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Mais Papa, mais preservativos, e mais comentários

Sexta-feira, 20 de Março, 2009

O leitor CSousa deixou num post anterior meu um link para este post, com a sugestão de eu o ler. E porque não?

Primeiro, o autor do post fala da qualidade de Ratzinger / Bento 16 como teólogo. Já aí estamos perante um problema.

Deixem-me explicar a minha posição com um exemplo. Eu posso ser o maior fã do Homem-Aranha do mundo. Posso ler todas as comics existentes (e são milhares e milhares, desde os anos 60) várias vezes, posso ler dissertações filosóficas sobre o personagem, posso entrevistar o Stan Lee e o Steve Ditko, bem como alguns dos mais recentes argumentistas do personagem. Posso ir a convenções, juntar-me a clubes de fãs, escrever blogs, e passar todo o meu tempo livre a pensar no personagem, de forma a ter novos “insights” sobre ele e o que o faz vibrar. Posso tomar decisões no dia-a-dia pensando “o que é que o Homem-Aranha faria nesta situação?”. Posso, em resumo, conhecer o personagem tão bem ou melhor do que qualquer pessoa no planeta, ser o maior especialista nele ele à face da terra.

Isso faz o personagem existir? De forma alguma. E se eu afirmasse que ele existe, estaria completamente louco, exactamente como alguém que afirmasse isso sem conhecer quase nada dele. O meu conhecimento extremo de um personagem fictício não o torna real.

Teologia é exactamente a mesma coisa. É o estudo de algo fictício, inexistente. É uma não-ciência. O Papa pode ter passado a vida dele a pensar sobre a personalidade e desejos do Deus cristão; pode ter lido e entendido mais textos sobre o assunto do que qualquer outra pessoa. Pode passar anos da sua vida a rezar. Pode dedicar a vida inteira a isso. Mas isso não faz Deus passar a existir, e muito menos faz com que esse personagem fictício dê ao Papa algum conhecimento ou informação que os “mortais comuns” não têm.

Teologia, como alguém disse no passado, é um cego a procurar num quarto escuro um gato preto que não está lá… e “encontrá-lo”.

Depois, vem aquilo que os defensores do Papa têm andado a dizer como desculpa: que ele não disse que o uso do preservativo agrava a epidemia da Sida, mas que é a sua distribuição que o faz. Desculpem lá, mas… estão a tentar usar a Chewbacca defense, ou quê? Essa distinção não faz qualquer diferença neste contexto; a distribuição dos preservativos tem como único objectivo o aumento do seu uso. De certeza que estes não são para fins decorativos…

A citação da “Dra.” é tão moralmente repugnante que dá vontade de nem lhe responder. É mais uma variante do NOMA (non-overlapping magisteria), a ideia de que a ciência e a religião não estão em conflito, porque a primeira se dedica ao “como” e a segunda ao “porquê”, sendo a moralidade o apanágio da segunda. Não vou entrar aqui em explicações detalhadas pelas quais isso é absurdo; digo-vos apenas isto: que autoridade tem a religião, sem qualquer “linha directa” para algum ser superior, e culpada das maiores atrocidades feitas em nome de “Deus”, para falar de moralidade? Nenhuma; e por isso a “moralidade” da mesma resume-se a 1) livros escritos há milhares de anos que aceitam a escravatura e afirmam a inferioridade e necessária submissão da mulher em relação ao homem, e 2) um conservadorismo abjecto e oposição a todo o progresso da sociedade.

Um cristão ou um membro de qualquer outra religião — ou mesmo um líder da mesma religião, como neste caso o Papa — não é um especialista em ética ou moralidade. A sua “moralidade” resume-se a tentar adivinhar os caprichos de um ser em que acredita apesar de não haver quaisquer indícios da sua existência, seja teorizando, seja lendo o que outros crentes nesse ser (não mais iluminados do que ele) escreveram. Querem moralidade, falem com filósofos focados na mesma, ou pensem por vocês próprios; não há nada a tirar da religião nesse aspecto (ou, o pouco que haja, não é nada do outro mundo e não é original deles: se pensam que “faz aos outros o que queres que te façam” teve origem em Jesus Cristo, estão completamente enganados).

Depois, há quem diga (não necessariamente naquele post, mas já vi o argumento por aí) que os preservativos não são 100% eficazes a prevenir a Sida, logo “não são solução” e mais vale estar quieto. Desculpem-me?!? Uma solução que previne 90% das infecções (ou mesmo que fosse 50%, ou até menos) é “o mesmo que nada”? Sabem de quantos milhões de vidas potencialmente salvas se está a falar? De quantas pessoas, mesmo não sendo todas elas, podem livrar-se de sofrer de forma horrível e morrer permaturamente? Importam-se com isso, minimamente? Ou todas essas vidas são para vocês “o mesmo que nada”? E, já agora, as campanhas de abstinência têm melhores resultados a reduzir a Sida? Bem me parecia.

Por último, a quem acha que o que o Papa disse não é desprezível, deixo-vos este desafio: se Deus não existisse (eu estou convencido de que não existe, mas, no vosso caso, “imaginem-no” durante um pouco), a afirmação do Papa teria mesmo assim algum valor ético e moral positivo, em termos puramente humanos? Faria, na mesma, algum bem ao mundo? Ajudaria a reduzir a Sida? Aliviaria o sofrimento e evitaria a morte prematura de milhões? Seria louvável? Se sim, porquê? E, se não, já pensaram no que isso diz sobre a moralidade do deus que adoram?

P.S. – se a vossa resposta for “sim, porque senão aquela gente toda vai ter sexo, sexo e mais sexo, e vai ter prazer nisso, e isso enoja-me, enoja-me, enoja-me!”, lamento sinceramente o que os vossos pais vos fizeram na infância, mas é possível ultrapassar isso com ajuda psicológica / psiquiátrica.

Papa: preservativos *pioram* o problema da sida

Terça-feira, 17 de Março, 2009

Fonte: Times Online

Aids “is a tragedy that cannot be overcome by money alone, and that cannot be overcome through the distribution of condoms, which even aggravates the problems”.

Agrava? Como?

Nope, ele não diz. Mas, claro, propõe uma “solução”…

He said the “traditional teaching of the Church” on chastity outside marriage and fidelity within it had proved to be “the only sure way of preventing the spread of HIV and Aids”.

Claro. Uma solução que não venha deles, por muito eficaz que seja, não é solução. Se a deles é irrealista e está provado que é ineficaz… paciência. Admitir que há uma opção melhor era abdicar do controlo que ainda têm sobre grande parte do mundo. E é impressionante como não têm problemas em provocar o sofrimento e a morte de milhões. Bem, quando se acredita que o sofrimento em vida é irrelevante – ou seja, quando se é um culto da morte –, isto faz todo o sentido.

E, ei, pelo menos são coerentes

Anti-Educação Sexual: afinal, o que é que esta gente quer?

Segunda-feira, 16 de Março, 2009

condenei ontem a atitude, os objectivos e a “moralidade” daquilo a que se podia chamar grupos pseudo-pró-vida (GPPVs, para abreviar); o “pseudo” vem do facto de eles aparentemente só se preocuparem com a vida até ao parto, e não terem problemas nenhuns com o sofrimento humano, nem com a ideia de uma “morte em vida”.

Mas eu tenho a irritante mania de querer sempre entender tudo, incluindo as posições do “inimigo”, o que é que as causa, e o que é que eles realmente querem. Neste caso, por exemplo, uma pessoa de fora pensaria que GPPVs, por serem totalmente anti-aborto, seriam os maiores apoiantes da introdução da educação sexual obrigatória às crianças! Afinal, é esta (e não a “abstinência”, que não é nem nunca foi realista), sem dúvida, a forma mais eficaz de reduzir ao máximo o número de abortos, por praticamente acabar com os possíveis motivos para estes. Se os jovens souberem o que estão a fazer, souberem como é que se engravida, e souberem como o evitar, tendo sexo de forma realmente segura, não haverá mais gravidezes indesejadas. Aliás, até poderia argumentar que se se conseguir transformar o sexo numa coisa bonita e saudável, em vez de “porca” e um bicho de sete cabeças, isso poderá diminuir o número de violações, fazendo cair ainda mais o número de abortos. Como disse, isto devia ser o que eles querem… não?

Mas não. Nem por sombras. Continuam a opor-se a todo e qualquer método contraceptivo, incluindo os tão convenientes preservativos; continuam a dizer que o sexo tem de ser só dentro do casamento e só para fins reprodutivos, nunca para prazer. Há até grupos a opor-se ao uso de preservativos dentro do casamento, mesmo sendo um dos membros do casal seropositivo. Se isto não vos choca, não sei o que chocará.

Porque é que eles agem de uma forma aparentemente tão contraditória em relação ao seu “stated goal”? Porque é que a ideia de as pessoas terem sexo por prazer, sendo isso visto como algo saudável e natural, em vez de um bicho de sete cabeças, os assusta tanto? Podia aqui armar-me em psicólogo barato e dizer que é por eles próprios não terem vida sexual (devido à educação repressiva que tiveram e à falta de carisma natural 🙂 ), e quererem forçosamente reduzir o resto do mundo ao seu nível. Isso até pode ser um factor em alguns casos, mas eu diria que as razões principais são aquelas que eu mencionei no fim do meu último post: controlo, e a criação de um Inferno na Terra.

Em “O Nome da Rosa”, o vilão opunha-se à divulgação de um livro do Aristóteles sobre a comédia, porque isso a legitimaria, e o riso afasta o medo. Sem medo, dizia ele, as pessoas não precisam de Deus (e eu acrescentaria: não precisam de religião… nem da Igreja). Logo, era importante manter as pessoas no medo, e se isso implicasse abafar a verdade de forma a manter a ignorância, ou mesmo provocar a morte de pessoas inocentes (como ele faz), que assim seja. Aqui é algo semelhante. Pessoas felizes viram-se menos para a religião do que pessoas infelizes; daí os três monoteísmos se oporem tanto ao prazer, e a formas de viver psicologicamente saudáveis. Isso não é do interesse deles. A frustração, essa, é. O sofrimento. A repressão dos nossos instintos naturais. A falta de esperança em relação à vida na Terra, transferindo essa esperança toda para uma suposta vida depois da morte. O medo. A ignorância.

E, claro, há a questão do controlo. Grande parte do controlo da religião sobre as pessoas vem do controlo – através, em grande parte, da demonização – da sexualidade. Isso já tem milhares de anos; afinal, porque é que o deus da Bíblia parece ser tão obcecado pelos nossos órgãos genitais? Porque, ao transformar algo que é naturalmente parte do ser humano num “pecado” horrível, sujo e hediondo, isso cria culpa e medo nas pessoas; e nada torna uma pessoa tão maleável ao controlo como a culpa e o medo.

A estupidez e imoralidade do “pró-vida”

Domingo, 15 de Março, 2009

Cectic - "Loaded Guns"Fonte: Cectic

Via Maracujá, este artigo no Público capaz de provocar vómitos pela irracionalidade e, sim, imoralidade do grupo descrito. Porque o que é imoral não é a educação sexual, nem o próprio sexo, mas sim a tentativa de perpetuar a ignorância, sem ter quaisquer problemas com o sofrimento causado.

Por exemplo:

O movimento católico Portugal Pró-Vida não quer aulas obrigatórias de educação sexual nas escolas portuguesas, informou o presidente Luís Botelho Ribeiro. “A obrigatoriedade dos alunos frequentarem as aulas de educação sexual é anti-democrática e muito perigosa para a sociedade portuguesa”, referiu a mesma fonte.

E ainda:

Contra o aborto, o movimento assume uma nova “luta” contra a existência de aulas de educação sexual nas escolas e contra a obrigatoriedade da sua frequência.

Mas, ainda pior,

“As ideias e os ensinamentos que vão ser transmitidos aos estudantes vão fazer com que, daqui a poucos anos, tenhamos uma geração de portugueses para quem nada é proibido nem moral, nem eticamente”, frisou Luís Botelho Ribeiro.

E, claro,

“Nos manuais de educação sexual que já tivemos oportunidade de ver só se fala de sexo.”

Desculpem se ofendo alguém (se bem que quem se ofender com isto bem o merece), mas isto é nojento. Por um lado são absolutamente contra o aborto, mas por outro lado são também contra todas as alternativas ao mesmo: contraceptivos, sexo responsável, ou mesmo saber-se o que se está a fazer. E, claro, continuam a igualar a moralidade a um puritanismo retrógrado, anti-prazer e anti-vida (já que “vida” não é só um coração a bombear sangue). Não se percebe realmente qual é o objectivo desta gente, se bem que, se tentasse adivinhar, diria que é principalmente controlo. Ou, se calhar, não acham que o Inferno fictício em que acreditam seja suficiente, e querem recriá-lo na Terra.

Ainda sobre discutir irracionalmente a realidade…

Quarta-feira, 18 de Fevereiro, 2009

Cectic - Arguing with a believer

 

Um clássico do Cectic, apropriado para se seguir ao meu post Discussão, debate e afins. Para quem não perceba, o de amarelo pensa que está a jogar damas. 🙂

Discussão, debate, e afins

Quarta-feira, 18 de Fevereiro, 2009

Como já mencionei aqui recentemente, eu acho piada a discutir (no sentido original da palavra, a troca de ideias, não a de insultos) ou debater assuntos. Gosto, acho divertido, faz-me ter “paixão”, garra, etc., e sem alguma vez entrar em ataques pessoais (pelo menos acredito nisso – se bem que há quem ache que um simples “estás errado, porque…” é um ataque pessoal. Enfim…). Raramente tenho quem me dê luta (excepto neste blog e noutro), e é ainda mais raro encontrar alguém que se interesse suficientemente pelos mesmos assuntos do que eu de forma a achar, tal como eu, piada à coisa.

Mas há uma coisa que me frustra imenso em geral, e algo que me faz participar em discussões muito menos do que gostaria: é que muita gente (e aqui refiro-me a quem à partida já quer a discussão, não estou a falar de quem não acha pura e simplesmente piada a isto; it’s their right) usa uma “arma” que no fundo não é uma arma, é uma declaração de incompetência para discussões racionais, mas a pessoa fá-lo com um orgulho que pura e simplesmente me ultrapassa. É uma pessoa render-se… completa e inabalavelmente convicta de que ganhou a guerra.

Do que é que eu estou a falar? De quando a pessoa usa aquilo a que chamo o “argumento da criança de 6 anos”: variantes de:

  • “porque sim”
  • “isto é verdade para mim”
  • “isso é apenas a tua verdade”
  • “sinto que isto é assim, e isso chega-me”
  • “é uma questão de fé / crença; não é suposto ser racional / ter de explicar”
  • “tenho o direito à minha opinião”
  • “quem és tu para afirmares isso com tanta certeza”

E assim por diante.

Foi, no entanto, ao ler hoje este post que me apercebi de que esse tipo de argumentos são válidos para certo tipo de discussões – as discussões de assuntos subjectivos. Arte, música, sentimentos, e afins; aí não há uma única realidade, uma única verdade; uma pessoa pode dizer que uma música ou um poema são talvez tecnicamente melhores do que outros, mas não que são melhores, ponto – porque a arte é algo subjectivo, é algo que depende muito do observador. O mesmo em relação a sentimentos; em geral, não escolhemos gostar de uma pessoa porque pesámos os prós e os contras disso, mas apenas porque acontece (se bem que, tal como a autora do post, acho que um pouco de racionalidade nos relacionamentos seria algo óptimo, para nos impedir de cometer os mesmos erros repetidamente, ou de continuarmos a acreditar que pessoa X gosta de nós quando é óbvio que isso (já) não acontece). Não digo que uma pessoa não possa discutir arte, música ou sentimentos, mas esses assuntos realmente são subjectivos, e a discussão deve ser uma troca de experiências e de emoções provocadas pelas mesmas, não uma forma de chegar à “verdade” sobre o assunto.

Mas isso é para coisas subjectivas. Discutir a realidade dessa mesma forma, desculpem dizer, é absurdo e irracional. É ter uma perspectiva de místico “new age”, que acredita que a realidade é fluida, subjectiva e criada por nós próprios e pelas nossas crenças. Ou de homem das cavernas, que não entende as razões para nada e acredita que tudo é completamente imprevisível e incompreensível, que vê explicações mágicas para tudo, e que acredita poder mudar a realidade se agradar aos “deuses” ou “espíritos”. Ao ver-se a realidade como subjectiva, ao acreditar que partes dela o são, acaba-se por negar o próprio conceito de “realidade”. É como tapar os olhos com as mãos e acreditar que o mundo deixa de existir quando o fazemos, que podemos fugir às consequências das coisas se não pensarmos nelas, que há “leis da atracção” que transformam crença em realidade… em resumo, que a tua realidade é diferente da minha, mesmo relativamente a coisas como as leis da natureza.

É, depois de eu dar argumentos para o Deus da Bíblia Cristã ser um monstro, dizer “o meu Deus não é assim, é um Deus de amor.” (Porquê? Como é que sabes? “ah, eu sinto-o, e isso basta para mim.”) É, depois de ser confrontado com estatísticas que mostram que a astrologia não funciona, afirmar que “para mim funciona e pronto.” É dizer “eu tenho direito à minha opinião” quando o assunto é se a Terra é ou não redonda, ou qual a idade da mesma, ou se o aquecimento global é real.

Obviamente, não dá para discutir racionalmente com pessoas assim. Curiosamente, elas acham que isso as faz “ganhar”, e sentem-se orgulhosas por isso.

É como jogar xadrez com alguém que não aceita que o cheque mate o faz perder, e se mantém fiel a essa “crença” não importa quantos livros de xadrez eu lhe mostre, e continua a insistir que ganhou o jogo (porque, para ele, as regras são outras, nem que tenham sido acabadas de inventar por ele, e isso constitui a “realidade dele”). Assumindo que gostas de xadrez, jogavas com alguém assim? Eu não.

Ainda outro caso, claro, é quando as pessoas acham que há assuntos proibidos, que são absolutamente tabu, e nos quais discordar delas ou dizer-lhes que estão erradas (e porquê) é uma ofensa pessoal. Em geral, quanto mais irracional é a crença em questão, mais certas pessoas se ofendem – seja a sua crença em Deus, ou na astrologia, ou que aquele tipo que tem imensas one night stands “a ama”. Ninguém se ofende se tem bases racionais para defender a sua crença. E por isso, já evito discutir certos assuntos com pessoas que não se incluam em 2 grupos: completos estranhos, e amigos em quem tenho total confiança. O pior caso são os intermédios: colegas de trabalho, amigos de amigos, visitantes ao blog que eu já conheça de outras andanças, etc.. Aí evito um pouco assuntos sensíveis – talvez mais do que devia, mas enfim.

Daí eu ter tão poucas oportunidades para discussões racionais. E a minha vida é mais pobre por isso, porque é algo que me fascina, estimula e diverte.

Greta Christina e o “calem-se” ao ateísmo

Terça-feira, 17 de Fevereiro, 2009

Adorava ter metade da capacidade de síntese e de exposição desta mulher. O último post dela, Atheism and the "Shut Up, That’s Why" Arguments, expõe brilhantemente o erro dos argumentos de “calem-se com isso” feitos tão habitualmente aos activistas ateus – muitas vezes por pessoas que não têm elas próprias qualquer tipo de crença, mas que mesmo assim acham que é “intolerante” criticar a religião e as crenças em geral (como se alguma coisa fosse intrinsecamente acima de crítica), que “os ateus são tão fanáticos e fundamentalistas como os alvos das suas críticas”, que “há coisas importantes e estão-se a preocupar com isso?”, e argumentos do género.

Eu próprio já escrevi sobre porque é que me importo com esta questão e sobre como é estúpido menosprezar uma preocupação só porque não a partilhamos (muitas vezes porque nunca pensámos no assunto… ou porque “isso acontece tudo lááá muito longe e não me afecta pessoalmente”), mas admito sem reservas, e sem falsas modéstias, que o que ela escreve sobre o mesmo assunto é bem mais interessante. 🙂

Como lidar com literalistas bíblicos

Domingo, 15 de Fevereiro, 2009

Adorei este artigo.

Se por um lado não desejaria que tal praga entrasse no meu país (felizmente, parece ser um fenómeno Americano, pelo menos a versão Cristã – o caso do Islão é outra história), por outro lado quase que tenho pena de não encontrar uns por cá, e, como o autor do artigo fez, fazê-los passar por uma merecida humilhação em público. Afinal, se eles dizem que a Bíblia é 100% a palavra de Deus, sem excepções nem contradições…

Lucas 6:30, palavras de Jesus:

Dá a todo o que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho reclames.

Curiosamente, não estou a ver nenhum líder evangélico a dar-me o seu avião particular, ou as suas limusinas, ou os biliões ganhos em dízimos, só porque eu lhe peça. Lá se foi o literalismo bíblico… 🙂

Religião: porque é que eu me importo?

Quinta-feira, 5 de Fevereiro, 2009

Sara (aqui):

Aqui existe agora uma campanha com slogans nos autocarros que diz “There’s probably no god. Now stop worrying and enjoy your life”.

Se bem que eu concorde com o slogan, fiquei sem perceber muito bem porque é que alguém se interessa com isso. Gastar dinheiro em andar a divulgar isso?

Aqui entramos noutra guerra: é que a religião oprime. Tens o que os muçulmanos fazem às mulheres, tens a mutilação genital forçada das mesmas, tens crianças a ser educadas sobre como o universo tem 6000 anos e as espécies foram criadas tal como existem hoje (anulando completamente a hipótese de uma carreira produtiva na medicina ou biologia), tens a criminalização do aborto, tens o “sexo = porco” com que te tenho massacrado tanto, tens todas as sociedades do mundo que consideram as mulheres como seres inferiores, tens a oposição das igrejas Cristãs ao uso de anestesia no parto (cuja dor era o suposto castigo de Deus à Eva e descendentes), a oposição das mesmas ao fim da escravatura (que era justificável biblicamente), tens a proibição por razões meramente supersticiosas de uma linha de pesquisa na medicina que pode salvar inúmeras vidas e curar imensas doenças actualmente incuráveis, tens as mulheres apedrejadas porque um homem olhou para elas no Irão, Iraque e Afeganistão, tens as clínicas de aborto nos EUA a ser atacadas por terroristas que nunca são devidamente condenados, tens todo o maluco que mata uma ou mais pessoas porque acredita piamente que "Deus assim quer", tens a censura – mesmo por não-muçulmanos – dos cartoons de Maomé, quando o que devia ter sido criticado era o atentado à liberdade de expressão por quem ameaçou os artistas, tens as pessoas traumatizadas na infância pelas imagens ultra-"realistas" do Inferno com que foram educadas (esse anúncio, aliás, é parcialmente uma resposta a outro que tinha o endereço de um site que citava a Bíblia para dizer que os não crentes iam para o Inferno), tens todo o anti-intelectualismo e suspeita da educação superior, tens a posição privilegiada que a religião ainda tem no discurso público (porque é que achas que este anúncio está a ser tão polémico? Porque nunca se tinha feito um parecido, e tal seria impensável), tens o facto de as igrejas fazerem milhões e estarem isentas de impostos, tens o facto de a religião matar a curiosidade humana por convencer as pessoas de que já têm todas as respostas, tens o facto de ela nos dizer para não fazermos nada em relação ao sofrimento das nossas vidas porque elas não são “the real thing”… e podia continuar…

… há muitas, muitas razões para combater a religião, tal como se combate a fome, as doenças, o analfabetismo, a poluição, o racismo, e outros males da humanidade. Claro que não te vou condenar a ti por não fazeres disso uma causa, assim como espero que não me condenem por não dedicar a minha vida a reduzir a fome no mundo; mas nunca diria que não compreendo quem o tenta fazer, nem os acusaria de estarem a gastar dinheiro e esforço inutilmente. Tornar o mundo melhor é, afinal, uma causa nobre. Assim como o é a educação, ou o simples facto de fazer as pessoas pensar em algo que sempre aceitaram sem o fazer, o que é, aliás, o objectivo principal do anúncio.

Considero, tal como o grande PZ Myers, que a forma de combater a religião é igual à forma de combater o analfabetismo: educação. E tem de se começar por algum lado.

Ateus, crentes, agnósticos, gnósticos e “apateus”

Quinta-feira, 5 de Fevereiro, 2009

A Sara, simpaticamente, disse num comentário:

Eu não sou religiosa, sou agnóstica, não porque jogo pelo seguro, mas porque não me importa de uma maneira ou outra. Não dou importância a qualquer deus ou religião para perder tempo a achar se existe ou não, simplesmente passa-me ao lado. Se existir, parabéns sr. deus/deusa/deuses, se não existir é-me irrelevante.

O que vou escrever agora não é a discordar da Sara, de forma alguma; é só uma dissertação sobre as várias definições, já que acho que há muita gente que as confunde, e/ou não as conhece todas. Sara, isto não é especificamente para ti, OK? 🙂

Então é assim: há muita gente que vê as coisas como Ateu —- Agnóstico —- Crente, equivalendo esses nomes a diferentes “níveis” de crença num ou mais deuses. Mas isso é uma simplificação exagerada, um bocado como o “Esquerda —- Direita” em política. Tal como neste último exemplo, o melhor é pensar em duas medidas diferentes, que poderiam ser demonstradas num gráfico em duas dimensões:

  “Não dá para saber” “Dá para saber”
“Deus não existe” Ateísmo Agnóstico Ateísmo Gnóstico
“Deus existe” Teísmo Agnóstico Teísmo Gnóstico

Exemplos:

  • qualquer crente fanático / fundamentalista é um crente gnóstico (há algum equivalente em Português a “theist”? “Teu” não me parece ser uma boa tradução… 🙂 )
  • a maioria dos crentes por tradição (comuns nos países europeus com religião estatal, como Portugal) são crentes agnósticos (acreditam que há um Deus, mas nunca poriam as mãos no fogo por isso, nem se preocupam muito com o assunto), ou então “apateus” (já lá vamos)
  • a posição que considero ser racional para um céptico, que só acredita em afirmações quando há evidência, é ser um misto de ateu agnóstico e gnóstico; ou seja, eu sou agnóstico em relação a algum deus, mas sou gnóstico – isto é, afirmo convictamente que não existem – em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 grandes monoteísmos na Terra, que têm características específicas e muitas vezes auto-contraditórias, e cujas afirmações em relação a eles, tanto históricas como científicas, são completamente destruídas, you guessed it, pela História e pela Ciência.

Já agora, muita gente auto-descreve-se como agnóstica quando na verdade é “apateísta”. “Agnóstico” significa “é impossível saber se sim ou sopas”, mas não é isso, pois não? “Apateísmo”, vindo de “apatia”, significa “estou-me nas tintas para se existe um deus ou não”. E esse é o caso de quase todos os auto-proclamados agnósticos. Não é que achem impossível saber; simplesmente, não estão realmente interessados no assunto, one way or another.

Por último, uma coisa em que em geral as pessoas não pensam: tanto os “apateus” como os verdadeiros ateus agnósticos são ateus “de facto”, isto é, vivem toda a sua vida no pressuposto de que não há nenhum deus. A diferença principal entre eles e um “verdadeiro” ateu é que não pensaram muito no assunto, não o consideram importante, e nem fazem qualquer tipo de activismo (que se pode limitar a escrever sobre o assunto). Mas, na totalidade das suas vidas, agem exactamente como ateus. Acho importante ter isto em conta, sobretudo quando acusam os ateus de “fanatismo” ou de “precisarmos de tanta fé como os crentes”.

Já agora, a Sara — como suspeito ser verdade para a maioria dos portugueses, pelo menos abaixo dos 60 — é claramente uma “apateia”. 🙂

Coincidências, “Signs”, e afins…

Terça-feira, 3 de Fevereiro, 2009

Li recentemente (suponho que para infelicidade dele 🙂 ) o post do Mário Gamito sobre o monólogo do Mel Gibson no "Signs" do M. Night Shyamalan, que passo a citar (imagino que o Mário não se importe com o copy & paste; afinal, isto vem de um filme):

People break down in to two groups. When they experience something lucky, group number one sees it as more than luck, more than coincidence. They see it as a sign, evidence, that there is someone out there watching out for them. Group number two, sees it as just pure luck, a happy turn of chance. I’m sure that people in group number two are looking at those fourteen lights in a very suspicious way.
For them, the situation is a fifty-fifty: could be bad, could be good. But deep down, they feel that whatever happens, they’re on their own and that fills them with fear.
Yeah, there are those people. But there’s a whole lot of people in the group number one. When they see those fourteen lights, they’re looking at a miracle and deep down, they feel that whatever is going to happen, there will be someone there to help them and that fills them with hope.
See, what you have to ask yourself is what kind of person are you ? Are you the kind who sees signs, sees miracles ? Or do you believe that people just get lucky ?
Or look at the question this way: is it possible that there are no coincidences ?

A razão pela qual não respondo a isto no blog do Mário, como pensei inicialmente fazer, é que eu chego exactamente à conclusão oposta, e isto tende a ser um assunto “sensível” para muita gente. Prefiro, assim, responder aqui – não ao post do Mário, que não afirma nada, só implica, mas ao personagem do Mel Gibson – e, por conseguinte, ao Shyamalan, que pelos vistos entrou na sua “fase religiosa” com este filme (da qual aparentemente ainda não saiu), depois de ter feito dois que eu adorei de uma ponta à outra1.

A questão aqui é a seguinte: no universo do filme efectivamente não há coincidências. Tudo acontece por uma razão, e há um ser superior a cuidar de tudo. Porquê? Porque o autor do filme assim o determinou, obviamente. Isto chama-se “ficção”. Considerando o que acontece no filme (e esquecendo a idiotice de extraterrestres ultra-mega-vulneráveis à água invadirem um planeta que visto do espaço tem este aspecto), o personagem tem todas as razões para acreditar nisso. É um universo em que não há coincidências, sem dúvida, em que tudo tem um significado, mesmo que este só seja visível anos ou décadas depois. Se ele mesmo assim não acreditasse nisso, seria o típico flat earth atheist, alguém que não acredita em magia num mundo em que ela acontece, que não acredita em deuses num mundo em que eles interagem connosco regularmente.2

Felizmente ou infelizmente (eu fico-me pela primeira), o universo em que vivemos não é como o universo do “Signs”. É um universo em que não há ninguém a segurar-nos na mão, em que coincidências a todo o momento, que não acontecem por nenhum desígnio ou razão especial. Um universo que não cuida de nós, em que não somos o centro do mundo, e em que, limitado pelas leis da física, tudo pode acontecer. Um universo em que temos de ser adultos, e não crianças, em que o wishful thinking e “leis da atracção” não funcionam, em que toda a fé do mundo não consegue fazer um grão de areia mover-se um milímetro.

Este universo parece cruel, não é? Mas não o é, realmente. Uma pedra, um rio, uma montanha, um oceano não são cruéis. É infantil (e antropomórfico) estarmo-nos a afogar e culparmos o mar pela sua “crueldade”. Infelizmente, é o que muita gente parece fazer em relação ao universo em que vive: querer que ele (ou algo nele) nos “segure pela mão”. Porque a realidade assusta.

Sem dúvida que pode assustar. Muito. Também me assusta a mim, por vezes, e isto apesar de não ver deuses nem demónios nem espíritos nem nada sobrenatural que seja impossível para mim compreender. Mas é o que temos.

Agora, podes sentar-te num canto e chorar, ou levantar-te, ver as coisas como são (e não como gostarias que fossem), ser honesto com a realidade em que vives, ir à luta, e crescer.

  1. sim, o “Unbreakable” é genial, e se não o acham, é porque não perceberam nada. 🙂 []
  2. curiosamente, há muitos crentes que vêem todos os ateus como flat earth atheists… mas isso fica para outro post. []

Conhecimento Bíblico: não fui perfeito, mas…

Domingo, 1 de Fevereiro, 2009

… pelo menos posso gabar-me de não ter googlado nada; foi tudo respondido depressa, sem mudar de tab no browser. 🙂

You know the Bible 81%!

 

Wow! You are truly a student of the Bible! Some of the questions were difficult, but they didn’t slow you down! You know the books, the characters, the events . . . Very impressive!

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Nada mau para um ateu fanático radical estridente. 🙂

A tua moralidade vem da Bíblia?

Sexta-feira, 30 de Janeiro, 2009

Eis o meu caso…

Your morality is 0% in line with that of the bible.

 

Damn you heathen! Your book learnin’ has done warped your mind. You shall not be invited next time I sacrifice a goat.

Do You Have Biblical Morals?
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P.S. – se por um lado o teste é divertido (e preocupante por eu apanhar as referências todas, sendo ateu, quando aposto que muitos crentes não o fariam), por outro lado acho que há pouca variedade nas respostas.

SPOILER (seleccionar com o rato até ao ponto final que se segue): há sempre duas mais ou menos civilizadas, e uma Bíblica, muitas vezes escolhida por ser uma atrocidade e/ou absurda. Em geral, esta é a última das três.

Falar com Deus

Terça-feira, 20 de Janeiro, 2009

“O presidente dos Estados Unidos1 afirmou, em mais de uma ocasião, estar em diálogo com Deus. Se ele dissesse que estava a falar com Deus através do seu secador de cabelo, isto precipitaria uma emergência nacional. Não consigo perceber porque é que o acréscimo de um secador de cabelo torna a afirmação mais ridícula ou ofensiva.”

— Sam Harris, “Letter to a Christian Nation”

  1. isto foi escrito em 2006, logo refere-se ao Bush, que realmente dizia coisas destas a todo o momento []