Arquivo da Categoria ‘Humanidade’

Ainda sobre o "pedir desculpa"…

Sexta-feira, 16 de Janeiro, 2009

Pedir desculpa é uma coisa nobre e bonita de se fazer, e não envolve auto-humilhação, penitência, ou algum disparate do género.

Mas “pedir desculpa” sem se achar que se fez algo de errado, sem se saber sequer pelo quê, é hipócrita, falso e cobarde. É usar “desculpa” como se fosse uma palavra mágica, sem nenhum significado, que resolve magicamente o problema (problema esse que basicamente consiste na outra pessoa estar chateada connosco por alguma razão que não entendemos nem estamos preocupados em entender).

E, sim, isto é irritante.

Aborto: Resposta ao Sérgio, e desabafo

Quarta-feira, 24 de Janeiro, 2007

Comecei a escrever um comentário, mas ficou grande, e acho melhor que seja um post completo.

O teu post não é sobre o sofrimento. O teu post é que é um insulto a todas as pessoas que têm uma opinião diferente da tua. Tu generalizas e achas que todos os que vão votar não são retrógados religiosos. Dessa forma eu nunca poderei discutir o assunto contigo.

E acho piada que como eu acusei o teu post, tu assumiste imediatamente que eu era um dos do ‘não’. Eu nunca manifestei aqui a minha opinião sobre o aborto, apenas sobre a forma como tu abordas o tema que é com palas nos olhos. Aliás acho que tens vindo a colocar cada vez as palas mais apertadas.. O meu interesse neste blog desapareceu… ainda tinha alguma esperança, mas acho que se foi mesmo.

é menos uma feed no leitor.

Sérgio: não sei se ainda lerás isto, mas é uma pena. De qualquer forma, no outro post dos limites de velocidade, demonstraste que não lês os posts, já que tiraste uma conclusão completamente diferente do que eu escrevi, e acusaste-me de ter como único objectivo subir os limites de velocidade para poder andar aí como um louco a atropelar pessoas e provocar acidentes. Alguém que conclui isso 1) não leu nada do que escrevi, como disse, e 2) tem mesmo — sem me conhecer de lado nenhum — uma opinião muito baixa (e insultuosa, até) sobre mim.

Quanto ao resto, aquele meu post é sobre o sofrimento, sim. O sofrimento provocado ao longo da história, por causa de preconceitos, mentes fechadas, ignorância, religião, e o separar da moralidade do sofrimento (ou seja, a moralidade é agradar a alguma entidade, e se isso implica o sofrimento de milhões, paciência). Há mal quando essa moralidade leva as pessoas a causar o sofrimento de gerações após gerações. Repugna-me, como já disse várias vezes, essa separação da moralidade e do sofrimento. Repugna-me que alguém se veja como “defensor da vida” mas tenha um conceito tão limitado de “vida” que não tenha problemas em condenar pessoas (mães e filhos) a vidas inteiras de sofrimento — de “morte em vida”. Repugna-me que haja mais dor e agonia causados por estes “defensores da moralidade” do que por quem não se vê como tal — e que ninguém pareça reparar nisso; que ninguém seja capaz de dizer “o rei vai nu” em relação a esses “defensores”, de dizer que a “moralidade” que eles defendem não é realmente moral, que eles não falam pelo resto da humanidade.

Não sou relativista. Não vejo tudo na vida como uma simples “diferença de opinião”, em que uma é tão válida como a outra. Se uns querem aliviar o sofrimento e os outros o criam, sem terem nenhum problema com isso, não vou dizer que a moralidade de ambos é igualmente válida.

Ao fazer isto, sou “agressivo”, “insulto as opiniões dos outros”, e “tenho palas nos olhos”. Porque não devia importar-me e deixar que isto me afecte. E porque devia ser relativista, e não julgar, em vez de afirmar que há um lado certo e um lado errado.

Mas não sou assim. Se é alguém assim que querem, realmente estão no blog errado. Sorry.

Mais aborto… agora, outras opiniões

Terça-feira, 23 de Janeiro, 2007

Do meu lado, acho que não vou acrescentar muito mais à questão. Já fui insultado por ter a minha opinião, por ter pensado nela, e por estar certo da mesma, quando hoje em dia é considerado “arrogante” ter uma opinão forte baseada no pensamento; só se aceita uma opinião forte baseada em emoções. Ou em autoridade, ou em religião, ou… Bah.

De qualquer forma, se alguém quiser comentar os meus posts anteriores, e, para variar, quiser responder ao que eu escrevi (em vez de se limitar a dizer que “sou muito agressivo”), tal será apreciado.

Neste post, vou apenas mencionar o que outros disseram (fora deste blog) sobre esta questão.

Primeiro, um post da namorada, chamado A Interrupção Voluntária da Gravidez…. É um bocado mais detalhado do que os meus, e acho que mostra bem os dois lados da questão. Vá, leiam e comentem. 🙂 Inclui argumentos como este:

Para quem não sabe, até às 10 semanas há muitas mulheres que nem têm uma gravidez confirmada e que têm aborto espontâneo sem que soubessem que estavam grávidas. O próprio corpo se encarrega de “expulsar” fetos com problemas graves, é parte da “selecção natural” de Darwin, a não-sobrevivência dos fracos, dos inviáveis.

Logo, segundo a moralidade dos “nãos” (que confundem um ser humano com um aglomerado de células que é um potencial ser humano), quase todas as mulheres com vida sexual são “mass murderers” e nem o sabem…

Depois, quero mostrar um post que considero ser totalmente ridículo. Vem de um partido americano, “America First Party”, que é basicamente mais republicano do que os Republicanos. O post chama-se… wait for it… Abortion Leads to Nuclear War. Sim, parece que a Madre Teresa (que pode ter sido muitas coisas, mas não era, de certeza, uma pessoa inteligente ou culta – ou então era muito mentirosa, porque sem dúvida dizia grandes disparates) disse algo desse género, e os fanáticos de todo o mundo pegam nisso. Portanto, já sabem – não querem ver cogumelos enormes no horizonte, não abortem. Ah, e…

It is abhorrent that abortion supporters choose to hide behind the term ‘choice’ to mask their goal of destroying unborn children and promoting immoral behavior without responsibility

Destruir crianças! Que horror! Que tipo de monstro desumano e cruel quereria alguma vez fazer tal acto hediondo? 😯

É claro que as coisas não são bem assim. Sugiro-vos esta alternativa… deixem se ser um aglomerado irracional e disforme de emoções, e sejam humanos: pensem um pouco. Como este post, em resposta ao comunicado anterior, diz,

nuclear bombs have been used once in war, and I seriously doubt the bombing of Hiroshima and Nagasaki had anything to do with abortion, considering it wasn’t legal in the US in 1945.

E, em resposta à idiotice de “destruir crianças” citada anteriormente,

Let me tell you right now, no one wants to destroy children. It’s just that sometimes an abortion is the only option a mother may have to keep from ruining her life or the lives of her future children. Life is not always fair or simple. That’s the way it is. I wish we could all live in a dream world of magic, but we don’t, and trying to legislate it into reality won’t make it so.

Não teria dito melhor.

Aborto e sofrimento

Quinta-feira, 18 de Janeiro, 2007

Em resposta aos vários comentários em Aborto e Controlo:

Um feto não é um ser humano, é um potencial ser humano. Pô-lo acima de um ser humano VIVO, que pensa e sente, é absurdo.

E é curioso que já mencionei isso no outro post várias vezes, mas nenhum dos pró-nãos comenta: e a questão do sofrimento? A questão de estarem a condenar, muitas vezes, tanto a mãe como a eventual criança a uma vida de dor, sofrimento e tristeza? Isso não vos incomoda, pois não? Serem “protectores da vida” faz-vos sentir muito heróicos, muito morais, e estão-se nas tintas para o resto.

“Vida” é muito mais do que um coração estar a bombear sangue. Mas para vocês, só isso é que conta.

Mais uma vez: não querem abortar? Não abortem. Mas deixem os outros em paz.

Gente como vocês já atrasou a medicina em séculos, por fazer com que autópsias fossem tabu. Já atrasou a ciência em séculos, por perseguir cientistas que afirmavam coisas contrárias à posição da igreja.

Gente como vocês tentou impedir o fim da escravatura há alguns séculos, porque na Bíblia esta é aceite como algo normal. Tentou impedir o uso de anestesia no parto, porque a dor do mesmo era suposto ser o castigo de Deus a Eva e descendentes.

Gente como vocês tem feito com que gerações após gerações, em países mais pobres, vivam em fome e miséria, devido à condenação do uso de contraceptivos. Tem impedido que se cure doenças como a de Parkinson, porque isso envolve tipos de pesquisa que ofendem as vossas susceptibilidades.

E agora não têm nenhum problema em condenar mulheres e crianças a vidas inteiras de sofrimento, só por causa de “slogans” retrógrados que têm nas cabecinhas sem realmente terem alguma vez pensado no assunto.

A sério, deixem o mundo em paz. Já provocaram mal que chegue.

Ligar a quem nos deseja mal

Quinta-feira, 30 de Novembro, 2006

Imagina que alguém chega ao pé de ti e diz o seguinte:

A tua felicidade causa-me sofrimento. Não perguntes porquê, isso é cá comigo. Mas, se não és um monstro egoísta, a partir de agora, serás infeliz, de forma a que eu não o seja.

Qual seria a tua reacção? Eu sei qual seria a minha, e seria tudo menos simpática… 🙂 Acho, também, que qualquer um que ligue sequer a esse ser hediondo, estará a demonstrar uma tremenda falta de auto-estima e auto-respeito.

Mas… se bem que o exemplo é obviamente exagerado (entre outras coisas, porque ninguém que nos deseja mal é, normalmente, tão sincero), será que não há versões mais subtis disto, no dia a dia?

E será que não cedemos a essas criaturas, ocasionalmente?

Um exemplo comum: alguém, que já sabemos ser desprezível, vulgar, baixo, etc., diz-nos algo para nos magoar. Critica o nosso trabalho, ou a nossa maneira de ser… e não me refiro a uma crítica construtiva, mas mesmo a algo dito obviamente para nos deitar abaixo. Trata-se de alguém que sabe exactamente onde tocar para nos fazer sentir uns seres desprezíveis. Isso afecta-nos, deprime-nos.

Ora, ao reagirmos assim, não estamos a fazer exactamente o mesmo que faz alguém que ceda a um “a tua felicidade faz-me mal; sê infeliz”? Não é algo mais semelhante do que parece à primeira vista? Não passamos a nossa vida a ligar a quem obviamente nos quer mal — seja um colega de trabalho, um familiar, ou algum outro tipo de conhecimento? Sentimos que, se essa pessoa nos diz isso, deve ter alguma razão para isso, e acreditamos no que ela disse — apesar de só nos querer deitar abaixo.

Porque é que ligamos tanto a pessoas que nos querem mal? Será porque consideramos que elas são incapazes de ser más? Porque pensamos que são tão honestas e bem-intencionadas como nós? Ou porque, simplesmente, achamos que toda e qualquer forma de auto-estima é “egoísmo arrogante”, que temos de tentar agradar a todos, e que a nossa felicidade não é importante? Porque acreditamos que julgar os outros é sempre errado, mas, ao mesmo tempo, achamos que, quando nos julgam a nós, devem ter lá as suas razões?

Além da falta de auto-estima, isto vem também de uma “moralidade” subjectiva e relativista, de uma incapacidade de ver as coisas objectivamente. Devia ser óbvio. Alguém quer-nos mal? OK, é uma pessoa má. Agradar-lhe não deverá estar na nossa lista de prioridades; é uma pessoa a ignorar, e, se possível, evitar. Fim da questão. Mas não… achamos sempre que não podemos julgar os outros, e que ninguém é “mau”, que pensar em “bom” e “mau” é coisa de criança…

Os "Bons Velhos Tempos"

Segunda-feira, 30 de Outubro, 2006

É comum ouvir-se comentários em relação aos Bons Velhos Tempos ™. O comentário em si varia, mas, no fundo, todos se resumem a isto: antigamente as coisas eram melhores.

Isto deve-se em parte à nostalgia, e em parte ao medo da mudança. E, por vezes, deve-se também a uma má memória: a tendência é lembrarmo-nos das coisas boas, e esquecermos as más.

Para todos os que dizem que “antigamente é que era”, deixo-vos aqui duas páginas de uma publicação (americana) de 1955. Cliquem na imagem abaixo para a verem no seu tamanho original.

The Good Wife's Guide

Apesar de agora dar vontade de rir, isto, na altura, não era comédia. Era real. O mundo era assim. As mentalidades eram assim. As pessoas eram assim.

E agora digam-me que “nada melhorou”, que as coisas “antigamente eram melhores”. Digam-me que a raça humana, apesar de todos os seus defeitos, não evoluiu, e não evolui. Digam-me que “está tudo na mesma, ou pior”. Digam-me que “estamos cada vez mais imorais”. Que a solução para os problemas da humanidade era “voltar aos valores do passado”.

Hobbies e paixões

Terça-feira, 13 de Dezembro, 2005

Uma questão que, com mais tempo, quero abordar mais profundamente no Way of the Mind é esta: hobbies e paixões.

Quem me conhece sabe que tenho vários/as: jogos de computador e consola… os blogs… aprender coisas sobre informática que não servem directamente para o trabalho… ler fantasia e ficção científica… heavy metal…

Uns são “hobbies” propriamente ditos, isto é, coisas que faço. Outros são mais “gostos”, se bem que a palavra “paixões” seria mais apropriada.

Mas hoje, ao pensar um pouco na questão, apercebi-me de duas coisas:

1- que muita, muita gente não tem nada disto. Oh, claro, as pessoas têm gostos, têm coisas das quais gostam mais, e coisas das quais gostam menos (se bem que cada vez noto mais que muita gente acha que “é cool” não gostar de quase nada, dizer mal de tudo… mas isso já é outra guerra). Mas hobbies? Paixões? No freakin’ way.

Pus-me a pensar nas pessoas que conheço – família, amigos, conhecidos, colegas de trabalho… e é de certa forma assustador pensar que mais de metade não tem qualquer hobby ou paixão. Não têm aquela coisa que adoram fazer nos tempos livres. Aquela coisa sobre a qual gostam de aprender. Aquela coisa que lhes “recarrega as baterias” após a “loucura do dia-a-dia”. O que é que estas pessoas fazem nos tempos livres? Vêem televisão – sem terem sequer uma paixão por ver televisão. Vão às compras – sem terem sequer uma paixão pelo que compram. Ou, então, arranjam maneira de não ter tempos livres…

2- tanto ou mais assustador do que o ponto anterior é ver que, para quase todos aqueles menos de 50% que têm uma paixão, esta é social. Implica convívio, necessariamente. Não, não estou a dizer que haja algum problema em conviver, e em gostar disso. Mas , para mim, um grande problema quando a ideia de uma pessoa ter um hobby ou paixão a sós (sei lá, uma mini-oficina na garagem… jardinagem… poesia… escrita… tocar um instrumento… jogar xadrez…) é algo completamente impensável. Faz, até, de quem a tem, “um tipo esquisito”.

E é isso que observo.