Arquivo da Categoria ‘Ateísmo’

Ateísmo-PT – novo blog de ateísmo

Quinta-feira, 11 de Fevereiro, 2010

Conforme mencionado no post anterior, aqui está ele: Ateísmo-PT.

Exportei os posts relacionados com o assunto para lá, sem os comentários (já que quem comentou aqui não autorizou explicitamente que os comentários fossem duplicados noutro blog); os posts continuam também aqui, mas serão em breve fechados a novos comentários. O novo blog ainda está com o theme default, mas eu amanhã trato disso.

Estão, portanto, a partir de agora livres (yay!) de posts sobre ateísmo ou religião aqui no Ostras, e por conseguinte no PlanetGeek (posts sobre discussões, lógica, racionalidade e afins poderão ainda aparecer por aqui, ocasionalmente).

Ideia: blog de ateísmo em português

Quinta-feira, 11 de Fevereiro, 2010

Já escrevi aqui alguma coisa sobre ateísmo e religião, provocando as respostas do costume (“se não és um teólogo não podes falar do assunto”, “não percebes nada disto”, Pascal’s Wager, etc., bem como, talvez mais ainda, “se falas tanto nisto é porque no fundo acreditas” ou “és tão fanático como eles”, que, na melhor das hipóteses, são um “isto não me interessa, logo não é legítimo falares do assunto”… e se isso é a melhor das hipóteses, imaginem as piores). Mas ando com alguma vontade de escrever mais sobre o assunto, o que realmente se poderia tornar chato para quem 1) queira ler o meu blog pessoal mas não tenha interesse no assunto, e 2) leia o blog pelo PlanetGeek; acho que um blog maioritariamente sobre ateísmo (ou sobre religião, ou sobre política, ou…) não faz realmente muito sentido estar agregado lá (se bem que longe de mim reclamar se aparecer lá algum assim).

Assim sendo, ando há tempos a pensar em criar um novo blog, começando por copiar para lá os posts que fiz aqui sobre o tema. Ainda não decidi completamente se o vou fazer, mas a coisa está encaminhada nesse sentido, já que, caso não o faça, vou sempre estar a “auto-censurar-me” ao escrever aqui (ex. “não escrever vários posts seguidos sobre isto”, “ando a escrever demais sobre o assunto”, “não quero que o blog seja isso”, etc.)

A desvantagem óbvia é que antecipo muito menos leitores, já que aqui sempre “atinjo” amigos e o PlanetGeek, enquanto o novo blog vai ser, imagino eu, maioritariamente ignorado pelos primeiros (não tenho amigos que se interessem pelo assunto) e não vai estar agregado no segundo. Mas mesmo assim parece-me ser a coisa certa a fazer; pelo menos escreverei o que quiser sobre o tema, sem “papas na língua”, e na quantidade que quiser.

Não há muita coisa em Portugal sobre este tema. Googlando, descobri uma Associação Ateísta Portuguesa e um Portal Ateu; penso incluí-los (sobretudo o segundo, que parece ter actualizações regulares) na minha leitura diária, mas acho que o foco do que planeio fazer — é só olharem para os posts anteriores — é um bocado diferente, e não vai propriamente haver “competição” entre ambos.

Vai ter leitores? Não sei. Imagino que até apareçam mais brasileiros do que portugueses; nós cá somos muito apáticos em relação a estes temas, sendo essencialmente um país de “Católicos não praticantes”: acreditamos que deve haver algo “superior”, dizemos “meu deus!” como interjeição, e vamos à missa pelo menos em baptizados, casamentos e funerais; ou seja, não somos ateus, de forma alguma, mas também não temos as nossas vidas em geral afectadas pela religião (afinal, os milhões de africanos a morrer por causa da Sida que prolifera graças às monstruosas mentiras do Vaticano “estão lá muito longe”)… excepto, claro, em questões como o aborto e o casamento de homossexuais, em que aí se vê a força da religião, mesmo na sua versão “não-praticante”, e a sua capacidade de impedir a igualdade de direitos, travar o progresso da humanidade, e aumentar o sofrimento.

Bem, quando (e se, se bem que é o mais provável) lançar o site, menciono-o aqui, e não me voltam a ouvir falar disto se se limitarem a ler este blog. 🙂

Ateus “zangados”, “intolerantes” e “extremistas”

Sexta-feira, 23 de Outubro, 2009

Em resposta ao meu post recente sobre as afirmações de Saramago em relação à Bíblia e à religião, alguns dos comentários foram do género habitual: em vez de discutir factos, acusam-me a mim, e aos ateus em geral, de estarmos “zangados”, sermos “intolerantes”, “extremistas”, “tão fanáticos como os piores dos crentes”, e afins. Nem todos esses comentários estão no post, alguns foram por IM, e um deles até veio de uma pessoa cuja inteligência e cultura eu admiro.

Porquê? Porque, infelizmente, a balança tende tanto para um dos lados, e é assim há tanto tempo, que qualquer movimento no sentido contrário, por muito pequeno que seja, é chocante e parece “extremista”. Mesmo, muitas vezes, para quem também não tem qualquer tipo de crença religiosa (o famoso “eu não sou crente, mas…”).

Para mostrar como essas acusações (além de serem cobardes – porque é que não dizem onde e porque é que os ateus estão errados, em vez de se focarem no tom de voz ou de nos tentarem traçar um perfil psicológico?) são absurdas, sem qualquer justiça, e sem nenhuma relação com a realidade, deixo-vos com dois cartoons, já antigos, e que são variantes do mesmo tema:

violence-against-atheists

idt20050418bigotry

Não preciso de explicar, pois não?

Saramago e a religião

Segunda-feira, 19 de Outubro, 2009

Tenho visto vários comentários, tanto no artigo do Público como em vários blogs portugueses, a criticar José Saramago por ter dito… bem, vejam o link anterior.

Comentários esses que chamam “banais” às afirmações de Saramago, insinuam que é preciso estudar teologia antes de se poder criticar a religião, dizem o chorrilho de disparates habitual sobre os ateus e o ateísmo, e… bem, já se sabe como é. O mais triste são os comentários de quem não tem qualquer crença religiosa, mas mesmo assim se sente chocado e ofendido com isto, porque caiu na lavagem cerebral de que a religião merece “paninhos quentes” e um respeito especial e inquestionável.

Como a paciência para estar sempre a corrigir os mesmos erros já não é muita, e me sinto enojado só por ler, quanto mais citar, certas coisas que já li hoje, prefiro comentar isto na forma de pequenos parágrafos, mais ou menos independentes uns dos outros. Nem todos se aplicam a todas as críticas, obviamente.

  • Não há qualquer tipo de evidências, provas, etc. da existência de qualquer tipo de deus. Nada. Nicles. Zero. Logo, a teologia é uma não-disciplina, tem tanto mérito e importância como a painatal-logia ou a gambozinologia. E, sim, caros teólogos, vocês desperdiçaram a totalidade das vossas vidas. Deal with it (se bem que sei que nunca o farão, é muito mais fácil manter uma ilusão confortável do que quebrá-la).
  • Chamar “banal” à afirmação de que Deus não existe é o mesmo que chamar “pouco sofisticado” a quem diz que 2+2=4, porque quem está num “nível espiritual mais elevado” tem “fé” de que 2+2=5, ou isso é verdade num plano espiritual tão ou mais importante do que o físico, ou para ele os números têm um significado “mais profundo”, ou outras baboseiras new-age sem significado. Dizer as coisas como elas são de forma simples e directa (como “o rei vai nu”, bem aplicável a este caso) não é “banal” ou “pouco sofisticado”.
  • Crenças religiosas não merecem mais respeito e consideração do que qualquer outro tipo de crenças (ex. “a Terra é redonda” ou “há ovnis a mutilar gado nos EUA”) apenas por serem religiosas. A única coisa que importa é: é verdade?
  • Hitler era católico! Párem lá de o incluir nessa absurda lista de “monstros ateus”. O facto de já terem sido corrigidos relativamente a isso centenas de vezes e mesmo assim o continuarem a fazer demonstra bem quanta importância dão a factos e à realidade… e quão honestos são.
  • Quanto aos outros, há muito de religião em sistemas como o Estalinismo: culto ao líder, rituais, “rezas”, livros “sagrados” (ex. o livro vermelho de Mao), supressão de ideias contrárias, controlo de “pureza” ideológica, irracionalidade, dogma acima de factos, e afins. Se perseguiam as religiões estabelecidas, era apenas porque não queriam competição. Religião e “Deus” não são a mesma coisa, e é possível haver uma sem crença no mesmo. Nenhum povo alguma vez sofreu por excesso de racionalidade e cepticismo.
  • De qualquer forma, quando dizem que “monstros ateus fizeram isto e isto”, querem dizer que o fizeram por não terem medo de um castigo divino. Já pensaram na hedionda distorção de moralidade que isso é? E estão, portanto, a dizer que vocês iriam para a rua roubar, violar e matar se neste momento perdessem a vossa fé, porque não vêem nenhuma razão para não fazer tais coisas, excepto o medo do inferno? O que é que isto diz sobre vocês?
  • Houve quem falasse da “necessidade do Homem para com a espiritualidade”. Isso tem outro nome quando se é mais jovem: “amigo imaginário”. Uma coisa não é real só porque se quer muito. Mesmo que a vida fosse cinzenta e sem sentido sem a existência de um deus e de vida depois da morte (não o é), isso não tornaria mais provável a sua existência.
  • Quem diz que “as críticas de Saramago à Bíblia só se aplicam relação ao Antigo Testamento, porque a mensagem do Novo é paz e amor” está a precisar de realmente ler a Bíblia (além de que Jesus supostamente disse que não vinha para mudar uma letra da lei antiga). Mas, tipicamente, os ateus conhecem-na melhor do que quem acredita que existe um livro escrito pelo criador do universo, do qual depende a sua salvação, mas mesmo assim nunca arranjou tempo para o ler…
  • Não me venham dizer que “mais vale acreditar, por via das dúvidas“, please. Isso é completamente idiota (pista: há mais do que uma religião no mundo…)

“You’re too stupid for me to argue with you.”

Terça-feira, 30 de Junho, 2009

“If it’s futile, then that’s unfortunate, but I don’t think it’s a reason for not even trying. I think it would be… defeatist and rather cowardly, and rather actually… well, almost condescending, almost contemptuous to say… “you’re too stupid for me to argue with you.” I would never wish to say that.”

— Richard Dawkins

Irlanda, Igreja Católica… “ah, pois, mas o ateísmo é que é o verdadeiro problema”

Segunda-feira, 25 de Maio, 2009

Acho que aqui não há muito a acrescentar a este post do Daylight Atheism, Catholicism’s Hollow Claims of Moral Authority.

O início do post:

The outgoing Archbishop of Westminster, Cormac Murphy-O’Connor, had some choice words for atheists at the ceremony this week to install his successor:

“What is most crucial is the prayer that we express every day in the Our Father, when we say ‘deliver us from evil’. The evil we ask to be delivered from is not essentially the evil of sin, though that is clear, but in the mind of Jesus it is more importantly a loss of faith. For Jesus, the inability to believe in God and to live by faith is the greatest of evils.

…You see the things that result from this are an affront to human dignity, destruction of trust between peoples, the rule of egoism and the loss of peace. One can never have true justice, true peace, if God becomes meaningless to people.”

Like others who came before him, this cardinal views atheism as “the greatest of evils”, literally the worst act a human being can possibly commit. Too bad for the cardinal that, at the time he gave this speech, an enormous counterexample was staring him in the face:

Tens of thousands of Irish children were sexually, physically and emotionally abused by nuns, priests and others over 60 years in a network of church-run residential schools meant to care for the poor, the vulnerable and the unwanted, according to a report released in Dublin on Wednesday.

Tens of thousands of children, suffering horrific abuse, degradation, and brutal assault both physical and sexual, over a period of decades. The sheer scope of the problem makes it impossible to explain away as the result of a few bad apples; cruelty this widespread and this institutionalized could only come about as the result of evil and corruption deeply entrenched in the hierarchy of church power.

Não acho que dê para acrescentar muito mais a isso.

E antes que me digam que isto não é representativo da Igreja Católica, eu lembro-vos do que a mesma fez enquanto tinha poder para tal: inquisição, tortura de “hereges”, queima de “bruxas”, censura de todos os livros por default (isto é, havia uma lista de livros permitidos, e não de livros censurados), cruzadas, e afins. E isso não parou por a Igreja ter pensado “espera aí, isto não está certo, é uma crueldade monstruosa, vamos parar e realmente tentar fazer algum bem ao mundo”. Não, parou quando deixaram de ter poder para isso. E acho que nunca devemos deixar de mencionar esse facto. Tal como os judeus dizem em relação ao Holocausto, “nunca mais.”

Abuso de crianças? “Trivialidades.” Tudo é justificável para um culto de morte que acredita que a vida terrena não tem qualquer importância, e que a única coisa que importa é salvar almas.

Discussão, debate, e afins

Quarta-feira, 18 de Fevereiro, 2009

Como já mencionei aqui recentemente, eu acho piada a discutir (no sentido original da palavra, a troca de ideias, não a de insultos) ou debater assuntos. Gosto, acho divertido, faz-me ter “paixão”, garra, etc., e sem alguma vez entrar em ataques pessoais (pelo menos acredito nisso – se bem que há quem ache que um simples “estás errado, porque…” é um ataque pessoal. Enfim…). Raramente tenho quem me dê luta (excepto neste blog e noutro), e é ainda mais raro encontrar alguém que se interesse suficientemente pelos mesmos assuntos do que eu de forma a achar, tal como eu, piada à coisa.

Mas há uma coisa que me frustra imenso em geral, e algo que me faz participar em discussões muito menos do que gostaria: é que muita gente (e aqui refiro-me a quem à partida já quer a discussão, não estou a falar de quem não acha pura e simplesmente piada a isto; it’s their right) usa uma “arma” que no fundo não é uma arma, é uma declaração de incompetência para discussões racionais, mas a pessoa fá-lo com um orgulho que pura e simplesmente me ultrapassa. É uma pessoa render-se… completa e inabalavelmente convicta de que ganhou a guerra.

Do que é que eu estou a falar? De quando a pessoa usa aquilo a que chamo o “argumento da criança de 6 anos”: variantes de:

  • “porque sim”
  • “isto é verdade para mim”
  • “isso é apenas a tua verdade”
  • “sinto que isto é assim, e isso chega-me”
  • “é uma questão de fé / crença; não é suposto ser racional / ter de explicar”
  • “tenho o direito à minha opinião”
  • “quem és tu para afirmares isso com tanta certeza”

E assim por diante.

Foi, no entanto, ao ler hoje este post que me apercebi de que esse tipo de argumentos são válidos para certo tipo de discussões – as discussões de assuntos subjectivos. Arte, música, sentimentos, e afins; aí não há uma única realidade, uma única verdade; uma pessoa pode dizer que uma música ou um poema são talvez tecnicamente melhores do que outros, mas não que são melhores, ponto – porque a arte é algo subjectivo, é algo que depende muito do observador. O mesmo em relação a sentimentos; em geral, não escolhemos gostar de uma pessoa porque pesámos os prós e os contras disso, mas apenas porque acontece (se bem que, tal como a autora do post, acho que um pouco de racionalidade nos relacionamentos seria algo óptimo, para nos impedir de cometer os mesmos erros repetidamente, ou de continuarmos a acreditar que pessoa X gosta de nós quando é óbvio que isso (já) não acontece). Não digo que uma pessoa não possa discutir arte, música ou sentimentos, mas esses assuntos realmente são subjectivos, e a discussão deve ser uma troca de experiências e de emoções provocadas pelas mesmas, não uma forma de chegar à “verdade” sobre o assunto.

Mas isso é para coisas subjectivas. Discutir a realidade dessa mesma forma, desculpem dizer, é absurdo e irracional. É ter uma perspectiva de místico “new age”, que acredita que a realidade é fluida, subjectiva e criada por nós próprios e pelas nossas crenças. Ou de homem das cavernas, que não entende as razões para nada e acredita que tudo é completamente imprevisível e incompreensível, que vê explicações mágicas para tudo, e que acredita poder mudar a realidade se agradar aos “deuses” ou “espíritos”. Ao ver-se a realidade como subjectiva, ao acreditar que partes dela o são, acaba-se por negar o próprio conceito de “realidade”. É como tapar os olhos com as mãos e acreditar que o mundo deixa de existir quando o fazemos, que podemos fugir às consequências das coisas se não pensarmos nelas, que há “leis da atracção” que transformam crença em realidade… em resumo, que a tua realidade é diferente da minha, mesmo relativamente a coisas como as leis da natureza.

É, depois de eu dar argumentos para o Deus da Bíblia Cristã ser um monstro, dizer “o meu Deus não é assim, é um Deus de amor.” (Porquê? Como é que sabes? “ah, eu sinto-o, e isso basta para mim.”) É, depois de ser confrontado com estatísticas que mostram que a astrologia não funciona, afirmar que “para mim funciona e pronto.” É dizer “eu tenho direito à minha opinião” quando o assunto é se a Terra é ou não redonda, ou qual a idade da mesma, ou se o aquecimento global é real.

Obviamente, não dá para discutir racionalmente com pessoas assim. Curiosamente, elas acham que isso as faz “ganhar”, e sentem-se orgulhosas por isso.

É como jogar xadrez com alguém que não aceita que o cheque mate o faz perder, e se mantém fiel a essa “crença” não importa quantos livros de xadrez eu lhe mostre, e continua a insistir que ganhou o jogo (porque, para ele, as regras são outras, nem que tenham sido acabadas de inventar por ele, e isso constitui a “realidade dele”). Assumindo que gostas de xadrez, jogavas com alguém assim? Eu não.

Ainda outro caso, claro, é quando as pessoas acham que há assuntos proibidos, que são absolutamente tabu, e nos quais discordar delas ou dizer-lhes que estão erradas (e porquê) é uma ofensa pessoal. Em geral, quanto mais irracional é a crença em questão, mais certas pessoas se ofendem – seja a sua crença em Deus, ou na astrologia, ou que aquele tipo que tem imensas one night stands “a ama”. Ninguém se ofende se tem bases racionais para defender a sua crença. E por isso, já evito discutir certos assuntos com pessoas que não se incluam em 2 grupos: completos estranhos, e amigos em quem tenho total confiança. O pior caso são os intermédios: colegas de trabalho, amigos de amigos, visitantes ao blog que eu já conheça de outras andanças, etc.. Aí evito um pouco assuntos sensíveis – talvez mais do que devia, mas enfim.

Daí eu ter tão poucas oportunidades para discussões racionais. E a minha vida é mais pobre por isso, porque é algo que me fascina, estimula e diverte.

Greta Christina e o “calem-se” ao ateísmo

Terça-feira, 17 de Fevereiro, 2009

Adorava ter metade da capacidade de síntese e de exposição desta mulher. O último post dela, Atheism and the "Shut Up, That’s Why" Arguments, expõe brilhantemente o erro dos argumentos de “calem-se com isso” feitos tão habitualmente aos activistas ateus – muitas vezes por pessoas que não têm elas próprias qualquer tipo de crença, mas que mesmo assim acham que é “intolerante” criticar a religião e as crenças em geral (como se alguma coisa fosse intrinsecamente acima de crítica), que “os ateus são tão fanáticos e fundamentalistas como os alvos das suas críticas”, que “há coisas importantes e estão-se a preocupar com isso?”, e argumentos do género.

Eu próprio já escrevi sobre porque é que me importo com esta questão e sobre como é estúpido menosprezar uma preocupação só porque não a partilhamos (muitas vezes porque nunca pensámos no assunto… ou porque “isso acontece tudo lááá muito longe e não me afecta pessoalmente”), mas admito sem reservas, e sem falsas modéstias, que o que ela escreve sobre o mesmo assunto é bem mais interessante. 🙂

Religião: porque é que eu me importo?

Quinta-feira, 5 de Fevereiro, 2009

Sara (aqui):

Aqui existe agora uma campanha com slogans nos autocarros que diz “There’s probably no god. Now stop worrying and enjoy your life”.

Se bem que eu concorde com o slogan, fiquei sem perceber muito bem porque é que alguém se interessa com isso. Gastar dinheiro em andar a divulgar isso?

Aqui entramos noutra guerra: é que a religião oprime. Tens o que os muçulmanos fazem às mulheres, tens a mutilação genital forçada das mesmas, tens crianças a ser educadas sobre como o universo tem 6000 anos e as espécies foram criadas tal como existem hoje (anulando completamente a hipótese de uma carreira produtiva na medicina ou biologia), tens a criminalização do aborto, tens o “sexo = porco” com que te tenho massacrado tanto, tens todas as sociedades do mundo que consideram as mulheres como seres inferiores, tens a oposição das igrejas Cristãs ao uso de anestesia no parto (cuja dor era o suposto castigo de Deus à Eva e descendentes), a oposição das mesmas ao fim da escravatura (que era justificável biblicamente), tens a proibição por razões meramente supersticiosas de uma linha de pesquisa na medicina que pode salvar inúmeras vidas e curar imensas doenças actualmente incuráveis, tens as mulheres apedrejadas porque um homem olhou para elas no Irão, Iraque e Afeganistão, tens as clínicas de aborto nos EUA a ser atacadas por terroristas que nunca são devidamente condenados, tens todo o maluco que mata uma ou mais pessoas porque acredita piamente que "Deus assim quer", tens a censura – mesmo por não-muçulmanos – dos cartoons de Maomé, quando o que devia ter sido criticado era o atentado à liberdade de expressão por quem ameaçou os artistas, tens as pessoas traumatizadas na infância pelas imagens ultra-"realistas" do Inferno com que foram educadas (esse anúncio, aliás, é parcialmente uma resposta a outro que tinha o endereço de um site que citava a Bíblia para dizer que os não crentes iam para o Inferno), tens todo o anti-intelectualismo e suspeita da educação superior, tens a posição privilegiada que a religião ainda tem no discurso público (porque é que achas que este anúncio está a ser tão polémico? Porque nunca se tinha feito um parecido, e tal seria impensável), tens o facto de as igrejas fazerem milhões e estarem isentas de impostos, tens o facto de a religião matar a curiosidade humana por convencer as pessoas de que já têm todas as respostas, tens o facto de ela nos dizer para não fazermos nada em relação ao sofrimento das nossas vidas porque elas não são “the real thing”… e podia continuar…

… há muitas, muitas razões para combater a religião, tal como se combate a fome, as doenças, o analfabetismo, a poluição, o racismo, e outros males da humanidade. Claro que não te vou condenar a ti por não fazeres disso uma causa, assim como espero que não me condenem por não dedicar a minha vida a reduzir a fome no mundo; mas nunca diria que não compreendo quem o tenta fazer, nem os acusaria de estarem a gastar dinheiro e esforço inutilmente. Tornar o mundo melhor é, afinal, uma causa nobre. Assim como o é a educação, ou o simples facto de fazer as pessoas pensar em algo que sempre aceitaram sem o fazer, o que é, aliás, o objectivo principal do anúncio.

Considero, tal como o grande PZ Myers, que a forma de combater a religião é igual à forma de combater o analfabetismo: educação. E tem de se começar por algum lado.

Ateus, crentes, agnósticos, gnósticos e “apateus”

Quinta-feira, 5 de Fevereiro, 2009

A Sara, simpaticamente, disse num comentário:

Eu não sou religiosa, sou agnóstica, não porque jogo pelo seguro, mas porque não me importa de uma maneira ou outra. Não dou importância a qualquer deus ou religião para perder tempo a achar se existe ou não, simplesmente passa-me ao lado. Se existir, parabéns sr. deus/deusa/deuses, se não existir é-me irrelevante.

O que vou escrever agora não é a discordar da Sara, de forma alguma; é só uma dissertação sobre as várias definições, já que acho que há muita gente que as confunde, e/ou não as conhece todas. Sara, isto não é especificamente para ti, OK? 🙂

Então é assim: há muita gente que vê as coisas como Ateu —- Agnóstico —- Crente, equivalendo esses nomes a diferentes “níveis” de crença num ou mais deuses. Mas isso é uma simplificação exagerada, um bocado como o “Esquerda —- Direita” em política. Tal como neste último exemplo, o melhor é pensar em duas medidas diferentes, que poderiam ser demonstradas num gráfico em duas dimensões:

  “Não dá para saber” “Dá para saber”
“Deus não existe” Ateísmo Agnóstico Ateísmo Gnóstico
“Deus existe” Teísmo Agnóstico Teísmo Gnóstico

Exemplos:

  • qualquer crente fanático / fundamentalista é um crente gnóstico (há algum equivalente em Português a “theist”? “Teu” não me parece ser uma boa tradução… 🙂 )
  • a maioria dos crentes por tradição (comuns nos países europeus com religião estatal, como Portugal) são crentes agnósticos (acreditam que há um Deus, mas nunca poriam as mãos no fogo por isso, nem se preocupam muito com o assunto), ou então “apateus” (já lá vamos)
  • a posição que considero ser racional para um céptico, que só acredita em afirmações quando há evidência, é ser um misto de ateu agnóstico e gnóstico; ou seja, eu sou agnóstico em relação a algum deus, mas sou gnóstico – isto é, afirmo convictamente que não existem – em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 grandes monoteísmos na Terra, que têm características específicas e muitas vezes auto-contraditórias, e cujas afirmações em relação a eles, tanto históricas como científicas, são completamente destruídas, you guessed it, pela História e pela Ciência.

Já agora, muita gente auto-descreve-se como agnóstica quando na verdade é “apateísta”. “Agnóstico” significa “é impossível saber se sim ou sopas”, mas não é isso, pois não? “Apateísmo”, vindo de “apatia”, significa “estou-me nas tintas para se existe um deus ou não”. E esse é o caso de quase todos os auto-proclamados agnósticos. Não é que achem impossível saber; simplesmente, não estão realmente interessados no assunto, one way or another.

Por último, uma coisa em que em geral as pessoas não pensam: tanto os “apateus” como os verdadeiros ateus agnósticos são ateus “de facto”, isto é, vivem toda a sua vida no pressuposto de que não há nenhum deus. A diferença principal entre eles e um “verdadeiro” ateu é que não pensaram muito no assunto, não o consideram importante, e nem fazem qualquer tipo de activismo (que se pode limitar a escrever sobre o assunto). Mas, na totalidade das suas vidas, agem exactamente como ateus. Acho importante ter isto em conta, sobretudo quando acusam os ateus de “fanatismo” ou de “precisarmos de tanta fé como os crentes”.

Já agora, a Sara — como suspeito ser verdade para a maioria dos portugueses, pelo menos abaixo dos 60 — é claramente uma “apateia”. 🙂

Um momento para a História

Terça-feira, 20 de Janeiro, 2009

 obama01 obama02 obama03 obama04  obama06 obama07

Como se não bastasse, ele ainda disse uma coisa linda:

"We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus… and non-believers."

Hell yeah! 🙂 Apenas uns anos depois de o Bush Sr. ter dito que ateus não podem ser verdadeiros patriotas nem verdadeiros cidadãos. The tide is turning…

Tenho um novo blog! :)

Quinta-feira, 21 de Julho, 2005

Chama-se Way of the Mind, e é em Inglês. Ao contrário deste, não é pessoal (isto é, sobre mim e a minha vida), mas sim uma série de pensamentos e ideias sobre diversos temas. O que me vier à cabeça, basicamente. Aceita comentários, mas todos os posts na página principal serão meus.

Espero que gostem… 😉