s a serious life philosophy to gripe about kids these days and their crazy fashions. We shouldn’t act as if shutting out the modern world somehow makes us discerning and superior.

Adoro o último parágrafo. E isto é algo que vejo, infelizmente, em pessoas até mais novas do que eu: tratar o “só gosto disto” como uma questão de princípios a não trair, fechar-se completamente a coisas novas, e achar que dizer mal de tudo os faz ser (ou pelo menos parecer) superiores. É triste.

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11 Comentários a “Greta Christina: música nova, nostalgia, e o perigo de se ficar um “velho resmungão””

  1. Sarita diz:

    Oh minhanossasenhora, mas eu e tu nunca haveremos de ter as mesmas opinioes?! 🙂
    Eu discordo absolutamente do que essa sinhoira diz, aliás é uma coisa em que tenho andado a pensar há algum tempo.

    Eu hoje em dia sou picuínhas com o que oico e já me ocorreu se estarei a ficar velha refilona. Gosto de jazz principalmente e de ópera, para além dos meus ricos Madredeus e uns pózinhos aqui e ali de artistas recentes, como por ex. a Amy Winehouse. Como é óbvio já me ocorreu porque é que já nao tenho paciencia para popada, nomeadamente para a popada recente, mas a questao é mais simples do que fechar-me a coisas novas.

    Os nossos gostos mudam com a idade, o que procuramos é diferente, as coisas que nos dao prazer sao diferentes, somos mais sofisticados. Nao sofisticados na ascencao da palavra que nos sentamos a ler Descartes vestidos de negro a fumar um cigarro (ok, ok, definicao popada de sofisticacao francesa 😀 ), mas sofisticados no sentido que vivemos mais, vimos mais, viajamos mais, conhecemos mais, logo nao nos contentamos facilmente com a primeira coisa a que somos submetidos; temos termos de comparacao que antes nao tínhamos, somos menos ingénuos, nao nos deslumbramos tao facilmente.

    O meu Manelito é o encarregado de me por música no cartao de memória do telélé e tenho para lá muita coisa nova, que de vez em quando oico quando quero algo leve. No entanto, apesar de as vezes estar em mode light nao quer dizer que consigo ouvir algumas das cancoes. Kasabian, os Ting Tings e a Lilly Allen ainda marcham, mas agora a Beyoncé, a Rhianna, as Girls Aloud ou algo do género, peloamordedeus, para isso é que o botao de forward serve. Nao há paciencia, aliás foi por ouvir essas músicas nos headphones que fiquei chocada. Tu já experimentaste ouvir a xaropada que é a Beyoncé ou a Rhianna? As melodias até sao giras, dá para mexer o posterior, mas e as letras? Coisinha mais mesquinha e tacanha, os gajos saos todos uns fdp e as gajas sao todas, ou umas vítimas ou umas valentes. Nao há paciencia de facto Pedro, e quanto aos outros artistas, enfim, esses nem sequer tem letras que tenham nexo quanto mais terem letras misógenas ou ignorantes.

    Eu nao quero com isso dizer que as músicas sao uma merda, simplesmente nao vou gastar o meu pilim a dar a esses artistas que em minha opiniao nao valem a pena. Faz sentido, nao? E nao é por haver o culto da juventude que eu vou pensar de maneira diferente.

    O problema é esse maioritariamente, a nossa sociedade tem o culto da juventude. Antigamente terias pessoas com experiencia em certas posicoes da sociedade, hoje em dia todas as empresas tem putos em funcoes que deveriam requerer experiencia e maturidade, mas que sao ao invés substituídas com sangue novo e guelra, como se essas fossem as características mais importantes para se singrar na vida e levar uma companhia avante. Todas as mulheres tem o culto da juventude, toda a gente quer parecer mais novo do que é, o que implica ter como cultura a cultura da juventude, e entre outros comportamentos, ouvir essa popada horrorosa e “get down with da kids”. Em Londres acontece imenso, se calhar mais ainda que em Portugal, e garanto-te, nao é bonito de ver.

    Tens geracoes inteiras nos seus 30s/ 40s a comportarem-se como adolescentes, com os mesmos valores e aspiracoes que tinham quando tinham 15 anos, com o mesmo outolook in life e pior ainda, com as mesmas responsabilidades. Eu nao acho que sejam melhores ou piores do que eu, só acho é que devemos aceitar as responsabilidades que a idade nos confere, nem mais, nem menos. Nao quero com isto dizer que sou ressabiada e velha, aliás, o que me atraíu no meu namorado é a capacidade que ele tem de se divertir como uma crianca, de nao ser fechado a experiencias novas, mas sem perder de vista que nao é um puto e que se a situacao necessitar, de saber reagir com a responsibilidade e sapiencia conferida pela sua idade. É um homem, enquanto que gajos mais velhos que ele andam por aí sao uns putos. É a puta da vida 😉

    Bijus

    • Acho que, realmente, no dia em que concordarmos em alguma coisa serão registadas temperaturas abaixo de zero no Hades. 🙂 Será que, se eu tivesse afirmado que a música de hoje em dia é toda comercial, “de plástico”, feita por comités, e afins, e que nos anos 70 e 80 é que era, tu me terias respondido que eu sou um elitista imundo, com a mente totalmente fechada a descobrir coisas novas? 🙂

      (É pena a vida não ser como os videojogos, caso contrário eu teria feito “save” antes de escrever o post, e agora faria “load”, voltando atrás no tempo, e escreveria um em que discordaria completamente da autora, só para ver a tua reacção. 🙂 )

      OK, a sério, eu percebo o que dizes. Em parte também penso assim, se bem que praticamente não conheço tanto aquilo de que dizes mal, como aquilo de que dizes bem. Alguns conheço de nome, outros nem isso. Mas continuo a concordar com o que a Greta diz — não necessariamente com os gostos específicos, já que para mim punk não chega aos calcanhares do rock que não chega aos calcanhares do hard rock que não chega aos calcanhares do metal que não chega aos calcanhares… enfim… mas com a ideia de que muito facilmente o “não gosto de A, não gosto de B, e não gosto de C” se transforma num “não gosto de nada do que se faz hoje”, e isso também facilmente deixa de ser visto como um gosto ou uma opinião, e se transforma num “princípio moral” e/ou em algo que (na nossa cabeça) nos torna superiores aos outros. Não digo que seja o teu caso, mas conheço muito boa gente que parece acreditar que quanto mais mal disser do maior número de coisas, mais “exigente” e “sofisticado” isso a torna — logo, alguém que não goste de nada é a pessoa mais exigente e sofisticada à face da terra. E isso, desculpem se ofendo alguém, é completamente idiota.

  2. Sarita diz:

    “Será que, se eu tivesse afirmado que a música de hoje em dia é toda comercial, “de plástico”, feita por comités, e afins, e que nos anos 70 e 80 é que era, tu me terias respondido que eu sou um elitista imundo, com a mente totalmente fechada a descobrir coisas novas?”

    Mas obviamente meu caro! 😉

    E devo dizer-te, nem sei como gostas de ler a sinhoira em questao, acho que ela tenta “be down with da kids, innit” e tem ilacoes bastante imaturas. Que idd tem a sinhoira, sabes? É que quando comecei a ler o texto, pareceu-me ser uma miúda com a mania que é adulta e já sabe umas coisas. A sinhoira parece já entradota, nao me parece ter 18 ou 19. E miguito, nao é elogio ter-se perto de 40 e de dar a impressao de se saber tanto como uma garota de 18/19…

    whatever, am I buvvered?! *rolls eyes* 😀

    • Tem quarentas e tais. E eu acho-a genial. Se “imatura” é escrever sobre sexo e ser um pouco “geeky”, então precisamos de mais pessoas imaturas. 🙂

      • Sarita diz:

        Nao Pedrinho, nao é por escrever sobre esses assuntos que é imatura. É imatura porque escreve como uma adolescente revoltada com o mundo que lhe foi imposto e com uma arrogancia própria da juventude, julga ter as respostas que nenhum iluminado antes dela teve, como se tudo fosse preto e branco.

        Ora, o que qualquer pessoa mais madura e vivida tem oportunidade de aprender é que quanto mais velho, mais as certezas relativamente a certos assuntos nos evadem; a mim cada vez mais me parece que vejo tudo através de um prisma multicolorido, que consigo ver a posicao da Sarita e a posicao do Manelito e a posicao da Mariazita e a posicao do Zézito e a posicao da Manelita, enfim que tudo no fundo é relativo, só depende de qual a faceta por que estivermos a olhar. Todos temos razao e ninguém tem razao, a solucao está no meio termo, em chegarmos a um compromisso.

        Para além disso, a partir de certa idade deixamos de estar revoltados com o mundo e aprendemos que este nao é o mundo que herdámos, mas o mundo em que vivemos. Se as coisas estao más, entao é a nossa responsabilidade mudá-las; nao necessariamente em ir para a rua de bandeira em riste a gritar, mas tentarmos melhorar como indivíduos e partilhar o que aprendemos com outros.

        Ficarmos no nosso sofá a revoltarmo-nos contra o mundo, a culparmos e apontarmos o dedo a uma sociedade que nao é representativa de nós, é infantil, cheira a adolescente zangado contra o establishment. A um adolescente perdoa-se, nao vota, nao trabalha, nao toma decisoes relativamente a outros, mas a um adulto? Um adulto, quer queira, quer nao, faz parte da tal sociedade que insiste em criticar. Lamento, mas um adulto tem responsabilidades que um adolescente nao tem, nao lhe é tao fácil descartar-se e afirmar que “a culpa de tudo sao os outros” enquanto fica no seu cantinho zangado com tudo e com todos. Isso sim, é imaturo.

        Beijinhos 🙂

        • Primeiro, não sei onde é que viste essa atitude, em tão grande detalhe, no blog dela.

          Segundo, aquilo a que chamas “com uma arrogancia própria da juventude, julga ter as respostas que nenhum iluminado antes dela teve, como se tudo fosse preto e branco”, eu chamo “ter opiniões”.

          Ora, quando temos uma opinião, naturalmente achamos que ela está certa (caso contrário estaríamos num marasmo de “eu acho que acho que acho que acho que acho isto, mas não tenho a certeza de que não tenho a certeza de que não tenho a certeza de que não tenho a certeza disso”, o que pelos vistos parece ser a posição “adulta”, em certos círculos, juntamente como “não ter princípios” (isso é para crianças) e “dizer mal de tudo” (isso faz-nos parecer exigentes e sofisticados)…) e que quem tem a opinião contrária está errado. Isso acontece com ela, comigo ou, quer o admitas quer não, contigo (afinal, acabaste de dar uma opinião sobre a escrita dela — e conhecendo-a menos do que eu conheço –, e de certeza que achas que essa opinião está certa, não é?). O que é adulto — e, infinitamente mais importante, é racional — é ser capaz de considerar outros argumentos, e factos que não combinem bem com a nossa opinião, e dizer aquela coisa tão bonita e tão rara “hmm, tens razão, não tinha pensado nisso dessa forma, afinal estava errado”. Mas não podes igualar o simples facto de termos uma opinião a arrogância ou falta de maturidade.

          Já agora, não sei onde é que viste a crítica social (“infantil” ou não) nos posts dela; os que não são sobre sexualidade, em geral são sobre religião e ateísmo. E eu acho que ela argumenta de forma brilhante.

          • Sarita diz:

            Pedro, é natural que quando somos novos temos menos conhecimento sobre o que nos rodeia, nao há nada a fazer em contrário; é a natureza humana e as hormonas. Só quando ultrapassamos essa fase umbiguísta (perfeitamente justificada biologicamente) é que nos damos conta o quao imbecis e tolos fomos. Até aí ninguém amou como nós amámos, ninguém sabe, ninguém faz nada para mudar as coisas, só nós é que temos as respostas, só nós somos detentores da verdade, etc., etc.

            É só quando somos mais velhos e fomos expostos as mais experiencias, quando tivemos oportunidade de sairmos desse alheamento emocional que caracteriza a adolescencia, que somos capazes de sentir empatia. Nao empatia para ter dó dos outros, mas como uma descoberta que nós somos os outros e vice-versa, que temos em comum o facto de sermos seres humanos e sermos feitos da mesma matéria.

            Antes de nós sentirmos amor, já alguém o tinha sentido antes, antes de nós pensarmos em solucoes, já outros tinham chegado as mesmas conclusoes e tinham feito algo relativamente as mesmas para as tentar mudar; ou seja, nao é lá porque enquanto novas pessoas tenhamos de repente descoberto o mundo que outros nao o tenham feito antes de nós – os nossos pais, os nossos avós, pessoas distintas em outros países, em outras civilizacoes e no início dos tempos. Nada muda, a juventude é que, como nao tem história antes deles mesmo, presume que nao houve história, ponto final.

            E é em nao haver história que opinioes restritivas e de uma cor só surgem. Com a idade, com a subsequente experiencia de novas coisas e a consequente realizao do espaco que ocupamos no esquema geral das coisas em tempo e espaco, é que advém humildade e sabedoria. Percebemos rapidamente que opinioes únicas e fortes padecem de conhecimento. Como te disse, tudo passa a ser como um prisma colorido. Nao porque somos adultos finalmente, mas porque finalmente percebemos.

            Nao entendo como te espantas que eu percenta tanto da sinhoira – nao é a primeira vez que leio o blog dela, nem é a primeira vez que lendo algo dela sem saber que foi ela a autora me sinto desconfortável a ler um texto dela. Cheira-me sempre a certezas unilaterais e com pouca análise concreta. E é só a falar contigo que me apercebo aos poucos o porque de nao gostar da maneira como ela pensa, indepentendemente da forma como argumenta. Lamento se te irrita, se te reves no que digo sobre a senhoira. Nao o faco para ser desagrável, mas porque nao gosto de concordar com amigos só porque. Já sabes, para a próxima nao perguntas e eu nao digo 😉

            PS. e nao é bonito ignorares um post inteiro e pegares numa só frase. A mim nao me incomoda, é-me irrelevante, ninguém me conhece aqui e se calhar amanha nem me lembro do que escrevi, mas isso diz mais sobre ti e da maneira como ficas chateado quando outros o fazem a ti… 😐

            De qualquer forma, sem ressentimentos, a sério.
            Beijinhos,
            Sara

            • Sara, o resto do teu comentário era a tua definição de imaturidade, com a qual eu não concordo inteiramente (e nem vou pegar na questão de dizeres que “imaturidade é ter certezas” com toda a certeza do mundo…), e respondi a isso, até.

              Quanto a este teu comentário, desculpa mas discordo mesmo completamente dos teus conceitos de imaturidade e maturidade. Parece-me que achas que maturidade é achar que somos todos iguais, todos medíocres, todos apenas “peças menores da máquina”, e, claro, dizer mal de tudo e não gostar de nada. Eu rejeito total e completamente isso; posso não ser ingénuo (não tenho praticamente qualquer fé na humanidade), mas não acho que a apatia, a ausência de ideais e a auto-zombificação sejam a solução… ou sejam sinais de “maturidade”.

              A questão aqui é que eu não acho que o que tu dizes se aplica de alguma forma ao blog dela. Gostava, se não for muito trabalho, que me copiasses e pastasses alguma coisa do blog dela que a revele (pelo que lá está escrito, não pelo que isso “provavelmente diz sobre ela”) como “imatura”. Pode nem ser deste post que eu cito. É que me parece que formaste uma opinião detalhadíssima em relação a ela que eu, sinceramente, continuo a não ver de onde vem.

              • Sarita diz:

                Mas onde é que eu disse que quando crescemos devemos dizer mal de tudo? Ou que somos todos medíocres ou iguais? Eu só disse que quando conhecemos e vimos mais, é difícil ter opinioes radicais.

                Por ex., és uma crianca e só te dao arroz a vida inteira. A tua refeicao favorita é… surpresa, arroz! Nao porque arroz é a melhor das refeicoes que tenhas comido na vida, mas porque nunca tiveste termos de comparacao. A seguir dao-te massa. Ena, massa, os miúdos cool todos comem massa, o arroz passa a ser antiguado – aliás, arroz é para cotas, “toda a gente sabe isso” como todo o marketing e publicidade ah volta do assunto faz questao de afirmar.

                Entretanto cresces e provas couscous, batatas, salada. Provas vegetais, fruta, doces, salgados, vinho, sumos, refrigerantes. Gomas, frango, caracóis, pao. Hmmm, e agora?! Agora é difícil escolher, nao sabes qual é a melhor refeicao do mundo. E apercebes-te que para cada produto existe toda uma catrafada de marketing e publicidade a dizer-te que esse produto é o mais o cool, a melhor refeicao do mundo. E tu apercebeste que porra, sao todos bons, nao posso dizer que um é mau em deferimento do outro. Ou melhor ainda, só porque tu gostas mais de um, nao quer dizer que esse é o melhor em termos gerais, somente é o melhor para ti, mas nao necessariamente para a Mariazita, o Manelito ou a Jacinta.

                E o que aconteceu aqui Pedrinho? Cresceste, foste de ser limitado nas tuas escolhas e gostares de algo só porque nao conhecias outras coisas, e de gostares de outras coisas só porque outros te disseram que é cool, para conheceres imensas coisas e descobrires que te é difícil escolher, e que afinal, a verdade tem muitas facetas, a tua, a da Mariazinha, a do Manelito e da Jacinta. E que se o perú ganhar o prémio de melhor refeicao do mundo, sabes que nao é verdade absoluta, porque no teu caso em particular tu até achas que o perú sabe ao mesmo que o frango, ora toma la!

                Lamento se nao me consigo explicar melhor, para mim é tudo tao claro na minha cabecinha, mas se calhar a minha capacidade de argumentacao é fraca em comparacao a de outras pessoas (por ex., a da sinhoira Greta 🙂 ).

                Acho toda a maneira de pensar dela infantil, acho que está sempre zangada, a insistencia que tem em chocar, as opinioes fixas, o sarcasmo, tudo me faz lembrar um adolescente a tentar afirmar-se no mundo. Sim, rica filha, a menina tem opinioes e so what? Toda a gente tem as suas opinioes, em que é que merece um prémio por isso? Só porque descobriu a massa também? Ok, tudo bem, o resto do mundo já descobriu o resto para além da massa, nao me parece que seja necessário celebrarmos o facto.

                E neste artigo particularmente, tenta dar um sentido de que nao é daquelas pessoas que envelhecem, que é cool e down with da kids. Ora, só quem nao é cool e down with da kids é que tenta passar a imagem que é. Aiás, só quem ainda está preso a querer ser cool e down with da kids é que se importa em querer parecer ser down with da kids. Enfim ando feita pescadinha de rabo na boca, mas tu entendes 😉

                Bijus

                • E neste artigo particularmente, tenta dar um sentido de que nao é daquelas pessoas que envelhecem, que é cool e down with da kids.

                  Curioso, eu li um artigo em que a autora avisa do perigo de ficarmos demasiado presos à nostalgia e ao “dantes é que era, agora é tudo uma merda”, e apela a que tentemos olhar segunda vez para o que se faz agora. Não fala minimamente de como ela é isto ou aquilo.

                  Não achas que talvez estejas a transpôr outras coisas que te irritam (possivelmente com razão) para os artigos dela?

                  • Sarita diz:

                    Nao, nao acho, acho que expliquei porque é que nao concordo com os artigos dela e como tal, nao concordo de todo com o que sugeres. Aliás, a resposta a tua pergunta está nos meus comentários anterios.