“Onde há fumo há fogo”? Please.

Livraram-se do ateísmo (pub descarada), agora levam com política. 🙂 Ou não… porque a questão aqui nem é tanto a política, mas a estupidez de certas mentalidades.

Vi ontem no Google Buzz (que terá muito mais piada quando as pessoas — incluindo eu — começarem a usar aquilo sem ser como uma cópia do Twitter) este artigo no Bitaites, sobre o Sócrates e as acusações de “censura” e “ataques à liberdade da imprensa” que aparentemente têm feito bastante tinta correr.

Eu não sei. É que realmente não tenho estado atento às notícias sobre Portugal (ando numa altura em que as minhas únicas fontes de notícias são esta (versão internacional) e esta), e acredito que não faz muito sentido mandar postas de pescada sem estar ao corrente do assunto. Ou seja, não vou agir como um português típico. 😛

Vou, no entanto, comentar duas parvoíces que vi em comentários a esse post.

Uma delas era isto: “onde há fumo há fogo“. Ou seja, se há as acusações que há à volta do Sócrates, ele tem de ser culpado de alguma coisa.

Eu pergunto: quem é que é tão idiota que acredite em algo assim?

A questão aqui não é a culpa ou inocência do primeiro-ministro; é, sim, a ideia espatafúrdia de que acusações são prova de algo. Ou seja, assume-se quem faz acusações é 100% honesto e fiável, e, portanto, basta acusar-se alguém de algo para esse alguém ser culpado de algo — seja do que foi acusado, seja de algo parecido. E quem não tenha uma mas muitas acusações é claramente um criminoso, um mentiroso, etc..

Sem estar aqui a comparar uma coisa a outra, isto também era assim nos tempos da Inquisição: uma acusação constituia prova suficiente. Se uma mulher fosse acusada de ser uma bruxa, mesmo que depois os acusadores retirassem a acusação, ela já não se safava de prisão, tortura e morte… a não ser que acusasse outros como “cúmplices”, caso esse em que podia ter a pena reduzida. Não era preciso arranjar evidências ou provas; a acusação bastava.

Bem, caro leitor, caso alguma vez tenhas usado o argumento de “se há fumo, há fogo”, eu acuso-te de seres um espião Soviético. Logo, és obviamente um espião, já que a acusação não existiria se não houvesse um fundo de verdade. (O quê, já não existe União Soviética? Isso é o que eles querem que pensemos! 🙂 )

O outro argumento, não menos idiota, é este: que não importa se o Sócrates é inocente ou culpado porque, com tantas acusações, tem de passar todo o tempo a defender-se delas, e já não pode governar. Alguém percebe imediatamente o ridículo da coisa, ou é preciso dizê-lo? É preciso explicar que, se é assim, basta inventar umas dezenas de acusações, e com isso derruba-se quem quer que seja? Desde quando houve algum primeiro-ministro, ou qualquer tipo de governante, que não estivesse rodeado de acusações de inúmeros tipos? Se aceitamos a ideia de que não importa se as acusações são falsas ou não, porque a sua mera existência “algema” um governante e torna necessária a sua demissão … bem-vindos à nova república das bananas, onde cada governo dura meses.

A forma de lidar com as acusações é determinar a veracidade delas, e fazer alguma coisa — seja punir o acusado (se este for efectivamente culpado), seja punir os acusadores (por difamação, por exemplo — por fazerem acusações que sabem ser falsas, em proveito próprio). Porque acusações falsas devem ter consequências para quem as faz.

Nota: isto não é uma defesa do Sócrates; como disse, não estou actualmente informado sobre o que se tem passado nesta história toda.

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