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Referendos, democracia e controlo

Terça-feira, 6 de Fevereiro, 2007

Já outros o disseram (e não podia recomendar mais a leitura desse post, que considero brilhante), e eu próprio já o mencionei no primeiro post sobre o aborto, mas acho que isso merece ser frisado mais uma vez, e expandido: não deveria haver referendo.

O problema de um referendo como este é o problema da democracia directa em geral: é uma ditadura da maioria. Se não há um conjunto de direitos individuais inalienáveis, e completamente acima da “vontade do povo”, então existe um problema: uma maioria pode “sacrificar” uma minoria.

O post para o qual linkei acima dá um bom exemplo: as praias de nudismo. A maior parte das pessoas no país (incluindo eu próprio) não faz nudismo quando vai à praia; logo, o que aconteceria se se fizesse um referendo nesse sentido, de forma a aplicar uma lei ao país inteiro? É certo que haveria alguns “ajuizados” que, mesmo sem o praticarem, votariam para que este não fosse totalmente proibido, mas acredito que, mesmo assim, o “não” ganharia. A maioria que é contra o nudismo (ao contrário de simplesmente não o praticar) está em maior número do que a soma dos que o querem praticar e dos que não o praticam mas não querem impor a sua moralidade a outros. Assim sendo, não haveria praias reservadas para nudistas; simplesmente, seria proibido, e quem quer que o praticasse estaria sujeito a multas ou prisão.

Democrático? Sim. Injusto? Sem dúvida. E é por isso que, em vez de se fazer um referendo, se definiu praias especialmente para nudistas. Provavelmente ainda há uns moralistas que acham que qualquer tipo de nudismo público, seja onde for, é “pecaminoso”, e que se sentem incomodados por saberem que alguém, em algum lado, está nu numa praia (nem que seja a 300 km dali) mas não podem fazer nada a respeito disso.

Um outro exemplo: a maior parte dos países árabes, acreditem ou não, tem governantes bem mais liberais do que o povo dessas mesmas nações. Se num país como a Arábia Saudita, Síria, Irão, etc., se fizesse um referendo em relação aos direitos das mulheres, elas ficariam muito pior do que estão actualmente (o que já é bem mau). Ou se houvesse um referendo relativamente ao que fazer aos “infiéis”, em breve os apedrejamentos estariam legislados (não apenas permitidos, mas obrigatórios). O povo é mais fanático e mais brutal do que os governantes. Se houvesse “democracia” total, haveria muito menos justiça e muito menos liberdade. A maioria esmagaria as minorias.

Tal como disse Larry Flynt, uma democracia que esteja acima dos direitos individuais é o equivalente a três lobos e uma ovelha a votar sobre o que vai ser o jantar.

O caso actual é mais do mesmo. Não deveria haver referendo, porque este acaba por dar poder a um grupo a querer controlar o que os outros podem ou não fazer, violando assim os seus direitos individuais — e esse grupo é suficientemente grande para o conseguir “democraticamente”. E, por isso, o facto de haver este referendo é de uma cobardia tremenda da parte do PS, que tem maioria absoluta e é, supostamente, a favor do “sim”. Não se trata de “o povo decidir”; há direitos individuais que devem estar acima da vontade do povo, e que não estão a ser respeitados. E qualquer governo que se preze deveria ter como papel principal proteger esses direitos.

Um governo que não o faça… não serve para nada.

Aborto: Resposta ao Sérgio, e desabafo

Quarta-feira, 24 de Janeiro, 2007

Comecei a escrever um comentário, mas ficou grande, e acho melhor que seja um post completo.

O teu post não é sobre o sofrimento. O teu post é que é um insulto a todas as pessoas que têm uma opinião diferente da tua. Tu generalizas e achas que todos os que vão votar não são retrógados religiosos. Dessa forma eu nunca poderei discutir o assunto contigo.

E acho piada que como eu acusei o teu post, tu assumiste imediatamente que eu era um dos do ‘não’. Eu nunca manifestei aqui a minha opinião sobre o aborto, apenas sobre a forma como tu abordas o tema que é com palas nos olhos. Aliás acho que tens vindo a colocar cada vez as palas mais apertadas.. O meu interesse neste blog desapareceu… ainda tinha alguma esperança, mas acho que se foi mesmo.

é menos uma feed no leitor.

Sérgio: não sei se ainda lerás isto, mas é uma pena. De qualquer forma, no outro post dos limites de velocidade, demonstraste que não lês os posts, já que tiraste uma conclusão completamente diferente do que eu escrevi, e acusaste-me de ter como único objectivo subir os limites de velocidade para poder andar aí como um louco a atropelar pessoas e provocar acidentes. Alguém que conclui isso 1) não leu nada do que escrevi, como disse, e 2) tem mesmo — sem me conhecer de lado nenhum — uma opinião muito baixa (e insultuosa, até) sobre mim.

Quanto ao resto, aquele meu post é sobre o sofrimento, sim. O sofrimento provocado ao longo da história, por causa de preconceitos, mentes fechadas, ignorância, religião, e o separar da moralidade do sofrimento (ou seja, a moralidade é agradar a alguma entidade, e se isso implica o sofrimento de milhões, paciência). Há mal quando essa moralidade leva as pessoas a causar o sofrimento de gerações após gerações. Repugna-me, como já disse várias vezes, essa separação da moralidade e do sofrimento. Repugna-me que alguém se veja como “defensor da vida” mas tenha um conceito tão limitado de “vida” que não tenha problemas em condenar pessoas (mães e filhos) a vidas inteiras de sofrimento — de “morte em vida”. Repugna-me que haja mais dor e agonia causados por estes “defensores da moralidade” do que por quem não se vê como tal — e que ninguém pareça reparar nisso; que ninguém seja capaz de dizer “o rei vai nu” em relação a esses “defensores”, de dizer que a “moralidade” que eles defendem não é realmente moral, que eles não falam pelo resto da humanidade.

Não sou relativista. Não vejo tudo na vida como uma simples “diferença de opinião”, em que uma é tão válida como a outra. Se uns querem aliviar o sofrimento e os outros o criam, sem terem nenhum problema com isso, não vou dizer que a moralidade de ambos é igualmente válida.

Ao fazer isto, sou “agressivo”, “insulto as opiniões dos outros”, e “tenho palas nos olhos”. Porque não devia importar-me e deixar que isto me afecte. E porque devia ser relativista, e não julgar, em vez de afirmar que há um lado certo e um lado errado.

Mas não sou assim. Se é alguém assim que querem, realmente estão no blog errado. Sorry.

Aborto e sofrimento

Quinta-feira, 18 de Janeiro, 2007

Em resposta aos vários comentários em Aborto e Controlo:

Um feto não é um ser humano, é um potencial ser humano. Pô-lo acima de um ser humano VIVO, que pensa e sente, é absurdo.

E é curioso que já mencionei isso no outro post várias vezes, mas nenhum dos pró-nãos comenta: e a questão do sofrimento? A questão de estarem a condenar, muitas vezes, tanto a mãe como a eventual criança a uma vida de dor, sofrimento e tristeza? Isso não vos incomoda, pois não? Serem “protectores da vida” faz-vos sentir muito heróicos, muito morais, e estão-se nas tintas para o resto.

“Vida” é muito mais do que um coração estar a bombear sangue. Mas para vocês, só isso é que conta.

Mais uma vez: não querem abortar? Não abortem. Mas deixem os outros em paz.

Gente como vocês já atrasou a medicina em séculos, por fazer com que autópsias fossem tabu. Já atrasou a ciência em séculos, por perseguir cientistas que afirmavam coisas contrárias à posição da igreja.

Gente como vocês tentou impedir o fim da escravatura há alguns séculos, porque na Bíblia esta é aceite como algo normal. Tentou impedir o uso de anestesia no parto, porque a dor do mesmo era suposto ser o castigo de Deus a Eva e descendentes.

Gente como vocês tem feito com que gerações após gerações, em países mais pobres, vivam em fome e miséria, devido à condenação do uso de contraceptivos. Tem impedido que se cure doenças como a de Parkinson, porque isso envolve tipos de pesquisa que ofendem as vossas susceptibilidades.

E agora não têm nenhum problema em condenar mulheres e crianças a vidas inteiras de sofrimento, só por causa de “slogans” retrógrados que têm nas cabecinhas sem realmente terem alguma vez pensado no assunto.

A sério, deixem o mundo em paz. Já provocaram mal que chegue.

Aborto e controlo

Quarta-feira, 8 de Novembro, 2006

O segundo referendo sobre a descriminalização do aborto em Portugal aproxima-se, e, como é óbvio, há alguma polémica sobre o assunto.

Assim sendo, tenho de dar a minha opinião. Se, por um lado, ela deverá ser mais ou menos óbvia para quem já me conhece, por outro lado, talvez não estejam à espera dos motivos que vou dar.

Para começar: acho que não deveria haver referendo. A lei actual devia simplesmente ser anulada como sendo um atentado à liberdade individual, como tratando-se de algo sobre o qual o Estado nem devia sequer poder legislar (da mesma forma que não pode legislar a decoração interior da minha casa). O que a maioria quer nunca se pode sobrepôr aos direitos individuais de cada um. Uma maioria não pode decidir que este ou aquele se sacrificam pelo todo, e não deveria ter qualquer poder sobre o que cada um faz, desde que os direitos individuais de todos sejam respeitados. A criminalização do aborto é equivalente às leis de proibição da sodomia que existem ainda (sim, no século XXI) em vários estados dos EUA (a maioria no sul). Leis que proibem algo feito entre adultos, consensualmente. Leis absolutamente anti-constitucionais, violadoras da liberdade individual, que provêm de mentalidades retrógradas, e têm origem religiosa (para não variar).

A maioria nunca deve ter poder sobre os direitos e a liberdade de um indivíduo. Caso contrário, como outros já disseram, temos o equivalente a três lobos e uma ovelha a votar o que vai ser o jantar.

Neste caso, acho que isto vai mais longe. A origem desta questão é algo mais fundamental do que razões religiosas, de “onde é que começa a vida”, de existir ou não uma alma, dos direitos das mulheres, de puritanismo ou “promiscuidade”, de se ser liberal ou conservador, de o sexo por prazer (em vez de para fins reprodutivos) ser ou não uma coisa “pecaminosa”.

Passo a citar o Robert A. Heinlein:

Political tags — such as royalist, communist, democrat, populist, fascist, liberal, conservative, and so forth — are never basic criteria. The human race divides politically into those who want people to be controlled and those who have no such desire.

Percebem? Mais do que religião e afins, trata-se de controlo.

Uns limitam-se a querer liberdade. Liberdade para decidir, para fazer o que quiser com a sua vida. Querem, no fundo, que os deixem em paz.

Os outros não. Não lhes basta já poderem decidir por si (afinal, ninguém os vai forçar, ou às suas mulheres, a abortar). Não. Querem decidir o que os outros podem ou não fazer. Querem que a raça humana seja controlada segundo o que eles acham certo e errado.

Hipócritas. Com que direito decidem e controlam eles o que os outros podem fazer? Com que direito impõem eles a sua moralidade ao resto das pessoas?

Acho que uma frase que vi uma vez diz tudo: “És contra o aborto? OK, não abortes.”

Fascismo?

Quarta-feira, 14 de Junho, 2006

Sim, é um tema estranho para este blog, que em geral é pessoal. Mas, depois de uma conversa que tive há dias com um amigo, não posso deixar de comentar o assunto aqui.

Basicamente, esse meu amigo estava a dizer-me que “pode haver alguma verdade ali”, que movimentos ou partidos com palavras como “nacional”, “frente” ou “renovação” no nome não são tão maus como os pintam, que o que os define é “Portugal primeiro” e não propriamente xenofobia, que, mais do que serem contra quem nasceu noutro país ou tem a pele de outra cor, eles são é contra criminosos, que são mais “puros” e menos corruptos do que os partidos “mainstream”, e afins.

É uma pena esse meu amigo não conhecer muito da história do século XX. Se a conhecesse, não cairia nesta armadilha.

O fascismo, historicamente, obtém sucesso de três formas: primeiro, porque promete soluções fáceis e simples para problemas complexos. Tão fáceis e simples que deveriam, imediatamente, parecer suspeitas para quem as ouve… mas o wishful thinking é sempre forte. Segundo, porque diz às pessoas o que elas querem ouvir, mas até há pouco tinham vergonha de pensar: que não têm qualquer culpa ou responsabilidade pelos seus problemas – é tudo culpa “daqueles tipos diferentes de nós”. Terceiro – e talvez mais importante – o fascismo sabe, muito bem, converter as pessoas gradualmente.

Ninguém começa a falar de isolamento extremo, de campos de concentração e afins. No início, somos contra os criminosos – e nesta altura são mesmo criminosos: assassinos, violadores, ladrões, etc..

Mas, depois, começa-se a redefinir o termo “criminosos”. E, depois de se lidar com os mesmos, o inimigo passa a ser “aqueles diferentes de nós” (nacionalidade, etnia, etc.). De seguida, passa-se para “aqueles que não concordam connosco”. Ou “aqueles que não obedecem”. E aí é tarde demais, e a coisa só se resolve – muitas vezes, décadas depois – com uma revolução… ou uma guerra.

Já aconteceu várias vezes na história do passado século. E parece que as pessoas não aprendem, e continuam a cair nas mesmas armadilhas: “oh, ninguém está a falar em verdadeiro racismo! Só somos mais duros com os criminosos, e queremos impedir a imigração ilegal! Estás-nos a comparar com um Hitler por causa disso?”

Pessoal, aprendam história. Nada disto é novo, e se não aprendemos com o passado, estamos condenados a repetir os mesmos erros.

Eat that, Bush!

Sexta-feira, 24 de Fevereiro, 2006

Adorei este artigo no Sydney Morning Herald. É pena os jornais nos EUA não terem tomates para um artigo destes. 🙂

THE torrent of criticism has been extraordinary. For most of the week, on virtually every radio station, Americans have heaped scorn on the Bush Administration.

Conservative radio shock-jocks have talked about organising demonstrations outside the White House. And on the ubiquitous cable television networks, even Fox News, the outpouring of alarm has not let up – indeed, it only increased after a shaken George Bush told Americans they had nothing to worry about.

Picture a potent mix of latent anti-Arab sentiment in America, growing concern the Bush Administration is dysfunctional and politically inept, and a sense that Mr Bush can no longer be trusted with national security. That is behind the furore over the approval of the takeover by an Arab company of terminals at six US ports.

E isso é só o início…

Eleições

Domingo, 22 de Janeiro, 2006

Parece que o Cavaco ganhou. Já era de esperar.

(Cuidado – apesar de não falar de política, vou falar de políticos. Ainda vão a tempo de não ler o resto do post…)

Não acho que isto faça uma diferença por aí além, já que em Portugal o presidente da república praticamente não tem poderes – tradicionalmente, “não faz nada”, excepto viajar, e dar a cara pelo país.

Ainda me lembro do Cavaco enquanto primeiro-ministro, e aí a minha ideia sobre ele era bastante negativa, se bem que, por outro lado, na altura percebia ainda menos de política do que agora (além de, é claro, ser um jovem inconsciente). A minha ideia era de que ele era arrogante e autoritário – quase ditatorial.

Desde aí tivemos o Guterres, que me deixou indiferente, o Durão, que achei irritante, o Santana, que me enojou, e agora o Sócrates, que me deixa outra vez indiferente (parece ser uma constante, no PS). Como presidentes, depois do Soares, que viajou e viajou e viajou mais um bocado, tivemos o Sampaio, que, para mim, fez uma grande coisa – chutar o Santana, depois de lhe dar 4 meses para se enterrar – bem mais sádico do que se tivesse convocado logo eleições 🙂 – e agora vamos ter o Cavaco.

Que, for some reason, já não me incomoda tanto como há uns anos. Talvez por o ver agora como sendo um pouco reservado, tímido e anti-social, menos à vontade que os outros – por alguma razão, tipos ultra-populares e ultra-sociáveis sempre me pareceram suspeitos, e aqui nem estou necessariamente a falar de políticos. Talvez por ver que ele até é, de certa forma, um tipo competente – sem dúvida, bem mais do que a maioria dos que se seguiram. Talvez também por ver que “arrogante” é, em imensos casos, não verdadeira arrogância, mas sim a mera consciência das nossas capacidades, o que irrita muita gente, que está consciente da sua própria mediocridade, e gostaria de reduzir o resto do mundo ao seu nível. Por outras palavras, a ideia de que “ninguém é melhor do que ninguém” é colectivismo puro, da parte de quem quer baixar o resto do mundo ao seu próprio nível de mediocridade – e, por conseguinte, é “pure evil”.

Também aumentou o meu respeito por ele quando ele se recusou a apoiar a campanha do Santana. 🙂 Comprendo-o perfeitamente – eu também não gostaria de aparecer num cartaz ao lado daquilo. 🙂

Entretanto, a vida continua. E os meus planos sinistros seguem em frente… 😈

O tempo

Domingo, 9 de Outubro, 2005

Acabei de me levantar. Olhando pela janela, parece quase noite.

Não, não é outro eclipse. São nuvens, mesmo. Muitas, e bem escuras. E parece que está a chover um pouco, também, ou pelo menos esteve.

O ForecastFox diz que Lisboa está “mostly cloudy”, e para hoje prevêem “variable clouds, showers”.

Acho que já era tempo.

Hmm, hoje há eleições.

Eleições autárquicas

Sexta-feira, 7 de Outubro, 2005

Não podia concordar mais com isto. É daquelas coisas que, se 50% das pessoas seguissem isto, em meia dúzia de anos, em vez de estarmos na cauda da Europa, a europa é que seria a nossa cauda. Or something. 🙂