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Ligar a quem nos deseja mal

Quinta-feira, 30 de Novembro, 2006

Imagina que alguém chega ao pé de ti e diz o seguinte:

A tua felicidade causa-me sofrimento. Não perguntes porquê, isso é cá comigo. Mas, se não és um monstro egoísta, a partir de agora, serás infeliz, de forma a que eu não o seja.

Qual seria a tua reacção? Eu sei qual seria a minha, e seria tudo menos simpática… 🙂 Acho, também, que qualquer um que ligue sequer a esse ser hediondo, estará a demonstrar uma tremenda falta de auto-estima e auto-respeito.

Mas… se bem que o exemplo é obviamente exagerado (entre outras coisas, porque ninguém que nos deseja mal é, normalmente, tão sincero), será que não há versões mais subtis disto, no dia a dia?

E será que não cedemos a essas criaturas, ocasionalmente?

Um exemplo comum: alguém, que já sabemos ser desprezível, vulgar, baixo, etc., diz-nos algo para nos magoar. Critica o nosso trabalho, ou a nossa maneira de ser… e não me refiro a uma crítica construtiva, mas mesmo a algo dito obviamente para nos deitar abaixo. Trata-se de alguém que sabe exactamente onde tocar para nos fazer sentir uns seres desprezíveis. Isso afecta-nos, deprime-nos.

Ora, ao reagirmos assim, não estamos a fazer exactamente o mesmo que faz alguém que ceda a um “a tua felicidade faz-me mal; sê infeliz”? Não é algo mais semelhante do que parece à primeira vista? Não passamos a nossa vida a ligar a quem obviamente nos quer mal — seja um colega de trabalho, um familiar, ou algum outro tipo de conhecimento? Sentimos que, se essa pessoa nos diz isso, deve ter alguma razão para isso, e acreditamos no que ela disse — apesar de só nos querer deitar abaixo.

Porque é que ligamos tanto a pessoas que nos querem mal? Será porque consideramos que elas são incapazes de ser más? Porque pensamos que são tão honestas e bem-intencionadas como nós? Ou porque, simplesmente, achamos que toda e qualquer forma de auto-estima é “egoísmo arrogante”, que temos de tentar agradar a todos, e que a nossa felicidade não é importante? Porque acreditamos que julgar os outros é sempre errado, mas, ao mesmo tempo, achamos que, quando nos julgam a nós, devem ter lá as suas razões?

Além da falta de auto-estima, isto vem também de uma “moralidade” subjectiva e relativista, de uma incapacidade de ver as coisas objectivamente. Devia ser óbvio. Alguém quer-nos mal? OK, é uma pessoa má. Agradar-lhe não deverá estar na nossa lista de prioridades; é uma pessoa a ignorar, e, se possível, evitar. Fim da questão. Mas não… achamos sempre que não podemos julgar os outros, e que ninguém é “mau”, que pensar em “bom” e “mau” é coisa de criança…