Arquivo da Categoria ‘Moralidade’

Mais Papa, mais preservativos, e mais comentários

Sexta-feira, 20 de Março, 2009

O leitor CSousa deixou num post anterior meu um link para este post, com a sugestão de eu o ler. E porque não?

Primeiro, o autor do post fala da qualidade de Ratzinger / Bento 16 como teólogo. Já aí estamos perante um problema.

Deixem-me explicar a minha posição com um exemplo. Eu posso ser o maior fã do Homem-Aranha do mundo. Posso ler todas as comics existentes (e são milhares e milhares, desde os anos 60) várias vezes, posso ler dissertações filosóficas sobre o personagem, posso entrevistar o Stan Lee e o Steve Ditko, bem como alguns dos mais recentes argumentistas do personagem. Posso ir a convenções, juntar-me a clubes de fãs, escrever blogs, e passar todo o meu tempo livre a pensar no personagem, de forma a ter novos “insights” sobre ele e o que o faz vibrar. Posso tomar decisões no dia-a-dia pensando “o que é que o Homem-Aranha faria nesta situação?”. Posso, em resumo, conhecer o personagem tão bem ou melhor do que qualquer pessoa no planeta, ser o maior especialista nele ele à face da terra.

Isso faz o personagem existir? De forma alguma. E se eu afirmasse que ele existe, estaria completamente louco, exactamente como alguém que afirmasse isso sem conhecer quase nada dele. O meu conhecimento extremo de um personagem fictício não o torna real.

Teologia é exactamente a mesma coisa. É o estudo de algo fictício, inexistente. É uma não-ciência. O Papa pode ter passado a vida dele a pensar sobre a personalidade e desejos do Deus cristão; pode ter lido e entendido mais textos sobre o assunto do que qualquer outra pessoa. Pode passar anos da sua vida a rezar. Pode dedicar a vida inteira a isso. Mas isso não faz Deus passar a existir, e muito menos faz com que esse personagem fictício dê ao Papa algum conhecimento ou informação que os “mortais comuns” não têm.

Teologia, como alguém disse no passado, é um cego a procurar num quarto escuro um gato preto que não está lá… e “encontrá-lo”.

Depois, vem aquilo que os defensores do Papa têm andado a dizer como desculpa: que ele não disse que o uso do preservativo agrava a epidemia da Sida, mas que é a sua distribuição que o faz. Desculpem lá, mas… estão a tentar usar a Chewbacca defense, ou quê? Essa distinção não faz qualquer diferença neste contexto; a distribuição dos preservativos tem como único objectivo o aumento do seu uso. De certeza que estes não são para fins decorativos…

A citação da “Dra.” é tão moralmente repugnante que dá vontade de nem lhe responder. É mais uma variante do NOMA (non-overlapping magisteria), a ideia de que a ciência e a religião não estão em conflito, porque a primeira se dedica ao “como” e a segunda ao “porquê”, sendo a moralidade o apanágio da segunda. Não vou entrar aqui em explicações detalhadas pelas quais isso é absurdo; digo-vos apenas isto: que autoridade tem a religião, sem qualquer “linha directa” para algum ser superior, e culpada das maiores atrocidades feitas em nome de “Deus”, para falar de moralidade? Nenhuma; e por isso a “moralidade” da mesma resume-se a 1) livros escritos há milhares de anos que aceitam a escravatura e afirmam a inferioridade e necessária submissão da mulher em relação ao homem, e 2) um conservadorismo abjecto e oposição a todo o progresso da sociedade.

Um cristão ou um membro de qualquer outra religião — ou mesmo um líder da mesma religião, como neste caso o Papa — não é um especialista em ética ou moralidade. A sua “moralidade” resume-se a tentar adivinhar os caprichos de um ser em que acredita apesar de não haver quaisquer indícios da sua existência, seja teorizando, seja lendo o que outros crentes nesse ser (não mais iluminados do que ele) escreveram. Querem moralidade, falem com filósofos focados na mesma, ou pensem por vocês próprios; não há nada a tirar da religião nesse aspecto (ou, o pouco que haja, não é nada do outro mundo e não é original deles: se pensam que “faz aos outros o que queres que te façam” teve origem em Jesus Cristo, estão completamente enganados).

Depois, há quem diga (não necessariamente naquele post, mas já vi o argumento por aí) que os preservativos não são 100% eficazes a prevenir a Sida, logo “não são solução” e mais vale estar quieto. Desculpem-me?!? Uma solução que previne 90% das infecções (ou mesmo que fosse 50%, ou até menos) é “o mesmo que nada”? Sabem de quantos milhões de vidas potencialmente salvas se está a falar? De quantas pessoas, mesmo não sendo todas elas, podem livrar-se de sofrer de forma horrível e morrer permaturamente? Importam-se com isso, minimamente? Ou todas essas vidas são para vocês “o mesmo que nada”? E, já agora, as campanhas de abstinência têm melhores resultados a reduzir a Sida? Bem me parecia.

Por último, a quem acha que o que o Papa disse não é desprezível, deixo-vos este desafio: se Deus não existisse (eu estou convencido de que não existe, mas, no vosso caso, “imaginem-no” durante um pouco), a afirmação do Papa teria mesmo assim algum valor ético e moral positivo, em termos puramente humanos? Faria, na mesma, algum bem ao mundo? Ajudaria a reduzir a Sida? Aliviaria o sofrimento e evitaria a morte prematura de milhões? Seria louvável? Se sim, porquê? E, se não, já pensaram no que isso diz sobre a moralidade do deus que adoram?

P.S. – se a vossa resposta for “sim, porque senão aquela gente toda vai ter sexo, sexo e mais sexo, e vai ter prazer nisso, e isso enoja-me, enoja-me, enoja-me!”, lamento sinceramente o que os vossos pais vos fizeram na infância, mas é possível ultrapassar isso com ajuda psicológica / psiquiátrica.

Papa: preservativos *pioram* o problema da sida

Terça-feira, 17 de Março, 2009

Fonte: Times Online

Aids “is a tragedy that cannot be overcome by money alone, and that cannot be overcome through the distribution of condoms, which even aggravates the problems”.

Agrava? Como?

Nope, ele não diz. Mas, claro, propõe uma “solução”…

He said the “traditional teaching of the Church” on chastity outside marriage and fidelity within it had proved to be “the only sure way of preventing the spread of HIV and Aids”.

Claro. Uma solução que não venha deles, por muito eficaz que seja, não é solução. Se a deles é irrealista e está provado que é ineficaz… paciência. Admitir que há uma opção melhor era abdicar do controlo que ainda têm sobre grande parte do mundo. E é impressionante como não têm problemas em provocar o sofrimento e a morte de milhões. Bem, quando se acredita que o sofrimento em vida é irrelevante – ou seja, quando se é um culto da morte –, isto faz todo o sentido.

E, ei, pelo menos são coerentes

Anti-Educação Sexual: afinal, o que é que esta gente quer?

Segunda-feira, 16 de Março, 2009

condenei ontem a atitude, os objectivos e a “moralidade” daquilo a que se podia chamar grupos pseudo-pró-vida (GPPVs, para abreviar); o “pseudo” vem do facto de eles aparentemente só se preocuparem com a vida até ao parto, e não terem problemas nenhuns com o sofrimento humano, nem com a ideia de uma “morte em vida”.

Mas eu tenho a irritante mania de querer sempre entender tudo, incluindo as posições do “inimigo”, o que é que as causa, e o que é que eles realmente querem. Neste caso, por exemplo, uma pessoa de fora pensaria que GPPVs, por serem totalmente anti-aborto, seriam os maiores apoiantes da introdução da educação sexual obrigatória às crianças! Afinal, é esta (e não a “abstinência”, que não é nem nunca foi realista), sem dúvida, a forma mais eficaz de reduzir ao máximo o número de abortos, por praticamente acabar com os possíveis motivos para estes. Se os jovens souberem o que estão a fazer, souberem como é que se engravida, e souberem como o evitar, tendo sexo de forma realmente segura, não haverá mais gravidezes indesejadas. Aliás, até poderia argumentar que se se conseguir transformar o sexo numa coisa bonita e saudável, em vez de “porca” e um bicho de sete cabeças, isso poderá diminuir o número de violações, fazendo cair ainda mais o número de abortos. Como disse, isto devia ser o que eles querem… não?

Mas não. Nem por sombras. Continuam a opor-se a todo e qualquer método contraceptivo, incluindo os tão convenientes preservativos; continuam a dizer que o sexo tem de ser só dentro do casamento e só para fins reprodutivos, nunca para prazer. Há até grupos a opor-se ao uso de preservativos dentro do casamento, mesmo sendo um dos membros do casal seropositivo. Se isto não vos choca, não sei o que chocará.

Porque é que eles agem de uma forma aparentemente tão contraditória em relação ao seu “stated goal”? Porque é que a ideia de as pessoas terem sexo por prazer, sendo isso visto como algo saudável e natural, em vez de um bicho de sete cabeças, os assusta tanto? Podia aqui armar-me em psicólogo barato e dizer que é por eles próprios não terem vida sexual (devido à educação repressiva que tiveram e à falta de carisma natural 🙂 ), e quererem forçosamente reduzir o resto do mundo ao seu nível. Isso até pode ser um factor em alguns casos, mas eu diria que as razões principais são aquelas que eu mencionei no fim do meu último post: controlo, e a criação de um Inferno na Terra.

Em “O Nome da Rosa”, o vilão opunha-se à divulgação de um livro do Aristóteles sobre a comédia, porque isso a legitimaria, e o riso afasta o medo. Sem medo, dizia ele, as pessoas não precisam de Deus (e eu acrescentaria: não precisam de religião… nem da Igreja). Logo, era importante manter as pessoas no medo, e se isso implicasse abafar a verdade de forma a manter a ignorância, ou mesmo provocar a morte de pessoas inocentes (como ele faz), que assim seja. Aqui é algo semelhante. Pessoas felizes viram-se menos para a religião do que pessoas infelizes; daí os três monoteísmos se oporem tanto ao prazer, e a formas de viver psicologicamente saudáveis. Isso não é do interesse deles. A frustração, essa, é. O sofrimento. A repressão dos nossos instintos naturais. A falta de esperança em relação à vida na Terra, transferindo essa esperança toda para uma suposta vida depois da morte. O medo. A ignorância.

E, claro, há a questão do controlo. Grande parte do controlo da religião sobre as pessoas vem do controlo – através, em grande parte, da demonização – da sexualidade. Isso já tem milhares de anos; afinal, porque é que o deus da Bíblia parece ser tão obcecado pelos nossos órgãos genitais? Porque, ao transformar algo que é naturalmente parte do ser humano num “pecado” horrível, sujo e hediondo, isso cria culpa e medo nas pessoas; e nada torna uma pessoa tão maleável ao controlo como a culpa e o medo.

A estupidez e imoralidade do “pró-vida”

Domingo, 15 de Março, 2009

Cectic - "Loaded Guns"Fonte: Cectic

Via Maracujá, este artigo no Público capaz de provocar vómitos pela irracionalidade e, sim, imoralidade do grupo descrito. Porque o que é imoral não é a educação sexual, nem o próprio sexo, mas sim a tentativa de perpetuar a ignorância, sem ter quaisquer problemas com o sofrimento causado.

Por exemplo:

O movimento católico Portugal Pró-Vida não quer aulas obrigatórias de educação sexual nas escolas portuguesas, informou o presidente Luís Botelho Ribeiro. “A obrigatoriedade dos alunos frequentarem as aulas de educação sexual é anti-democrática e muito perigosa para a sociedade portuguesa”, referiu a mesma fonte.

E ainda:

Contra o aborto, o movimento assume uma nova “luta” contra a existência de aulas de educação sexual nas escolas e contra a obrigatoriedade da sua frequência.

Mas, ainda pior,

“As ideias e os ensinamentos que vão ser transmitidos aos estudantes vão fazer com que, daqui a poucos anos, tenhamos uma geração de portugueses para quem nada é proibido nem moral, nem eticamente”, frisou Luís Botelho Ribeiro.

E, claro,

“Nos manuais de educação sexual que já tivemos oportunidade de ver só se fala de sexo.”

Desculpem se ofendo alguém (se bem que quem se ofender com isto bem o merece), mas isto é nojento. Por um lado são absolutamente contra o aborto, mas por outro lado são também contra todas as alternativas ao mesmo: contraceptivos, sexo responsável, ou mesmo saber-se o que se está a fazer. E, claro, continuam a igualar a moralidade a um puritanismo retrógrado, anti-prazer e anti-vida (já que “vida” não é só um coração a bombear sangue). Não se percebe realmente qual é o objectivo desta gente, se bem que, se tentasse adivinhar, diria que é principalmente controlo. Ou, se calhar, não acham que o Inferno fictício em que acreditam seja suficiente, e querem recriá-lo na Terra.

O sexo é uma coisa porca?

Segunda-feira, 2 de Fevereiro, 2009

Eu acho que não. Imagino – espero – que algum possível leitor do meu blog também ache que não.

Mas cada vez acho mais que quase toda a gente acha que sim.

Os meus anos de observação do caos vulgarmente chamado “humanidade” leva-me a constatar o seguinte: que as pessoas se dividem entre as que acham o sexo porco, e isso as enoja, e as que acham o sexo porco, e isso as excita.

O segundo caso é provavelmente óbvio; são as pessoas para quem o sexo não passa de prazer físico (ou mesmo somente um “descarregar”), idealmente em situações ilícitas, e a fazer coisas que “não se pode pedir à namorada / mulher”. O sexo é em geral feito “a la filme porno”, isto é, não só está completamente desprovido de algum tipo de carinho ou preocupação com o prazer da outra pessoa, como além disso não envolve qualquer contacto físico excepto o dos orgãos genitais. É o caso típico do homem de bigode de meia idade, que possivelmente trabalha a conduzir algum tipo de veículo 🙂 , para quem a mulher é para cuidar da casa e dos filhos, e que, em geral, paga pelo sexo que tem. Uma versão diferente é o tipo mais novo, que tem boa aparência suficiente (e há mulheres com suficiente falta de auto-estima) para não ter de pagar. São os que acham que “há aí alguma gaja boa?” é uma óptima forma de entrar num chat, e “és muita boa, f*dia-te toda” é a maneira ideal de meter conversa num site de social networking. E, claro, há versões femininas disto tudo.

Mas o primeiro caso pode não ser tão óbvio. Refiro-me (e já sei que vai haver quem me insulte pelo post – ou então ninguém lê isto… não sei o que será pior 😛 ) a quem acha que “sexo só depois do casamento”, ou “sexo só numa relação”, ou “sexo só com amor”. Isto é considerado o ideal de moralidade neste aspecto; mesmo quem não age realmente assim, muitas vezes finge fazê-lo ao falar com quem ainda não conhece bem, com quem ainda não confia; só depois de vir a confiança é que se admite, de forma embaraçada, que ocasionalmente se tem sexo sem uma relação ou sentimentos, apenas por prazer. E porquê essa ideia, essa vergonha, esse embaraço? Porque subscrevem a mesma moralidade dos do parágrafo acima, uma moralidade em grande parte vinda de quase 2000 anos de domínio religioso da mesma, e que afecta inevitavelmente o zeitgeist moral da sociedade, mesmo nos casos de quem não tem qualquer crença religiosa. Subscrevem a ideia de que o sexo é porco, que é imoral, que nos reduz – excepto em determinadas condições. Neste caso, casamentos, relacionamentos, ou simplesmente um sentimento forte em relação à outra pessoa. Ou seja, o sexo por si só não é moralmente positivo (porque “é porco”, afinal), mas nesses contextos passa a ser aceitável; o “porco” fica atenuado. Resumindo: o sexo tem de ser justificado. Não é moral, não é válido por si só. Precisa de uma justificação externa.

Ora, uma coisa boa, agradável, bonita, e que não faz mal a ninguém, não precisa de justificação externa.

Não precisas de justificar porque é que comes algo que te sabe bem, ou dormes quando tens sono, ou conversas com amigos cuja companhia aprecias, ou vês um filme ou série de que gostas, ou ouves uma música que é especial para ti e te toca na alma. Não precisas de justificar nada disso; aliás, só a ideia em si já é absurda. Para quê justificar? É bom! É agradável! Faz-te sentir bem! Não te faz mal a ti, nem a ninguém!

Uma coisa só precisa de justificação se for, por alguma razão, um “mal necessário”; ou seja, é algo desagradável, ou aparentemente mau de alguma forma, mas há uma razão mais forte para o fazer – uma justificação. Tal coisa não é precisa para algo que já é bom à partida: isto é, por definição, auto-justificado1.

“Sexo é porco, que nojo” ou “sexo é porco, que fixe”? Tal como em qualquer falsa dicotomia, há uma terceira e menos óbvia hipótese: que o sexo não é, de todo, porco. É algo bom, natural, agradável, saudável e bonito, que não reduz nem “suja” quem o faz, e que, sendo feito consensualmente entre adultos, não pode – independentemente de qualquer detalhe como “há quanto tempo se conhecem”, “preferências sexuais”, “posições”2, relação (ou falta dela) entre as pessoas, número de pessoas :), etc. – ser imoral. Ou errado. Ou “porco”.

  1. por exemplo, apesar de várias filosofias colectivistas (comunismo, fascismo, etc.) e várias religiões monoteístas afirmarem que as nossas vidas precisam de uma justificação externa (servir o povo, servir o estado, servir Deus), a implicação daí, e que revela o mal monstruoso dessas ideias, é que nós não somos por nós próprios dignos de estar vivos, que não somos auto-justificados. Isso é, claro, absurdo, e causa de sofrimento para milhões ao longo da história. But I digress… []
  2. não riam – há várias posições e tipos de sexo que ainda são ilegais nas Constituições e leis de vários estados nos EUA. []

Ainda sobre "ser compreensivo"

Sábado, 31 de Janeiro, 2009

Imagina que tens de decepcionar alguém.

As especificidades não interessam para aqui; por exemplo, tens coisas combinadas com várias pessoas para um período de tempo, mas uma avalanche de trabalho, cansaço, ou outra razão obriga-te a cancelar uma dessas coisas.

Supõe que os candidatos a decepcionar são os seguintes:

  • O gajo A é muito emotivo, e vai reagir mal à decepção. Não vai necessariamente ficar fisicamente violento, mas vai “explodir”, gritar contigo, acusar-te de não dares valor nenhum à sua amizade, descrever-te usando vários termos pouco simpáticos, e não te vai querer ver tão cedo.
  • O gajo B é também muito emocional, mas neste caso as emoções levam-no a uma atitude depressiva e auto-destrutiva, causada por pouca auto-estima. Vai dizer N coisas que activarão o teu sentimento de culpa, vai-te lembrar de como isto era importante para ele, de como o feriste na alma, e pode até chorar ou falar em suicídio. Sim, há pessoas assim.
  • O gajo C, por outro lado, não consegue esconder a tristeza durante meio segundo, mas rapidamente se controla, força um sorriso para não te preocupares, e diz “OK, eu compreendo; a gente fala depois.” Não se irrita, não faz birras, continuará a falar contigo sem problemas, e, se não fosse aquele meio segundo inicial, até acreditarias que ele realmente não deu qualquer importância à coisa.

Imagina que és tu (seja quem fores; este post não é decicado a ninguém especificamente) neste caso. Queres apostar como, quase de certeza, vais escolher decepcionar o gajo C?

E isso não te faz sentir injusto/a e cobarde?

A tua moralidade vem da Bíblia?

Sexta-feira, 30 de Janeiro, 2009

Eis o meu caso…

Your morality is 0% in line with that of the bible.

 

Damn you heathen! Your book learnin’ has done warped your mind. You shall not be invited next time I sacrifice a goat.

Do You Have Biblical Morals?
Take More Quizzes

P.S. – se por um lado o teste é divertido (e preocupante por eu apanhar as referências todas, sendo ateu, quando aposto que muitos crentes não o fariam), por outro lado acho que há pouca variedade nas respostas.

SPOILER (seleccionar com o rato até ao ponto final que se segue): há sempre duas mais ou menos civilizadas, e uma Bíblica, muitas vezes escolhida por ser uma atrocidade e/ou absurda. Em geral, esta é a última das três.

Coisas que me irritam, parte 4

Sábado, 17 de Janeiro, 2009

Pessoas que vêem certas escolhas que fazem como algo que as torna moralmente superiores às outras, quando as escolhas em questão não têm nada a ver com moralidade.

Exemplos:

  • praticar nudismo na praia
  • não ter sexo sem sentimentos ou uma relação assumida
  • ser vegetariano1
  • vestir-se de certa forma
  • não sair à noite
  • não consumir qualquer álcool

Repare-se, eu não estou a criticar qualquer dessas escolhas! Não é esse o tema do post. O que eu critico, e me irrita, é o facto de tratarem qualquer dessas escolhas como uma decisão moral, que os torna moralmente superiores a quem não a toma, quando nenhuma dessas decisões tem alguma coisa a ver com moralidade.

Afinal, não há crimes sem vítima.

Se praticas nudismo, é porque te sentes bem. Óptimo para ti. Não há nada de errado em fazê-lo. Mas achares que o nudismo te torna moralmente superior aos não-nudistas é absurdo. O mesmo para os outros exemplos. Só tens sexo num relacionamento? É contigo; ages assim porque te faz sentir bem. Mas não és, de maneira nenhuma, moralmente superior a quem faz sexo casual, que é algo feito consensualmente entre adultos e não faz ninguém sofrer de forma alguma2. A moralidade não pode ser separada do sofrimento (mais uma vez, a história dos crimes sem vítima).

OK, este foi comprido. 🙂

  1. este pode ser uma excepção, se a consideração for o sofrimento dos animais criados para consumo, mas muitas vezes a razão não é esta — e se fosse, então não se teria problemas em consumir um animal criado em condições decentes, e morto sem sofrimento, e aí já não se seria “vegetariano” anyway []
  2. excepto no caso de se estar a trair alguém; isso é imoral porque é desonesto e causa sofrimento à pessoa enganada, não pelo sexo em si. Fingir sentimentos não existentes para levar a outra pessoa para a cama também é imoral, e pelas mesmas razões []

Aborto: a vingança parte II

Quarta-feira, 31 de Janeiro, 2007

(ei, já vi títulos piores!)

Nota: o seguinte é adaptado e um pouco expandido de um comentário que fiz no blog do Mário Lopes. Uma boa parte do que se segue já foi dito noutros posts, recentemente, aqui, mas não exactamente por estas palavras… e nem tudo é repetido.

Tento, também, responder, finalmente, à questão do Samuel: “O que é que é um ser humano? Quando é que um feto se torna um ser humano?”, se bem que o comentário-tornado-post, em geral, não foi escrito para responder a essa questão, mas sim ao tal post do Mário Lopes. Daí ser expandido, e não copiado. 🙂

Without further ado…

(mais…)

Aborto: Resposta ao Sérgio, e desabafo

Quarta-feira, 24 de Janeiro, 2007

Comecei a escrever um comentário, mas ficou grande, e acho melhor que seja um post completo.

O teu post não é sobre o sofrimento. O teu post é que é um insulto a todas as pessoas que têm uma opinião diferente da tua. Tu generalizas e achas que todos os que vão votar não são retrógados religiosos. Dessa forma eu nunca poderei discutir o assunto contigo.

E acho piada que como eu acusei o teu post, tu assumiste imediatamente que eu era um dos do ‘não’. Eu nunca manifestei aqui a minha opinião sobre o aborto, apenas sobre a forma como tu abordas o tema que é com palas nos olhos. Aliás acho que tens vindo a colocar cada vez as palas mais apertadas.. O meu interesse neste blog desapareceu… ainda tinha alguma esperança, mas acho que se foi mesmo.

é menos uma feed no leitor.

Sérgio: não sei se ainda lerás isto, mas é uma pena. De qualquer forma, no outro post dos limites de velocidade, demonstraste que não lês os posts, já que tiraste uma conclusão completamente diferente do que eu escrevi, e acusaste-me de ter como único objectivo subir os limites de velocidade para poder andar aí como um louco a atropelar pessoas e provocar acidentes. Alguém que conclui isso 1) não leu nada do que escrevi, como disse, e 2) tem mesmo — sem me conhecer de lado nenhum — uma opinião muito baixa (e insultuosa, até) sobre mim.

Quanto ao resto, aquele meu post é sobre o sofrimento, sim. O sofrimento provocado ao longo da história, por causa de preconceitos, mentes fechadas, ignorância, religião, e o separar da moralidade do sofrimento (ou seja, a moralidade é agradar a alguma entidade, e se isso implica o sofrimento de milhões, paciência). Há mal quando essa moralidade leva as pessoas a causar o sofrimento de gerações após gerações. Repugna-me, como já disse várias vezes, essa separação da moralidade e do sofrimento. Repugna-me que alguém se veja como “defensor da vida” mas tenha um conceito tão limitado de “vida” que não tenha problemas em condenar pessoas (mães e filhos) a vidas inteiras de sofrimento — de “morte em vida”. Repugna-me que haja mais dor e agonia causados por estes “defensores da moralidade” do que por quem não se vê como tal — e que ninguém pareça reparar nisso; que ninguém seja capaz de dizer “o rei vai nu” em relação a esses “defensores”, de dizer que a “moralidade” que eles defendem não é realmente moral, que eles não falam pelo resto da humanidade.

Não sou relativista. Não vejo tudo na vida como uma simples “diferença de opinião”, em que uma é tão válida como a outra. Se uns querem aliviar o sofrimento e os outros o criam, sem terem nenhum problema com isso, não vou dizer que a moralidade de ambos é igualmente válida.

Ao fazer isto, sou “agressivo”, “insulto as opiniões dos outros”, e “tenho palas nos olhos”. Porque não devia importar-me e deixar que isto me afecte. E porque devia ser relativista, e não julgar, em vez de afirmar que há um lado certo e um lado errado.

Mas não sou assim. Se é alguém assim que querem, realmente estão no blog errado. Sorry.

Mais aborto… agora, outras opiniões

Terça-feira, 23 de Janeiro, 2007

Do meu lado, acho que não vou acrescentar muito mais à questão. Já fui insultado por ter a minha opinião, por ter pensado nela, e por estar certo da mesma, quando hoje em dia é considerado “arrogante” ter uma opinão forte baseada no pensamento; só se aceita uma opinião forte baseada em emoções. Ou em autoridade, ou em religião, ou… Bah.

De qualquer forma, se alguém quiser comentar os meus posts anteriores, e, para variar, quiser responder ao que eu escrevi (em vez de se limitar a dizer que “sou muito agressivo”), tal será apreciado.

Neste post, vou apenas mencionar o que outros disseram (fora deste blog) sobre esta questão.

Primeiro, um post da namorada, chamado A Interrupção Voluntária da Gravidez…. É um bocado mais detalhado do que os meus, e acho que mostra bem os dois lados da questão. Vá, leiam e comentem. 🙂 Inclui argumentos como este:

Para quem não sabe, até às 10 semanas há muitas mulheres que nem têm uma gravidez confirmada e que têm aborto espontâneo sem que soubessem que estavam grávidas. O próprio corpo se encarrega de “expulsar” fetos com problemas graves, é parte da “selecção natural” de Darwin, a não-sobrevivência dos fracos, dos inviáveis.

Logo, segundo a moralidade dos “nãos” (que confundem um ser humano com um aglomerado de células que é um potencial ser humano), quase todas as mulheres com vida sexual são “mass murderers” e nem o sabem…

Depois, quero mostrar um post que considero ser totalmente ridículo. Vem de um partido americano, “America First Party”, que é basicamente mais republicano do que os Republicanos. O post chama-se… wait for it… Abortion Leads to Nuclear War. Sim, parece que a Madre Teresa (que pode ter sido muitas coisas, mas não era, de certeza, uma pessoa inteligente ou culta – ou então era muito mentirosa, porque sem dúvida dizia grandes disparates) disse algo desse género, e os fanáticos de todo o mundo pegam nisso. Portanto, já sabem – não querem ver cogumelos enormes no horizonte, não abortem. Ah, e…

It is abhorrent that abortion supporters choose to hide behind the term ‘choice’ to mask their goal of destroying unborn children and promoting immoral behavior without responsibility

Destruir crianças! Que horror! Que tipo de monstro desumano e cruel quereria alguma vez fazer tal acto hediondo? 😯

É claro que as coisas não são bem assim. Sugiro-vos esta alternativa… deixem se ser um aglomerado irracional e disforme de emoções, e sejam humanos: pensem um pouco. Como este post, em resposta ao comunicado anterior, diz,

nuclear bombs have been used once in war, and I seriously doubt the bombing of Hiroshima and Nagasaki had anything to do with abortion, considering it wasn’t legal in the US in 1945.

E, em resposta à idiotice de “destruir crianças” citada anteriormente,

Let me tell you right now, no one wants to destroy children. It’s just that sometimes an abortion is the only option a mother may have to keep from ruining her life or the lives of her future children. Life is not always fair or simple. That’s the way it is. I wish we could all live in a dream world of magic, but we don’t, and trying to legislate it into reality won’t make it so.

Não teria dito melhor.

Aborto e sofrimento

Quinta-feira, 18 de Janeiro, 2007

Em resposta aos vários comentários em Aborto e Controlo:

Um feto não é um ser humano, é um potencial ser humano. Pô-lo acima de um ser humano VIVO, que pensa e sente, é absurdo.

E é curioso que já mencionei isso no outro post várias vezes, mas nenhum dos pró-nãos comenta: e a questão do sofrimento? A questão de estarem a condenar, muitas vezes, tanto a mãe como a eventual criança a uma vida de dor, sofrimento e tristeza? Isso não vos incomoda, pois não? Serem “protectores da vida” faz-vos sentir muito heróicos, muito morais, e estão-se nas tintas para o resto.

“Vida” é muito mais do que um coração estar a bombear sangue. Mas para vocês, só isso é que conta.

Mais uma vez: não querem abortar? Não abortem. Mas deixem os outros em paz.

Gente como vocês já atrasou a medicina em séculos, por fazer com que autópsias fossem tabu. Já atrasou a ciência em séculos, por perseguir cientistas que afirmavam coisas contrárias à posição da igreja.

Gente como vocês tentou impedir o fim da escravatura há alguns séculos, porque na Bíblia esta é aceite como algo normal. Tentou impedir o uso de anestesia no parto, porque a dor do mesmo era suposto ser o castigo de Deus a Eva e descendentes.

Gente como vocês tem feito com que gerações após gerações, em países mais pobres, vivam em fome e miséria, devido à condenação do uso de contraceptivos. Tem impedido que se cure doenças como a de Parkinson, porque isso envolve tipos de pesquisa que ofendem as vossas susceptibilidades.

E agora não têm nenhum problema em condenar mulheres e crianças a vidas inteiras de sofrimento, só por causa de “slogans” retrógrados que têm nas cabecinhas sem realmente terem alguma vez pensado no assunto.

A sério, deixem o mundo em paz. Já provocaram mal que chegue.

Tenho um novo blog! :)

Quinta-feira, 21 de Julho, 2005

Chama-se Way of the Mind, e é em Inglês. Ao contrário deste, não é pessoal (isto é, sobre mim e a minha vida), mas sim uma série de pensamentos e ideias sobre diversos temas. O que me vier à cabeça, basicamente. Aceita comentários, mas todos os posts na página principal serão meus.

Espero que gostem… 😉