Fantasias e realidades políticas

Fantasia: uma elevada percentagem de abstenção / voto em branco transmitirá, de forma clara e não ignorável, a mensagem de que o povo está absolutamente insatisfeito e revoltado com a política e os políticos actuais, e que é necessária uma mudança a sério. Por outras palavras, é a melhor forma de iniciar a mudança.

Realidade: abster-se ou votar em branco não é nada mais do que dizer “está tudo bem como está”.

Se acham que os políticos alguma vez irão ter “vergonha na cara” por abstenções / votos em branco (há realmente alguma diferença? sim, eu sei a teoria, mas há realmente alguma diferença?) na ordem dos 60, 70, 80, 90%, então tenho uma ponte para vos vender. É vermelha, fica no Tejo, e foi herança de família. Estou a precisar de dinheiro para pagar dívidas, comprar jogos, e comprar queijo derretido (não necessariamente por essa ordem), daí estar a vender algo que tem tanto valor sentimental para mim (além de ser importantíssima para quem vive na margem sul).

Não se demorem a falar comigo sobre a ponte; há muito mais gente que acredita nisto, pelo que tenho visto…

P.S. – faz-me lembrar uma fantasia parecida, e quase tão ingénua:

security 

P.P.S. – não me venham com desculpas de que “eles são todos iguais”. Mesmo que assim fosse, não há melhor forma de mostrar insatisfação do que votar em quem não está no poder.

P.P.P.S. – não vejam isto como um apelo incondicional ao voto. Eu aceito perfeitamente que não se vote por preguiça, ou por se achar que o resultado destas eleições não nos afecta em nada significativo. O que acho absurdo é que se trate o não-voto como um marcar de posição, coisa que é completamente ingénua, adolescente (no pior sentido), absurda e fantasista.

11 Comentários a “Fantasias e realidades políticas”

  1. Helder diz:

    O post até nem está muito mau, mas na minha opinião incorre num pequeno enorme erro. Uma elevada abstenção ou voto nulo é péssimo, um voto em branco é totalmente válido e é correcto porque pertence a alguém que exerce o seu direito/dever de votar mas afirma com esse gesto que não concorda/gosta/confia/apadrinha/(ponham aqui o que quiserem) com nenhum dos candidatos propostos pelos partidos políticos portugueses. É, para mim, uma afirmação muito forte e tinha um grande desejo que, pronto, vá lá, metade das pessoas que fazem parte da abstenção fossem votar e expressassem a sua incompatibilidade com todos estes políticos votando em branco. Eu Domingo vou votar, vou exercer o meu direito e o meu dever e vou dar a minha opinião que é votar em branco pois ninguém me dá garantias de que façam um bom trabalho. Gostaria de ver nas televisões de toda a Europa/Mundo um recorde de ida ás urnas e uma votação em numero histórico dar uma maioria absoluta ao voto em branco.

    Atenção voto em branco e não voto nulo…

    Voto em branco não é abstenção nem um voto nulo. É outro opinião que não está contemplada nos boletins de voto! É diferente.

    • Tal como disse, eu entendo a diferença teórica, mas há realmente alguma diferença em termos práticos? Achas que “eles” vão fazer algum tipo de distinção?

      “Ah, estes 30% de abstenção, são uns preguiçosos, estava um bom dia de praia, não importam… mas estes outros 30% de votos em branco… estão insatisfeitos com os políticos! Eles rejeitam-nos! Argh, descobriram a nossa kryptonite! I’m melting, I’m meltiiiiiing…”

      Ingenuidade. É como aqueles que, há tempos, ao votar no “maior português”, elegeram o pior (de longe) da lista, para “transmitir a mensagem de desapontamento com o sistema actual”. Aposto que os políticos não dormiram bem nessa noite, depois de tal estalada… 🙂

      • Helder diz:

        Não a diferença é que até a nossa Constituição não valida a votação se os votos nos partidos não forem superiores a uma certa percentagem.

        E como hoje já não vivemos no tempo desse outro senhor que referiu, o “estrondo” de ter uma votação válida, com recorde de participação, mas depois a percentagem de votos nos partidos ser inferior aos votos em branco, há isso se calhar já seria alguma coisa. O que é ingénuo, é votar em quem também não se concorda, seja lá pela razão que for, só para dizer que quem lá está não está a fazer um bom trabalho. Isso é que é desvirtuar o sentido do voto. E a distinção que me interessa não é a deles, é a do resto das pessoas poderem dar a sua opinião de descontentamento. Ingenuidade é eu ir dar votos ao PPM só porque não concordo com o PS (ou usem os partidos que quiserem). Quer dizer não concordo com eles mas votos neles para dar uma chapada aos outros. Isso sim é ingenuidade e desvirtuar o direito/dever de voto.

        Mas são opiniões, diferentes, mas é isso que torna o mundo tão belo

        • Pois, eu penso em resultados. Tu estás a ver apenas teoria.

          Esse “estrondo” só existe na cabeça de quem tem exactamente a mesma mentalidade do “crypto nerd” que acha que a encriptação de 4096 bits deterá os “vilões” que o raptaram. Ou seja, é ficção. É achar, ingenuamente, que os políticos julgam que o povo gosta deles, e que ficarão “chocados” por serem confrontados com a realidade contrária.

          Não há nem haverá “estrondo” nenhum causado por abstenções ou votos em branco. Mesmo com uma abstenção de 90%, quem ganhar as eleições fá-lo com uns 40-50% dos votos, não com 3-5%. Só conta quem vota.

          Os outros, se largassem um bocadinho a teoria e olhassem para os efeitos prováveis das suas acções, veriam que só estão a aprovar implicitamente a situação actual.

          Ah, e eu nunca sugeri votar em partidos fascizóides para “mostrar o desagrado com a situação actual”. Isso é como a tal história de votar no Salazar para “maior português”: a única coisa que um resultado desses transmitiria é que o povo é ainda mais ignorante e burro do que se pensa, e merece exactamente os governantes que se tem… ou piores ainda. Um Sócrates (sim, eu sei que não é ele que está em jogo nestas eleições), ou até mesmo um candidato do PSD, são bons demais para um país que queria um Salazar.

          • Helder diz:

            Certo. Temos todos direito a opiniões e se achas que a tua é que é real, tudo bem, também pouco me importa.
            Mas sobre realidade vou-te só referir uma coisa:

            – Estás a ver mal a questão da percentagem. É que votar em branco não conta para a abstenção. E calro que quem ganha, ganha com 40% ou 50% dos votos, mas 40% ou 50% de 10% de pessoas que estão inscritas para votar. E isso é que eu acho que não é permitido pela Constituição. Tem que haver um minimo de votantes nos partidos. E já agora abstenção é quem não se apresenta para votar, e aí concordo contigo que é um erro tremendo e até vou mais longe e digo que quem se abstém, depois não pode opinar sobre se a coisa está mal ou não, porque quando foi chamado a opinar sobre isso … não apareceu, por isso depois não se queixem. E quanto a 90% tenho dúvidas que fossem dadas como válidas as eleições, tenho que confirmar na constituição por isso, aqui e agora vou-me … abster 🙂 .

          • jocaferro diz:

            “O que acho absurdo é que se trate o não-voto como um marcar de posição, coisa que é completamente ingénua, adolescente (no pior sentido), absurda e fantasista.”

            Talvez porque quem vota em branco não se reveja em qualquer um dos partidos concorrentes. Ou talvez por não gostar dos olhos da candidata. Ou porque lhe apeteceu…
            Seja de que forma for, esse instrumento que é o voto em branco faz parte de qualquer estado democrático e é tão válido quanto um voto em qualquer partido. Logo, escuso de dizer que o voto em branco faz parte dos direitos adquiridos democraticamente. Negá-lo não passa de uma mera forma de intervenção no estádio democrático adquirido por qualquer outro cidadão ou seja = ditadura.

            Se eu não me rever em qualquer posição de qualquer partido ou movimento concorrentes, a sua teoria é que tenho forçosamente que ir lá e votar seja em quem for?
            Ou, colocado doutra forma, está-me a obrigar a votar em algo/alguém contra a minha vontade!?
            Claro que, se eu exercer a minha cidadania e o democrático direito adquirido, ao votar em branco porque não gosto de nenhum programa/partido/candidato, logo estou a marcar a minha posição, tenho que ter cuidado porque me pode aparecer alguém a chamar-me de “ingénuo, adolescente (no pior sentido), absurdo e fantasista”.
            Fiquei completamente siderado pelo seu espírito democrático!

  2. Não posso concordar quando diz:

    “[…] não me venham com desculpas de que “eles são todos iguais”. Mesmo que assim fosse, não há melhor forma de mostrar insatisfação do que votar em quem não está no poder.”

    Não obstante, não concordo por motivos puramente pessoais, sendo eles tão respeitáveis quanto os seus próprios motivos. Daí que eu deva desde já alertar para o facto de que, apesar de não concordar com a sua opinião, nada invalida que ela esteja correcta – pelo menos numa perspectiva concreta (a sua). A minha opinião vale o que vale, que é como quem diz, não vale nada – mas é de respeitar como qualquer outra.

    Não concordo, primeiro, porque a insatisfação é uma objecto muito difícil de agarrar. Donde: Porque estamos insafisteitos? Essa é a primeira questão. A segunda questão é: Como superar essa insatisfação?

    Ora, garantido é que a insatisfação não é superada pelo voto puro e simples, sem motivo razoável, na oposição. A insatisfação só é superada quando verificadas situações que tragam, lá está – satisfação (como diria La Palice) . Isto é, a satisfação advém de condições que superam uma situação de transe. O voto na oposição, só por si, não supera a situação de transe em que se vive. Contudo, e isto é amplamente sabido: não se pode governar bem para todos. Era bom que assim fosse. (Era?)

    Portanto, se temos como premissa que os outros não são solução, votar neles não trás qualquer satisfação, bem pelo contrário, traz insatisfação redobrada, e aí sou obrigado a concordar com os abstencionistas, por um lado, e com os que votam em branco, por outro. A sua posição também não traz satisfação (contudo não vão ao ponto do masoquismo), é, ainda assim, um voto de protesto muito mais inteligente do que votar na oposição, ou como tu dizes: “em quem não está no poder.”

    Segundo, não concordo por motivos materiais. Essa concepção dos motivos internos que direccionam o voto é quase infantil. É quase o gostar mais do pai porque a mãe bate e o pai não. Mas no fundo, estamos a esquecer que a mãe é que, se calhar, faz a papinha, lava a roupinha, bla bla bla…

    Aquilo que direcciona o voto, quero acreditar, não é essa coisa tão perversa. Pelo contrário, o que deve direccionar o voto são as políticas, as posições, isto é: perante uma situação de crise, como é que eu acho que ela pode ser superada? E aí devo olhar para todos os quadrante políticos e verificar qual das posições se enquadra com aquela que seria a minha própria opção (sem embargo de podermos considerar que os programas políticos, em geral, podem servir melhor para limpar o rabinho).

    Isto de governar um país é o mesmo que governar uma casa. Perante a situação do dinheiro não chegar ao final do mês, há que encontrar várias soluções orçamentais: umas de médio e longo prazo (estruturais); outras de curto prazo (de sustentabilidade) com o intuito de suportar os gastos daquelas medidas de médio e longo prazo cujo efeito só mais adiante se verificará. Ora, a única diferença é que em nossa casa ninguém vota para o governo.

    Portanto, se eu olho o país como a minha casa e verifico que ou o partido do governo, ou os partidos da oposição têm soluções que eu próprio não tomaria, faz sentido votar em algum deles só para castigar o partido do governo, ou vice-versa? Isso é absurdo na concepção mais literal do termo.

    Daí que eu, pessoalmente, nunca poderia concordar com a afirmação que fez, se bem que ela faz realmente muito jeito a alguns quadrantes abstractamente considerados, quero dizer, tudo depende do tempo em que a sua afirmação tenha lugar, que é como quem diz – tudo depende de verificar se daqui a 4 anos ela é exactamente a mesma.

    Continuação de bom trabalho com o seu blog.

  3. Porque é que ninguém lê os meus posts com alguma atenção? 🙁

    Eu nunca disse que não é válido votar em branco, ou que é anti-democrático. Não falei da teoria, falei da prática, dos efeitos: votar em branco tem exactamente o mesmo efeito que não votar, e o efeito, a mensagem transmitida, é “está tudo bem assim”. Quem não vê tal coisa é porque se recusa a ver, porque vive num mundo de fantasia idealista que não tem nada a ver com a realidade. Um mundo em que muitos votos em branco “farão os políticos ter vergonha na cara”, e “farão os partidos apresentar melhores candidatos e políticas”. Isso é um mundo de fantasia tão grande como o de quem acha que foi levado por extraterrestres para a nave deles e tem neste momento dentro do seu corpo uma sonda anal, feita de um material completamente indetectável pela medicina.

    • Caro Pedro, vamos lá ver, eu li com atenção o seu post. Aliás, se eu for ler no seu blog as “Regras para comentários”, você próprio condena esse tipo de comentário subliminar… Por outro lado, eu não concordei, tão-somente, com a parte que citei, veja lá no comentário como eu estou a dizer certo. Tudo o resto discorreu daí.

      Lendo com atenção o meu comentário, que certamente o fez, verificava que eu lhe disse de caras: Essa é a sua opinião.

      Só porque só lhe apetece ver a coisa exclusivamente pelo lado prático não significa que esteja a ver da melhor forma. Aliás, da forma como o põe, eu até vejo uma outra coisa – e essa não é assim tão bonita de partilhar aqui.

      As suas teorias sobre a “vergonha na cara” são “suas”. Certamente deve pensar no seu caso – se teria, ou não, “vergonha na cara” – e no caso de mais ninguém. Porque acha que essas opiniões devam ser válidas para os outros? Já esteve na política? Saiu com um sabor amargo? Os votos em branco não o fizeram tem vergonha na cara? É por experiência própria que fala?

      Quer falar de prática? Vamos falar de prática: O que é que o Pedro sabe sobre política? Em que é que esteve envolvido? Em que é que precisou dos votos dos portugueses para fazer alguma coisa? Em que é que se baseia para saber se os políticos têm ou não vergonha na cara? É na sua visão pragmática, pessoal e narcisista do mundo? Teve conversas de café em que eles lhe confessaram que não tinham vergonha na cara?

      Quanto a mim as suas afirmações a esse respeito não passam de insinuações – até agora não provou nada. Até agora, quanto a mim, ainda só apelou ao voto na oposição. O que até pode ser uma coisa boa (quem disse que não?). E isso sim é a sua forma de olhar a coisa pelo lado prático 😉 (de facto, é prático…).

      Donde: O que é que o leva a pensar que a “sua visão” que diz ser “prática” é, só por si, válida para os outros e não apenas para si?

      Repito o que disse: essa visão é infantil e demonstrei-o porquê. Jamais concordarei com ela. E o que vale a minha opinião? – nada.

      E quanto à questão prática do voto em branco, e uma vez que gosta muito de fantasia, aconselho-o a ler o Ensaio sobre a Lucidez do Saramago. Isso sim é fantasia e, se verificar, os efeitos práticos que você tanto gosta estão lá… E o efeito prático pretendido pelo autor, também estava lá…

      Veja lá como a prática também é fantasiosa…

  4. Helder diz:

    Olá. Agora venho só dizer aqui uma coisita pouca:

    Os votos em branco (não são nulos, BRANCOS!) passaram nesta votação de 2,[qualquer coisa] para 4,[qualquer coisa], em números redondos mais 100%. Sabe o que isso significou? Eu vou-lhe mostrar, significou mais de 10 minutos como banner de fundo da emissão da Sic Noticias a referir o facto e pasmem-se! noticia especifica sobre isso no site do Expresso!

    Claro, mas isto não significa nada… é fantasia…

    Imaginem passar para valores do nivél de percentagem da abstenção como eu referi anteriormente… era fantasia e da grossa!!!!!

    P.S.: Não sei o que se passou com o post do sr. jocaferro mas agradeço-lhe por ter ido confirmar a tal questão da percentagem que eu tinha referido. Afinal bastam ter por volta de 43% de votos em branco para as eleições não serem validadas… mas amsi uma vez isto é fantasia minha, está na lei, na Constituição, coisas irreais claro…

    Boa semana para si. E que a sua realidade continue de vento em popa.

    • Exacto.

      4% de votos em branco, o que, na prática – e só a invoco porque, pelos visto, alguém gosta muito dela -, é mais do que suficiente para atribuir ou retirar um deputado a qualquer um dos partidos.

      Enfim, mas no fundo ainda há quem diga que isto tudo de votar em branco não passa de uma fantasia…