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Greta Christina: música nova, nostalgia, e o perigo de se ficar um “velho resmungão”

Terça-feira, 5 de Maio, 2009

(Nota: este é o primeiro de 3 artigos a divulgar e comentar posts recentes da Greta Christina, cujo blog é das coisas mais inteligentes e interessantes que para aí andam.)

O post em questão chama-se Against Nostalgia, or, I’m In Love with the Modern World: On Not Being a Crank, Part 2. Título um bocado grande 🙂 , mas faz sentido. Como o mesmo implica, é a continuação de outro post dela, ambos tendo como tema a preocupação dela de, com a idade, não ficar “resmungona”, fechada, presa aos seus hábitos, a dizer mal de tudo o que é novo, e assim por diante. Mais ou menos como estes tipos (ela própria usa esta imagem):

velhos-marretas

Neste caso específico, ela refere-se à música, mas o que ela aqui diz podia adaptar-se a qualquer outro campo. Ela avisa quanto à possibilidade de ficarmos presos à nostalgia (coisa muito forte em mim, se bem que não acho que ela me limite, pelo menos por agora – but, then again, tenho uns meros 34 anos), que facilmente faz com que vejamos o passado – quase sempre, a época da nossa adolescência ou princípio dos “vintes” – com “óculos cor-de-rosa”, e fiquemos presos a isso, rejeitando tudo o que há de novo. Ela propõe-se o seguinte:

Listen to music that’s being made now.

My rule is this: I don’t let myself just listen to music that was recorded when I was in college and my early twenties (or earlier). I make a conscious effort to listen to at least some music that’s being made now, by musicians and bands who are still alive and still working. (And no, reunion tours don’t count.)

Olhando para mim, eu acho que não estou (para já) muito mal neste aspecto. É certo que muita da música que ouço – Black Sabbath, Pink Floyd e afins – tem origens relativamente antigas (anos 60), se bem que continuaram a fazer música nova até aos anos 90, e eu continuei a segui-la (ou explorá-la, no caso dos Pink Floyd, que só “descobri” bem depois). É também certo que o que ouço em geral não está de forma alguma na moda, se bem que me posso orgulhar de isso não ter qualquer influência nos meus gostos – ou seja, se por um lado não ouço algo só por estar na moda, também não o ouço só por não estar, ou não deixo de o ouvir só por estar. O anti-conformismo cego é tão estúpido e “em segunda mão” como o conformismo cego. 🙂

Acredito também que não rejeito algo – banda, álbum, música – só por ser novo. Em geral afasto-me um bocado da rádio e afins, mas não por na mesma se ouvir música moderna; é, sim, por se ouvir música de plástico, comercial, e em geral toda igual. Não assumo isso em relação a tudo o que se faz; apenas àquilo que, por razões comerciais compreensíveis, as rádios em geral passam. Mas se me mostrarem algo muito bom e for o primeiro álbum de um novo artista ou banda, vamos a isso. Acredito que isso ainda é assim. Por outro lado, é um facto que continuo a seguir bandas da minha “juventude”, como Iron Maiden, Judas Priest, Blind Guardian, ou membros e ex-membros dos Black Sabbath.

Mas muita gente que seja tão ou mais discernente do que eu, e em idades semelhantes ou superiores à minha, dirá que “a música de hoje é toda igual, é toda uma merda”. Será verdade? Eu próprio tenho um pouco essa ideia (se bem que estou sempre preparado para abrir excepções). Mas a Greta Christina diz algo em que ainda não tinha pensado:

I think there are two things that make it easy to think everything was better in the good old days. There’s Sturgeon’s Law — and there’s the filtering process of time.

Sturgeon’s Law states, quite simply, that 90% of everything is crap. Romantic comedies, symphonies, science fiction novels, porn videos, dress designs, epic poems, comic books, popular music… 90% of all of it is crap.
But time has a tendency to filter out the crap. We don’t listen to the mediocre 18th century operas; we don’t read the mediocre 19th century novels; we don’t watch the mediocre silent movies. We listen to Mozart, read Jane Austen, watch Buster Keaton. We listen to Janis Joplin and The Who. “To Sir With Love”? Not so much.

It’s not a perfect filtering process. Some good stuff gets filtered out; some mediocre crap gets through the screen. But on the whole, we let the crap get swallowed into the maw of history, and hang onto the good stuff. Which makes it very, very easy to mistakenly think that the operas and novels and movies and popular songs of the old days were so much better than any of the crap they’re making today.

Acho que isto é inteiramente verdade. Acrescentaria ainda que uma música que conhecemos e ouvimos há anos é como um “velho amigo”; conhecemos cada nota, cada sílaba. Algo acabado de ouvir pela primeira vez, sobretudo em géneros mais complexos, soa… estranho; muitas vezes um álbum inteiro parece “todo igual”, porque as melodias precisam de algum tempo para serem absorvidas. A música, tal como o vinho 🙂 é, em grande parte, um gosto adquirido – se rejeitamos algo à primeira vista (ou audição, neste caso), estamos a pôr de parte coisas que poderíamos vir a adorar.

Relativamente ao “dantes era tudo muito melhor”, querem um desafio? Pensem naquela que consideram a “época de ouro” da música, aquela altura em que adoravam o que se fazia na altura, aqueles anos nos quais se inclui mais de metade da vossa colecção de MP3s. Provavelmente é a vossa adolescência. É bem provável que sejam os anos 80.

Agora, investiguem o que estava nos tops em várias semanas / meses nesses anos. Não apenas as músicas da altura que ouvem hoje. Vejam mesmo o que estava efectivamente nos tops. Há formas (a net é uma delas, assinar a Retro Gamer é outra 🙂 ) de o saber.

E digam lá quantas músicas conhecem. E quantas foram esquecidas pelo mundo desde essa altura. Vejam também quão horríveis algumas são. 🙂

You know what? If what you truly love is old- time bluegrass or ’60s psychedelia? That’s cool. It might behoove you to check out some modern music anyway — there are contemporary musicians doing some interesting interpretations of bluegrass and psychedelia — but life is too short to listen to music that you hate. There are wonderful things from the past, and by all means, we should be enjoying them and preserving them and keeping them alive.

But we shouldn’t treat our aesthetic preferences as a moral imperative. We shouldn’t pretend that it’s a serious life philosophy to gripe about kids these days and their crazy fashions. We shouldn’t act as if shutting out the modern world somehow makes us discerning and superior.

Adoro o último parágrafo. E isto é algo que vejo, infelizmente, em pessoas até mais novas do que eu: tratar o “só gosto disto” como uma questão de princípios a não trair, fechar-se completamente a coisas novas, e achar que dizer mal de tudo os faz ser (ou pelo menos parecer) superiores. É triste.

Discussão e Agressividade

Terça-feira, 10 de Fevereiro, 2009

We must begin with a few round truths about myself: when I get into a debate I can get very, very hot under the collar, very impassioned, and I dare say, very maddening, for once the light of battle is in my eye I find it almost impossible to let go and calm down. I like to think I’m never vituperative or too ad hominem but I do know that I fall on ideas as hungry wolves fall on strayed lambs and the result isn’t always pretty. This is especially dangerous in America. I was warned many, many years ago by the great Jonathan Lynn, co-creator of Yes Minister and director of the comic masterpiece My Cousin Vinnie, that Americans are not raised in a tradition of debate and that the adversarial ferocity common around a dinner table in Britain is more or less unheard of in America. When Jonathan first went to live in LA he couldn’t understand the terrible silences that would fall when he trashed a statement he disagreed with and said something like “yes, but that’s just arrant nonsense, isn’t it? It doesn’t make sense. It’s self-contradictory.” To a Briton pointing out that something is nonsense, rubbish, tosh or logically impossible in its own terms is not an attack on the person saying it – it’s often no more than a salvo in what one hopes might become an enjoyable intellectual tussle. Jonathan soon found that most Americans responded with offence, hurt or anger to this order of cut and thrust. Yes, one hesitates ever to make generalizations, but let’s be honest the cultures are different, if they weren’t how much poorer the world would be and Americans really don’t seem to be very good at or very used to the idea of a good no-holds barred verbal scrap. I’m not talking about inter-family ‘discussions’ here, I don’t doubt that within American families and amongst close friends, all kinds of liveliness and hoo-hah is possible, I’m talking about what for good or ill one might as well call dinner-party conversation. Disagreement and energetic debate appears to leave a loud smell in the air.

Stephen Fry, 2007

Ao trocar ontem uns mails com aquela que ultimamente tem sido a comentadora mais frequente no Ostras, e que coincidentalmente ou não (ler o excerto acima) está a viver em Inglaterra há já algum tempo, lembrei-me de uma entrada no blog do Stephen Fry (entre muitas outras coisas, é o Melchett e o Wellington no Blackadder), escrita estando ele a viajar pelos EUA, e em que ele fala das diferenças entre as culturas inglesa e americana ao discutir – que, mesmo sem entrar em ataques pessoais, a forma de discutir no UK tende a chocar os americanos pela sua agressividade. Leiam o excerto acima, se não o fizeram já.

Eu confesso que cresci a acreditar que atacar ideias (ao invés de atacar pessoas) nunca seria encarado por nenhum ser racional como um ataque pessoal, nem devia ferir sentimentos ou susceptibilidades, mas o que é facto é que a vivência ensinou-me que a realidade é – infelizmente – bem diferente. Talvez por isso, tendo participado em muitas discussões, tanto cara-a-cara como em vários blogs – incluindo este, mas sobretudo o Way of the Mind –, seja bem mais “soft” no meu ataque às ideias de outra pessoa, quando as considero erradas, absurdas, auto-contraditórias e oriundas de a pessoa nunca ter pensado muito na questão, ou ter dificuldade em questionar coisas em que sempre acreditou. Não devia ser preciso, mas é… ou será?

É verdade que a maior parte das pessoas não consegue separar as ideias dos donos delas – sobretudo quando se trata do seu próprio caso. Dizer algo tipo “estás errado, por isto, isto e isto” não devia nunca ser ofensivo – pode ser uma “waking call”, e uma pessoa arrogante e orgulhosa pode sentir-se humilhada e ferida no seu orgulho, mas não é uma ofensa pessoal, e só um idiota é que o encara como tal. Mas, infelizmente, é – e eu próprio noto que caí na armadilha, já que, apesar de não ter papas na língua a criticar coisas como a religião em posts, tenho especial cuidado para não ofender visitantes em respostas aos comentários deles. Simpatia e cortesia são coisas positivas, sem dúvida, mas será que sou cuidadoso demais?

Opiniões?

Anti-intelectualismo

Segunda-feira, 25 de Dezembro, 2006

Para começar, algumas definições:

  • primeiro, há o Intelectualismo: dar especial valor à inteligência, pensamento e educação.
  • depois, há a “Normalidade”, ou “não-intelectualismo”, em que não se dá o valor mencionado acima. Isto não é anti-intelectualismo.
  • finalmente, há o Anti-intelectualismo: o desprezo pela inteligência, pensamento, e educação. A crença de que são esses valores que são responsáveis pela maioria dos males no mundo, pela maior parte do sofrimento humano. Uma tentativa de evitar ao máximo essas características em nós próprios, e a denegrição desses valores nos outros.

Já sei que a maioria não concordará comigo, mas eu acho, depois de já ter pensado exaustivamente no assunto, que os últimos são dos seres mais desprezíveis à face da terra.

(Mais uma vez: não me refiro aos não-intelectuais, mas sim aos anti-intelectuais. E isto não tem a ver com inteligência, mas com valores.)

São seres que se opõem a tudo o que há de bom, a tudo o que se cria, inventa ou produz. São seres para quem a mediocridade é das maiores qualidades a atingir. São vermes que gostariam de ver a humanidade como na pré-história ou idade média: cheia de doenças incompreensíveis (que devem ser castigo “divino”), aterrorizada por “demónios”, na podridão e imundície, supersticiosa, e a morrer-se de idade aos 25-30 anos.

É escumalha para a qual todo o pensamento é suspeito e perigoso, toda a invenção é “maligna” porque vai alterar o que é confortável (e pode, horror dos horrores, obrigar a aprender coisas novas), tudo o que melhora a vida da humanidade é indesejado. São seres para quem a vida humana é, necessariamente, sofrimento, e a única forma de o suportar é “desligar”, é não pensar nem sentir nada, é entrar num estado de apatia estúpida, de torpor anestesiado.

Isto parece extremo, não é? Afinal, nunca ouviste ninguém a dizer, explicitamente, “odeio o pensamento! estaria tudo melhor se as pessoas não pensassem tanto, não soubessem tanto!” (ou, se calhar, ouviste… o que é assustador).

Mas é esse o objectivo de todos aqueles que dizem que a mente humana é falível, é imperfeita, que há algo superior, “mais elevado”, acima do “parco” raciocínio humano. Aqueles que dizem que “os estúpidos é que são felizes”. Aqueles que olham para qualquer tecnologia, qualquer invenção, qualquer progresso, qualquer descoberta, responsável por aliviar o sofrimento humano, com desdém. Com ódio, raiva, ressentimento.

Afinal, se nos convencemos de que o fracasso é inevitável, e que a única coisa a fazer é “desligar a mente”, então alguém que não fracasse é uma ameaça ao “mundo” que construímos…

E, sim, este assunto não fica por aqui. 😉

Tenho um novo blog! :)

Quinta-feira, 21 de Julho, 2005

Chama-se Way of the Mind, e é em Inglês. Ao contrário deste, não é pessoal (isto é, sobre mim e a minha vida), mas sim uma série de pensamentos e ideias sobre diversos temas. O que me vier à cabeça, basicamente. Aceita comentários, mas todos os posts na página principal serão meus.

Espero que gostem… 😉