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Anti-intelectualismo

Segunda-feira, 25 de Dezembro, 2006

Para começar, algumas definições:

  • primeiro, há o Intelectualismo: dar especial valor à inteligência, pensamento e educação.
  • depois, há a “Normalidade”, ou “não-intelectualismo”, em que não se dá o valor mencionado acima. Isto não é anti-intelectualismo.
  • finalmente, há o Anti-intelectualismo: o desprezo pela inteligência, pensamento, e educação. A crença de que são esses valores que são responsáveis pela maioria dos males no mundo, pela maior parte do sofrimento humano. Uma tentativa de evitar ao máximo essas características em nós próprios, e a denegrição desses valores nos outros.

Já sei que a maioria não concordará comigo, mas eu acho, depois de já ter pensado exaustivamente no assunto, que os últimos são dos seres mais desprezíveis à face da terra.

(Mais uma vez: não me refiro aos não-intelectuais, mas sim aos anti-intelectuais. E isto não tem a ver com inteligência, mas com valores.)

São seres que se opõem a tudo o que há de bom, a tudo o que se cria, inventa ou produz. São seres para quem a mediocridade é das maiores qualidades a atingir. São vermes que gostariam de ver a humanidade como na pré-história ou idade média: cheia de doenças incompreensíveis (que devem ser castigo “divino”), aterrorizada por “demónios”, na podridão e imundície, supersticiosa, e a morrer-se de idade aos 25-30 anos.

É escumalha para a qual todo o pensamento é suspeito e perigoso, toda a invenção é “maligna” porque vai alterar o que é confortável (e pode, horror dos horrores, obrigar a aprender coisas novas), tudo o que melhora a vida da humanidade é indesejado. São seres para quem a vida humana é, necessariamente, sofrimento, e a única forma de o suportar é “desligar”, é não pensar nem sentir nada, é entrar num estado de apatia estúpida, de torpor anestesiado.

Isto parece extremo, não é? Afinal, nunca ouviste ninguém a dizer, explicitamente, “odeio o pensamento! estaria tudo melhor se as pessoas não pensassem tanto, não soubessem tanto!” (ou, se calhar, ouviste… o que é assustador).

Mas é esse o objectivo de todos aqueles que dizem que a mente humana é falível, é imperfeita, que há algo superior, “mais elevado”, acima do “parco” raciocínio humano. Aqueles que dizem que “os estúpidos é que são felizes”. Aqueles que olham para qualquer tecnologia, qualquer invenção, qualquer progresso, qualquer descoberta, responsável por aliviar o sofrimento humano, com desdém. Com ódio, raiva, ressentimento.

Afinal, se nos convencemos de que o fracasso é inevitável, e que a única coisa a fazer é “desligar a mente”, então alguém que não fracasse é uma ameaça ao “mundo” que construímos…

E, sim, este assunto não fica por aqui. 😉

Humor e inteligência

Segunda-feira, 11 de Dezembro, 2006

No livro The Salmon of Doubt, um dos textos do Douglas Adams falava de como ele não achava piada à maior parte do humor conteporâneo, por não conseguir desligar o cérebro. Por exemplo, ele mencionava uma piada que esteve muito na moda há uns anos, dita na TV por vários comediantes, e que era a seguinte: os aviões, como se sabe, têm uma “caixa preta” (“black box”) que é feita de uma liga ultra-resistente, e que guarda os dados do vôo, de forma a que, no caso de um acidente, seja possível determinar o que aconteceu nos últimos momentos, mesmo que o avião tenha explodido aparatosamente. A piada é: então, porque é que não constroem um avião inteiramente desse material? É como se isso fosse uma coisa óbvia, e os grandes “crânios” na indústria aeronáutica fossem completamente imbecis.

O Douglas Adams, nessa altura, dizia que não se riu quando ouviu isso pela primeira vez, porque a primeira coisa que pensou foi o óbvio: que esse material é muito mais pesado, e que um avião construído dessa forma nunca levantaria vôo.

Ou seja, é um humor que só funciona quando se desliga o cérebro temporariamente. (ou quando já se é totalmente idiota, but I digress…)

Há dias, vi uma parecida. Vi uma frase, supostamente muito profunda, que diz o seguinte:

Se a vida te fizer cair sete vezes, levanta-te oito.

Serei só eu a reparar que essa frase não faz sentido? Que não nos podemos levantar sem ter caído, logo, a última vez está a mais, e é, no contexto, totalmente impossível? Que, se caímos 7 vezes, só nos podemos levantar 7, e acabaremos de pé; a oitava seria levantarmo-nos quando já estamos de pé? 😮

Já sei, vão-me dizer que eu não devia pensar tanto nestas coisas. Mas o que não vêem é que pensar não é um “esforço árduo”, é algo completamente natural para qualquer ser que não dedique esforço e tempo a anular a sua mente. Pensar é o que nos torna humanos. Humor — ou frases supostamente “inspiradoras” — que dependem de não pensar… não, obrigado. 🙂

O círculo vicioso da televisão

Quinta-feira, 16 de Novembro, 2006

Quem me conhece, sabe que não vejo televisão há anos. Não só pela falta de qualidade e infestação constante de publicidade, mas também porque não gosto de ver coisas (séries, neste caso) a conta-gotas, com intervalos quando eles querem (e não quando eu preciso de ir à casa de banho ou coisa parecida :)), e não tenho pachorra para me lembrar de que o programa X dá à hora Y no dia Z.

Mas sei que estou em relativa minoria, sobretudo em relação aos motivos que não têm a ver com a falta de qualidade. Por outras palavras, sempre que vejo alguém a dizer que vê cada vez menos televisão, é apenas porque os programas, em geral, não prestam. As minhas outras razões, aparentemente, são só minhas. 🙂

Quanto à falta de qualidade em si, ao comentar no blog do Rui Moura, veio-me à cabeça o seguinte: a televisão está (segundo dizem; eu não posso confirmar 🙂 ) cada vez pior porque… está cada vez pior. Ou seja, é um círculo vicioso.

A coisa é mais ou menos assim:

A qualidade dos programas é baixa, o que faz com que quem tem mais miolos vá deixando de ver. Quem é que fica? Quem tem menos miolos. De seguida, os vários canais fazem, naturalmente, pesquisa de mercado, entre quem continua a ver televisão… e o que é que os inquéritos demonstram? Que ninguém vê este ou aquele documentário ou série com interesse que ainda resta, que o que “as audiências” querem é: mais telenovelas, mais “reality shows”, mais futebol, mais sensacionalismo nas notícias, mais coisas “pimba”, mais programas de treta.

Ora, eles seguem o que essa pesquisa indica, fazendo descer ainda mais a qualidade dos programas. Resultado? A “camada de cima” (em termos de inteligência) também já não aguenta, e deixa de ver. Com isso, a média de inteligência desce ainda mais. Adivinhem lá o que é que os próximos inquéritos vão mostrar…

Por outras palavras, é um caso perdido. Quem tem bom gosto vai deixando de ver; quem tem mau gosto e fica, “pede” coisas ainda piores.