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Coisas que acho estranhas, parte 2

Quinta-feira, 5 de Novembro, 2009

(pensavam que me tinha esquecido desta série, não pensavam?)

Pessoas que mudam completamente de atitude, personalidade e aparente opinião em relação a nós de uns dias para os outros, de uma forma que (na minha opinião) vai muito para além de um mero resultado de um estado de espírito.

Repare-se, eu compreendo perfeitamente que uma pessoa “tenha dias”. Acontece comigo também, e com toda a gente, imagino. É naturalíssimo que nuns dias estejamos mais bem dispostos do que outros. Que nuns dias nos apeteça ter conversas “banais” e noutros não tenhamos qualquer paciência para trivialidades. Que nuns dias estejamos mais sociáveis, e noutros queiramos a paz e sossego só encontráveis na solidão. Que em certas alturas estejamos optimistas e vejamos o lado bom de tudo, e noutras alturas seja exactamente o oposto. Até — e isto é perfeitamente natural e não tem mal nenhum — que ocasionalmente não nos apeteça uma companhia que em geral apreciamos e procuramos.

Eu não me estou a referir a isso.

Refiro-me mesmo a mudanças tão dramáticas que, se tivesse os pés um pouco menos assentes na terra, me fariam pensar em “evil twins”, “shapeshifters”, ou algum outro tipo de conspiração em geral só encontrável na ficção científica.

Refiro-me a pessoas, com quem já tivemos confiança e proximidade (e não, não estou a falar desse tipo de proximidade, se bem que também pode ser um tipo válido da mesma), de um dia para o outro agirem como se fossemos completos estranhos; não apenas como se tivessem mudado de opinião em relação a nós, mas como se realmente não tivessem qualquer memória da confiança e à-vontade que já existiram — por vezes, há tão pouco tempo como uma semana.

Refiro-me a pessoas que pareciam adorar-nos e a certa altura, sem razão aparente, desaparecem de um dia para o outro sem dizer nada.

Refiro-me a pessoas que falam connosco com alguma frequência, por exemplo por instant messengers, mas que nunca se sabe qual das “versões” vamos apanhar — a simpática e atenciosa, a antipática e agressiva, ou a distante e “simsimtábem”? — até se conversar um bocado. E, quando estão num dos dois últimos modos, nunca avisam (ex. “hoje estou um bocado mal disposto/a; se disser alguma coisa menos simpática, dá desconto, OK?”, ou mesmo “agora não é uma boa altura; podemos falar amanhã?”), nem têm sequer consciência de que estão a agir assim.

E, sim, é óbvio que estou a falar de várias pessoas que conheci na minha vida — algumas recentemente, outras nem tanto. Mas isto não é um post de “revolta”, e sim de confusão: o que é que faz as pessoas ser assim, agir assim? Serei só eu a observar isto? Ou tenho mesmo tido azar com uma proporção invulgar das pessoas que tenho conhecido ao longo dos anos?

Deverei “ser alvo de estudo pela ciência genética”?

Quinta-feira, 9 de Julho, 2009

Eu não devia. Aquilo é claramente provocante para ser link/commentbait, e é daquelas coisas que se fosse ao contrário, seria alvo fácil para acusações de um machismo nojento e retrógrado — se bem que por outro lado consigo perfeitamente imaginar muita gente assim. Mas isso é normal, dada a minha opinião elitista e condescendente da raça humana.

Mas não resisto. 🙂 Deste post, uma lista de coisas que os homens supostamente fazem e que irritam a autora:

  1. Não passar a banheira por água após o banho – fica o rasto dos pêlos e outros elementos impossíveis de identificar para termos mesmo a certeza que esteve lá um animalito
  2. Deixar o tampo da sanita levantado – por tampo entenda-me aquele donut onde a malta feminina se senta sempre, seja para a função 1 ou 2
  3. Não puxar o autoclismo depois da função 1 – já nem falo na 2 que aí a coisa já seria mesmo animalesca!
  4. Deixarem os sapatos na sala – nunca percebi porque se descalçam na sala…
  5. Deixar a toalha molhada em cima da cama – não sei se fazem apostas sobre o cheirinho a mofo ou se só pretendem deixar apodrecer o edredão
  6. Cortar as unhas dos pés perto de nós – eh pá, poupem-me ao clack, salta garra, clack, nova garra…
  7. Não cortarem as unhas dos pés – de forma a arranharem-nos as pernas de tal maneira que nos estão sempre a perguntar se o nosso gato anda com algum problema de raiva
  8. Não passarem os pratinhos por água depois de comer – esperando que aquilo fique tipo super cola 3
  9. Não substituírem o rolo de papel higiénico quando está no fim (ou quase) – deixando apenas uma folhinha para ver se enganam o próximo
  10. Deixarem umas duas ou três gotinhas de leite no pacote sem o substituírem – também nunca percebi esta…
  11. Não meterem o leite no frigorífico depois de se servirem – sabiam que aquilo se estraga?
  12. Deixar roupa suja espalhada pela casa – à laia de decoração pós-apocalíptica
  13. Acharem que as compras aparecem feitas por milagre – tipo pai natal semanal
  14. Deixarem as cascas de qualquer fruto seco por ali – especialmente amendoins – e depois vem o ventinho e pimba, espalha tudo!
  15. Deixarem pegadas molhadas pela casa quando saem do banho – porquê, senhores, porquê?

Deixa ver…

  1. Talvez seja comum em homens mais “simiescos”, mas — ainda hoje de manhã confirmei isso — não acontece comigo. Podia haver um cabelo ou dois no ralo quando tinha cabelo comprido, mas “pêlos”? Estaremos mesmo a falar de homo sapiens? Ou de algum “elo perdido”? 🙂
  2. Esta eu já perguntei lá no outro blog, porque realmente me surpreende; o problema da autora é que ela chega lá, não repara que aquilo está para cima, e se senta na parte fria. Para mim isso é surreal; então uma pessoa não olha antes de se sentar? Esteja para cima ou para baixo, uma pessoa põe como precisa antes de usar. Eu compreendo que depois de se viver anos sozinho (incluindo sem visitas) se passe a fazer tudo em piloto automático na nossa casa, mas não é razoável esperar manter essa total previsibilidade quando se partilha a casa com alguém.
  3. É claro que se puxa. (mas, na Rússia Soviética, o autoclismo puxa-te a TI!!)
  4. “Sala”? 🙂 Nope, quando chego a casa a primeira coisa que faço é tirar os sapatos (acho incrivelmente desconfortável manter a roupa de rua em casa)… no quarto.
  5. É uma experiência científica: quanto tempo demorarão os fungos a desenvolver inteligencia e um início de civilização? 🙂 OK, a sério, as toalhas ficam na casa de banho (se bem que preciso de arranjar forma de as estender melhor na mesma).
  6. Absolutamente nojento, IMO; unhas (pés ou mãos) cortam-se na casa de banho. Aliás, até acho mal ir-se à mesma fazer uma das duas necessidades e não encostar a porta. Mas isto sou eu.
  7. Cortam-se quando necessário.
  8. Aqui já pequei por não o fazer, mas ultimamente ando com mais atenção a isso.
  9. Nope, há sempre mais uns 2 rolos ao pé do que está a ser usado, já a pensar nisso.
  10. Às vezes pode-me escapar, mas em geral não. De qualquer forma, se assim acontecer, uso essas gotas na próxima vez, antes de abrir o novo pacote. Detesto desperdícios.
  11. É claro que volta sempre para o frigorífico. Que tipo de pessoa o deixaria de fora?
  12. Nope, só no quarto, e só mesmo se for para usar mais alguma vez, caso contrário vai para o cesto.
  13. Quem me conhece sabe que sou ao contrário… compro bem mais do que preciso, e compro mais antes de os anteriores acabarem.
  14. Não costumo comer tais coisas (para mim isso é coisa para se juntar a tascas, futebol e cervejas, hábitos esses que não são em geral parte da minha vida), mas obviamente nunca deixaria cascas de nada no chão.
  15. Porque ainda não descobriram os chinelos? 🙂 Francamente, que tipo de gente é que esta rapariga conhece? 🙂

Trogloditas… e quem gosta de trogloditas

Quarta-feira, 24 de Junho, 2009

caveman Como é que eu podia ver este post (visto no Planet Geek) e não comentar? 🙂

Eles gostam de beber cervejolas com os amigos e falar de estranhezas e estatísticas durante horas a fio. Gostam de desportos (todos), papam desde o futsal ao curling, sempre de calções e pés descalços. Espalham pelo tapete aquelas casquinhas vermelhas de amendoins impossíveis de remover. Deixam os sapatos na sala, colam pêlos ao sabonete e raramente se lembram de passar água na banheira depois do duche. Raramente se lembram? Deixem-me cá refazer a ideia: não se lembram, porque nem sequer percebem para que serve e por que raio é que alguém há-de fazer isso…

Quem não me conhece já, pode imaginar que vou contrariar o que a autora diz, defender o meu sexo, dizer que os homens não são em geral assim, e assim por diante. Quem me conhece (sou um elitista nojento, lembram-se? 🙂 ), por outro lado, adivinhará com mais sucesso qual a minha resposta…

… eu concordo. Acho que a autora tem toda a razão em relação à esmagadora maioria dos homens (aí uns 90%, give or take a few). A maioria do meu sexo porta-se com a maturidade e a civilização de um homem das cavernas (sobretudo como retratados na ficção).

Mas acho que ela peca por não mencionar algo vital: é que, segundo a minha experiência, as mulheres querem em geral homens exactamente assim. Preferem-nos, escolhem-nos invariavelmente, acham que eles é que são “homens a sério”, e usam os homens decentes que conhecerem apenas como amigos em cujos ombros chorar o que os namorados / maridos trogloditas (lhes) fazem. Acredito, é claro, que a autora seja uma excepção, assim como conheço várias outras que o são. Da mesma forma que conheço homens adultos, inteligentes, civilizados, e para quem ver um jogo de futebol com os amigos, umas cervejas e os referidos amendoins não é a forma ideal de se passar uma tarde.

Mas – e aqui vem o meu elitismo – não acho nem que estes últimos homens sejam a maioria (aqui concordo com ela), nem que as mulheres realmente queiram, na sua maioria, homens assim. Apenas afirmam isso, mas depois preferem – uma e outra (e outra) vez – exactamente os trogloditas, os zezés camarinhas, os “o-domingo-é-para-o-futebol”, as crianças grandes, e afins.

Como disse num comentário lá, se as raras mulheres com bom gosto estão muito mal servidas, os raros homens decentes também o estão…

Vá, digam-me lá como estou errado.

P.S. – “eu sou mulher e não sou assim” não conta; isso simplesmente faz de ti uma excepção. 🙂

Pura cobardia

Terça-feira, 10 de Março, 2009

Crianças, não tentem isto em casa… ou na rua… ou na porta, com um pé na rua e outro em casa. Não só não resulta (e ainda bem), como faz de vocês uns manipuladores baratos… ou, melhor, uns wanna-bes de manipuladores baratos. E já vos disse que é bastante cobarde?

friends (xkcd)

Fonte: xkcd

Discussão, debate, e afins

Quarta-feira, 18 de Fevereiro, 2009

Como já mencionei aqui recentemente, eu acho piada a discutir (no sentido original da palavra, a troca de ideias, não a de insultos) ou debater assuntos. Gosto, acho divertido, faz-me ter “paixão”, garra, etc., e sem alguma vez entrar em ataques pessoais (pelo menos acredito nisso – se bem que há quem ache que um simples “estás errado, porque…” é um ataque pessoal. Enfim…). Raramente tenho quem me dê luta (excepto neste blog e noutro), e é ainda mais raro encontrar alguém que se interesse suficientemente pelos mesmos assuntos do que eu de forma a achar, tal como eu, piada à coisa.

Mas há uma coisa que me frustra imenso em geral, e algo que me faz participar em discussões muito menos do que gostaria: é que muita gente (e aqui refiro-me a quem à partida já quer a discussão, não estou a falar de quem não acha pura e simplesmente piada a isto; it’s their right) usa uma “arma” que no fundo não é uma arma, é uma declaração de incompetência para discussões racionais, mas a pessoa fá-lo com um orgulho que pura e simplesmente me ultrapassa. É uma pessoa render-se… completa e inabalavelmente convicta de que ganhou a guerra.

Do que é que eu estou a falar? De quando a pessoa usa aquilo a que chamo o “argumento da criança de 6 anos”: variantes de:

  • “porque sim”
  • “isto é verdade para mim”
  • “isso é apenas a tua verdade”
  • “sinto que isto é assim, e isso chega-me”
  • “é uma questão de fé / crença; não é suposto ser racional / ter de explicar”
  • “tenho o direito à minha opinião”
  • “quem és tu para afirmares isso com tanta certeza”

E assim por diante.

Foi, no entanto, ao ler hoje este post que me apercebi de que esse tipo de argumentos são válidos para certo tipo de discussões – as discussões de assuntos subjectivos. Arte, música, sentimentos, e afins; aí não há uma única realidade, uma única verdade; uma pessoa pode dizer que uma música ou um poema são talvez tecnicamente melhores do que outros, mas não que são melhores, ponto – porque a arte é algo subjectivo, é algo que depende muito do observador. O mesmo em relação a sentimentos; em geral, não escolhemos gostar de uma pessoa porque pesámos os prós e os contras disso, mas apenas porque acontece (se bem que, tal como a autora do post, acho que um pouco de racionalidade nos relacionamentos seria algo óptimo, para nos impedir de cometer os mesmos erros repetidamente, ou de continuarmos a acreditar que pessoa X gosta de nós quando é óbvio que isso (já) não acontece). Não digo que uma pessoa não possa discutir arte, música ou sentimentos, mas esses assuntos realmente são subjectivos, e a discussão deve ser uma troca de experiências e de emoções provocadas pelas mesmas, não uma forma de chegar à “verdade” sobre o assunto.

Mas isso é para coisas subjectivas. Discutir a realidade dessa mesma forma, desculpem dizer, é absurdo e irracional. É ter uma perspectiva de místico “new age”, que acredita que a realidade é fluida, subjectiva e criada por nós próprios e pelas nossas crenças. Ou de homem das cavernas, que não entende as razões para nada e acredita que tudo é completamente imprevisível e incompreensível, que vê explicações mágicas para tudo, e que acredita poder mudar a realidade se agradar aos “deuses” ou “espíritos”. Ao ver-se a realidade como subjectiva, ao acreditar que partes dela o são, acaba-se por negar o próprio conceito de “realidade”. É como tapar os olhos com as mãos e acreditar que o mundo deixa de existir quando o fazemos, que podemos fugir às consequências das coisas se não pensarmos nelas, que há “leis da atracção” que transformam crença em realidade… em resumo, que a tua realidade é diferente da minha, mesmo relativamente a coisas como as leis da natureza.

É, depois de eu dar argumentos para o Deus da Bíblia Cristã ser um monstro, dizer “o meu Deus não é assim, é um Deus de amor.” (Porquê? Como é que sabes? “ah, eu sinto-o, e isso basta para mim.”) É, depois de ser confrontado com estatísticas que mostram que a astrologia não funciona, afirmar que “para mim funciona e pronto.” É dizer “eu tenho direito à minha opinião” quando o assunto é se a Terra é ou não redonda, ou qual a idade da mesma, ou se o aquecimento global é real.

Obviamente, não dá para discutir racionalmente com pessoas assim. Curiosamente, elas acham que isso as faz “ganhar”, e sentem-se orgulhosas por isso.

É como jogar xadrez com alguém que não aceita que o cheque mate o faz perder, e se mantém fiel a essa “crença” não importa quantos livros de xadrez eu lhe mostre, e continua a insistir que ganhou o jogo (porque, para ele, as regras são outras, nem que tenham sido acabadas de inventar por ele, e isso constitui a “realidade dele”). Assumindo que gostas de xadrez, jogavas com alguém assim? Eu não.

Ainda outro caso, claro, é quando as pessoas acham que há assuntos proibidos, que são absolutamente tabu, e nos quais discordar delas ou dizer-lhes que estão erradas (e porquê) é uma ofensa pessoal. Em geral, quanto mais irracional é a crença em questão, mais certas pessoas se ofendem – seja a sua crença em Deus, ou na astrologia, ou que aquele tipo que tem imensas one night stands “a ama”. Ninguém se ofende se tem bases racionais para defender a sua crença. E por isso, já evito discutir certos assuntos com pessoas que não se incluam em 2 grupos: completos estranhos, e amigos em quem tenho total confiança. O pior caso são os intermédios: colegas de trabalho, amigos de amigos, visitantes ao blog que eu já conheça de outras andanças, etc.. Aí evito um pouco assuntos sensíveis – talvez mais do que devia, mas enfim.

Daí eu ter tão poucas oportunidades para discussões racionais. E a minha vida é mais pobre por isso, porque é algo que me fascina, estimula e diverte.

“Desejo-te”, parte 2

Sexta-feira, 13 de Fevereiro, 2009

Falar com outras pessoas sobre o que escrevemos é sempre algo positivo; afinal, uma pessoa não escreve num vácuo. Case in point: depois de escrever o post "Desejo-te", tive a possibilidade de conversar sobre o assunto com uma amiga, e notei duas coisas interessantes.

A primeira é que, pelos vistos, o “sim, sim, o que tu queres sei eu” está presente de forma tão forte na mentalidade das mulheres, que ficam aparentemente “confusas” com um raro exemplo de sinceridade (como, infelizmente, um “desejo-te” honesto parece ser), e desconfiam de segundas intenções na mesma. Ou seja, se encaram um “gosto de ti” vindo aparentemente do nada como uma mera tentativa de sedução causada por interesse físico, agem mais ou menos da mesma forma para um “desejo-te”… o que é meio estranho, já que reagir a um “quero sexo contigo” (dito de forma mais bonita, imagino, mas sem fingimento de outras coisas) com um “pois, pois, tu queres é sexo comigo” é, no mínimo, surreal. 🙂

Em segundo lugar, mesmo um “desejo-te” pode ser interpretado de outra forma – correcta ou não, dependendo dos casos. “Desejo-te” é um elogio, mas às vezes isso é interpretado como – e, provavelmente, em muitos casos pode mesmo ser isso – “estou com “fome”, e tu és a primeira que apareceste, ou és a que parece mais fácil”. Aí compreendo, de certa forma, que isso seja visto como ofensivo; afinal, já não é um elogio (excepto no sentido de “marchavas”) a nós, a pessoa já não nos deseja, especificamente. Ainda não acho que seja propriamente insultuoso, mas perde o elogio do “desejo-te”.

“Desejo-te”

Quinta-feira, 12 de Fevereiro, 2009

Imaginem que alguém vos diz isso… ou o equivalente, por outras palavras. O que é que isso vos faz sentir? Como é que reagem?

A minha reacção é sentir-me elogiado, lisonjeado. Posso estar interessado ou não, posso fazer alguma coisa (se não estiver numa relação) ou não, mas, de qualquer forma, nunca acharia isso ofensivo ou depreciativo. Ser desejado (independentemente do nosso desejo recíproco ou ausência do mesmo) é sempre um elogio que nos fazem, acho eu. “Atrais-me” é sempre melhor do que não me atrais”.

Então porque é que tanta gente – sobretudo, lamento dizer, do sexo feminino – leva a coisa como um insulto, uma ofensa? Porque é que tanta gente reage a uma expressão de desejo físico com pensamentos (e subsequentes reacções) do tipo: “ele só me quer pelo meu corpo”, “vê-me como um pedaço de carne”, “para ele só sirvo para isso”, “que tarado”, “deve pensar que eu sou dessas”, e muitas vezes coisas ainda piores?

Serei só eu a achar que o “desejo-te” não é um julgamento de valor, uma crítica ou um denegrir de nada da nossa personalidade, mas sim apenas um desejo de algo em nós? Será assim tão estranho não extrapolar o “gosto de C de ti” para “detesto o A e B em ti, só prestas pelo C”?

E porque é que as pessoas reagem a um elogio – às vezes um simples “és bonita” – como se fosse um insulto (“só te interessa o físico, é?”). Bem, eu imagino porquê. Mas continuo a achar absurdo.

Discussão e Agressividade

Terça-feira, 10 de Fevereiro, 2009

We must begin with a few round truths about myself: when I get into a debate I can get very, very hot under the collar, very impassioned, and I dare say, very maddening, for once the light of battle is in my eye I find it almost impossible to let go and calm down. I like to think I’m never vituperative or too ad hominem but I do know that I fall on ideas as hungry wolves fall on strayed lambs and the result isn’t always pretty. This is especially dangerous in America. I was warned many, many years ago by the great Jonathan Lynn, co-creator of Yes Minister and director of the comic masterpiece My Cousin Vinnie, that Americans are not raised in a tradition of debate and that the adversarial ferocity common around a dinner table in Britain is more or less unheard of in America. When Jonathan first went to live in LA he couldn’t understand the terrible silences that would fall when he trashed a statement he disagreed with and said something like “yes, but that’s just arrant nonsense, isn’t it? It doesn’t make sense. It’s self-contradictory.” To a Briton pointing out that something is nonsense, rubbish, tosh or logically impossible in its own terms is not an attack on the person saying it – it’s often no more than a salvo in what one hopes might become an enjoyable intellectual tussle. Jonathan soon found that most Americans responded with offence, hurt or anger to this order of cut and thrust. Yes, one hesitates ever to make generalizations, but let’s be honest the cultures are different, if they weren’t how much poorer the world would be and Americans really don’t seem to be very good at or very used to the idea of a good no-holds barred verbal scrap. I’m not talking about inter-family ‘discussions’ here, I don’t doubt that within American families and amongst close friends, all kinds of liveliness and hoo-hah is possible, I’m talking about what for good or ill one might as well call dinner-party conversation. Disagreement and energetic debate appears to leave a loud smell in the air.

Stephen Fry, 2007

Ao trocar ontem uns mails com aquela que ultimamente tem sido a comentadora mais frequente no Ostras, e que coincidentalmente ou não (ler o excerto acima) está a viver em Inglaterra há já algum tempo, lembrei-me de uma entrada no blog do Stephen Fry (entre muitas outras coisas, é o Melchett e o Wellington no Blackadder), escrita estando ele a viajar pelos EUA, e em que ele fala das diferenças entre as culturas inglesa e americana ao discutir – que, mesmo sem entrar em ataques pessoais, a forma de discutir no UK tende a chocar os americanos pela sua agressividade. Leiam o excerto acima, se não o fizeram já.

Eu confesso que cresci a acreditar que atacar ideias (ao invés de atacar pessoas) nunca seria encarado por nenhum ser racional como um ataque pessoal, nem devia ferir sentimentos ou susceptibilidades, mas o que é facto é que a vivência ensinou-me que a realidade é – infelizmente – bem diferente. Talvez por isso, tendo participado em muitas discussões, tanto cara-a-cara como em vários blogs – incluindo este, mas sobretudo o Way of the Mind –, seja bem mais “soft” no meu ataque às ideias de outra pessoa, quando as considero erradas, absurdas, auto-contraditórias e oriundas de a pessoa nunca ter pensado muito na questão, ou ter dificuldade em questionar coisas em que sempre acreditou. Não devia ser preciso, mas é… ou será?

É verdade que a maior parte das pessoas não consegue separar as ideias dos donos delas – sobretudo quando se trata do seu próprio caso. Dizer algo tipo “estás errado, por isto, isto e isto” não devia nunca ser ofensivo – pode ser uma “waking call”, e uma pessoa arrogante e orgulhosa pode sentir-se humilhada e ferida no seu orgulho, mas não é uma ofensa pessoal, e só um idiota é que o encara como tal. Mas, infelizmente, é – e eu próprio noto que caí na armadilha, já que, apesar de não ter papas na língua a criticar coisas como a religião em posts, tenho especial cuidado para não ofender visitantes em respostas aos comentários deles. Simpatia e cortesia são coisas positivas, sem dúvida, mas será que sou cuidadoso demais?

Opiniões?

Ainda sobre "ser compreensivo"

Sábado, 31 de Janeiro, 2009

Imagina que tens de decepcionar alguém.

As especificidades não interessam para aqui; por exemplo, tens coisas combinadas com várias pessoas para um período de tempo, mas uma avalanche de trabalho, cansaço, ou outra razão obriga-te a cancelar uma dessas coisas.

Supõe que os candidatos a decepcionar são os seguintes:

  • O gajo A é muito emotivo, e vai reagir mal à decepção. Não vai necessariamente ficar fisicamente violento, mas vai “explodir”, gritar contigo, acusar-te de não dares valor nenhum à sua amizade, descrever-te usando vários termos pouco simpáticos, e não te vai querer ver tão cedo.
  • O gajo B é também muito emocional, mas neste caso as emoções levam-no a uma atitude depressiva e auto-destrutiva, causada por pouca auto-estima. Vai dizer N coisas que activarão o teu sentimento de culpa, vai-te lembrar de como isto era importante para ele, de como o feriste na alma, e pode até chorar ou falar em suicídio. Sim, há pessoas assim.
  • O gajo C, por outro lado, não consegue esconder a tristeza durante meio segundo, mas rapidamente se controla, força um sorriso para não te preocupares, e diz “OK, eu compreendo; a gente fala depois.” Não se irrita, não faz birras, continuará a falar contigo sem problemas, e, se não fosse aquele meio segundo inicial, até acreditarias que ele realmente não deu qualquer importância à coisa.

Imagina que és tu (seja quem fores; este post não é decicado a ninguém especificamente) neste caso. Queres apostar como, quase de certeza, vais escolher decepcionar o gajo C?

E isso não te faz sentir injusto/a e cobarde?

Ainda sobre o "pedir desculpa"…

Sexta-feira, 16 de Janeiro, 2009

Pedir desculpa é uma coisa nobre e bonita de se fazer, e não envolve auto-humilhação, penitência, ou algum disparate do género.

Mas “pedir desculpa” sem se achar que se fez algo de errado, sem se saber sequer pelo quê, é hipócrita, falso e cobarde. É usar “desculpa” como se fosse uma palavra mágica, sem nenhum significado, que resolve magicamente o problema (problema esse que basicamente consiste na outra pessoa estar chateada connosco por alguma razão que não entendemos nem estamos preocupados em entender).

E, sim, isto é irritante.

Quando não desculpar os outros

Segunda-feira, 26 de Novembro, 2007

A maior parte das pessoas aprende exactamente como os cães: através de reforços positivos ou negativos, ou seja, de consequências agradáveis ou desagradáveis para as suas acções. Idealmente, isto não seria assim, e as pessoas teriam empatia, ética e racionalidade suficientes para perceber que uma atitude é errada mesmo que as consequências imediatas sejam positivas — como, por exemplo, ao roubar alguém. Mas tal não acontece. Se uma pessoa faz algo “mau”, como causar sofrimento a outros, e é “recompensada” por isso, fará o mesmo ou pior no futuro. E não falo de casos patológicos extremos, mas da generalidade das pessoas.

Por outras palavras, se alguém te trata mal e tu deixas passar, a pessoa tratar-te-á ainda pior no futuro. Não vale a pena pensares que a pessoa, “magicamente”, se vai aperceber do seu erro. Isso é coisa de contos de fadas. Se a pessoa for minimamente normal — e, mais uma vez, não me refiro a uma pessoa anormalmente cruel ou autista —, vai inconscientemente ser “treinada” para o facto de que as coisas correm bem — ou, pelo menos, não há consequências indesejáveis — ao magoar-te, ao fazer-te mal, ou ao usar-te de alguma forma.

Isto tudo para dizer que, muitas vezes, perdoar os outros não é uma coisa boa. Porque ao fazê-lo só estás a “treiná-los” para te continuarem a magoar impunemente.

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