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“Desejo-te”, parte 2

Sexta-feira, 13 de Fevereiro, 2009

Falar com outras pessoas sobre o que escrevemos é sempre algo positivo; afinal, uma pessoa não escreve num vácuo. Case in point: depois de escrever o post "Desejo-te", tive a possibilidade de conversar sobre o assunto com uma amiga, e notei duas coisas interessantes.

A primeira é que, pelos vistos, o “sim, sim, o que tu queres sei eu” está presente de forma tão forte na mentalidade das mulheres, que ficam aparentemente “confusas” com um raro exemplo de sinceridade (como, infelizmente, um “desejo-te” honesto parece ser), e desconfiam de segundas intenções na mesma. Ou seja, se encaram um “gosto de ti” vindo aparentemente do nada como uma mera tentativa de sedução causada por interesse físico, agem mais ou menos da mesma forma para um “desejo-te”… o que é meio estranho, já que reagir a um “quero sexo contigo” (dito de forma mais bonita, imagino, mas sem fingimento de outras coisas) com um “pois, pois, tu queres é sexo comigo” é, no mínimo, surreal. 🙂

Em segundo lugar, mesmo um “desejo-te” pode ser interpretado de outra forma – correcta ou não, dependendo dos casos. “Desejo-te” é um elogio, mas às vezes isso é interpretado como – e, provavelmente, em muitos casos pode mesmo ser isso – “estou com “fome”, e tu és a primeira que apareceste, ou és a que parece mais fácil”. Aí compreendo, de certa forma, que isso seja visto como ofensivo; afinal, já não é um elogio (excepto no sentido de “marchavas”) a nós, a pessoa já não nos deseja, especificamente. Ainda não acho que seja propriamente insultuoso, mas perde o elogio do “desejo-te”.

“Desejo-te”

Quinta-feira, 12 de Fevereiro, 2009

Imaginem que alguém vos diz isso… ou o equivalente, por outras palavras. O que é que isso vos faz sentir? Como é que reagem?

A minha reacção é sentir-me elogiado, lisonjeado. Posso estar interessado ou não, posso fazer alguma coisa (se não estiver numa relação) ou não, mas, de qualquer forma, nunca acharia isso ofensivo ou depreciativo. Ser desejado (independentemente do nosso desejo recíproco ou ausência do mesmo) é sempre um elogio que nos fazem, acho eu. “Atrais-me” é sempre melhor do que não me atrais”.

Então porque é que tanta gente – sobretudo, lamento dizer, do sexo feminino – leva a coisa como um insulto, uma ofensa? Porque é que tanta gente reage a uma expressão de desejo físico com pensamentos (e subsequentes reacções) do tipo: “ele só me quer pelo meu corpo”, “vê-me como um pedaço de carne”, “para ele só sirvo para isso”, “que tarado”, “deve pensar que eu sou dessas”, e muitas vezes coisas ainda piores?

Serei só eu a achar que o “desejo-te” não é um julgamento de valor, uma crítica ou um denegrir de nada da nossa personalidade, mas sim apenas um desejo de algo em nós? Será assim tão estranho não extrapolar o “gosto de C de ti” para “detesto o A e B em ti, só prestas pelo C”?

E porque é que as pessoas reagem a um elogio – às vezes um simples “és bonita” – como se fosse um insulto (“só te interessa o físico, é?”). Bem, eu imagino porquê. Mas continuo a achar absurdo.

Discussão e Agressividade

Terça-feira, 10 de Fevereiro, 2009

We must begin with a few round truths about myself: when I get into a debate I can get very, very hot under the collar, very impassioned, and I dare say, very maddening, for once the light of battle is in my eye I find it almost impossible to let go and calm down. I like to think I’m never vituperative or too ad hominem but I do know that I fall on ideas as hungry wolves fall on strayed lambs and the result isn’t always pretty. This is especially dangerous in America. I was warned many, many years ago by the great Jonathan Lynn, co-creator of Yes Minister and director of the comic masterpiece My Cousin Vinnie, that Americans are not raised in a tradition of debate and that the adversarial ferocity common around a dinner table in Britain is more or less unheard of in America. When Jonathan first went to live in LA he couldn’t understand the terrible silences that would fall when he trashed a statement he disagreed with and said something like “yes, but that’s just arrant nonsense, isn’t it? It doesn’t make sense. It’s self-contradictory.” To a Briton pointing out that something is nonsense, rubbish, tosh or logically impossible in its own terms is not an attack on the person saying it – it’s often no more than a salvo in what one hopes might become an enjoyable intellectual tussle. Jonathan soon found that most Americans responded with offence, hurt or anger to this order of cut and thrust. Yes, one hesitates ever to make generalizations, but let’s be honest the cultures are different, if they weren’t how much poorer the world would be and Americans really don’t seem to be very good at or very used to the idea of a good no-holds barred verbal scrap. I’m not talking about inter-family ‘discussions’ here, I don’t doubt that within American families and amongst close friends, all kinds of liveliness and hoo-hah is possible, I’m talking about what for good or ill one might as well call dinner-party conversation. Disagreement and energetic debate appears to leave a loud smell in the air.

Stephen Fry, 2007

Ao trocar ontem uns mails com aquela que ultimamente tem sido a comentadora mais frequente no Ostras, e que coincidentalmente ou não (ler o excerto acima) está a viver em Inglaterra há já algum tempo, lembrei-me de uma entrada no blog do Stephen Fry (entre muitas outras coisas, é o Melchett e o Wellington no Blackadder), escrita estando ele a viajar pelos EUA, e em que ele fala das diferenças entre as culturas inglesa e americana ao discutir – que, mesmo sem entrar em ataques pessoais, a forma de discutir no UK tende a chocar os americanos pela sua agressividade. Leiam o excerto acima, se não o fizeram já.

Eu confesso que cresci a acreditar que atacar ideias (ao invés de atacar pessoas) nunca seria encarado por nenhum ser racional como um ataque pessoal, nem devia ferir sentimentos ou susceptibilidades, mas o que é facto é que a vivência ensinou-me que a realidade é – infelizmente – bem diferente. Talvez por isso, tendo participado em muitas discussões, tanto cara-a-cara como em vários blogs – incluindo este, mas sobretudo o Way of the Mind –, seja bem mais “soft” no meu ataque às ideias de outra pessoa, quando as considero erradas, absurdas, auto-contraditórias e oriundas de a pessoa nunca ter pensado muito na questão, ou ter dificuldade em questionar coisas em que sempre acreditou. Não devia ser preciso, mas é… ou será?

É verdade que a maior parte das pessoas não consegue separar as ideias dos donos delas – sobretudo quando se trata do seu próprio caso. Dizer algo tipo “estás errado, por isto, isto e isto” não devia nunca ser ofensivo – pode ser uma “waking call”, e uma pessoa arrogante e orgulhosa pode sentir-se humilhada e ferida no seu orgulho, mas não é uma ofensa pessoal, e só um idiota é que o encara como tal. Mas, infelizmente, é – e eu próprio noto que caí na armadilha, já que, apesar de não ter papas na língua a criticar coisas como a religião em posts, tenho especial cuidado para não ofender visitantes em respostas aos comentários deles. Simpatia e cortesia são coisas positivas, sem dúvida, mas será que sou cuidadoso demais?

Opiniões?

O sexo é uma coisa porca?

Segunda-feira, 2 de Fevereiro, 2009

Eu acho que não. Imagino – espero – que algum possível leitor do meu blog também ache que não.

Mas cada vez acho mais que quase toda a gente acha que sim.

Os meus anos de observação do caos vulgarmente chamado “humanidade” leva-me a constatar o seguinte: que as pessoas se dividem entre as que acham o sexo porco, e isso as enoja, e as que acham o sexo porco, e isso as excita.

O segundo caso é provavelmente óbvio; são as pessoas para quem o sexo não passa de prazer físico (ou mesmo somente um “descarregar”), idealmente em situações ilícitas, e a fazer coisas que “não se pode pedir à namorada / mulher”. O sexo é em geral feito “a la filme porno”, isto é, não só está completamente desprovido de algum tipo de carinho ou preocupação com o prazer da outra pessoa, como além disso não envolve qualquer contacto físico excepto o dos orgãos genitais. É o caso típico do homem de bigode de meia idade, que possivelmente trabalha a conduzir algum tipo de veículo 🙂 , para quem a mulher é para cuidar da casa e dos filhos, e que, em geral, paga pelo sexo que tem. Uma versão diferente é o tipo mais novo, que tem boa aparência suficiente (e há mulheres com suficiente falta de auto-estima) para não ter de pagar. São os que acham que “há aí alguma gaja boa?” é uma óptima forma de entrar num chat, e “és muita boa, f*dia-te toda” é a maneira ideal de meter conversa num site de social networking. E, claro, há versões femininas disto tudo.

Mas o primeiro caso pode não ser tão óbvio. Refiro-me (e já sei que vai haver quem me insulte pelo post – ou então ninguém lê isto… não sei o que será pior 😛 ) a quem acha que “sexo só depois do casamento”, ou “sexo só numa relação”, ou “sexo só com amor”. Isto é considerado o ideal de moralidade neste aspecto; mesmo quem não age realmente assim, muitas vezes finge fazê-lo ao falar com quem ainda não conhece bem, com quem ainda não confia; só depois de vir a confiança é que se admite, de forma embaraçada, que ocasionalmente se tem sexo sem uma relação ou sentimentos, apenas por prazer. E porquê essa ideia, essa vergonha, esse embaraço? Porque subscrevem a mesma moralidade dos do parágrafo acima, uma moralidade em grande parte vinda de quase 2000 anos de domínio religioso da mesma, e que afecta inevitavelmente o zeitgeist moral da sociedade, mesmo nos casos de quem não tem qualquer crença religiosa. Subscrevem a ideia de que o sexo é porco, que é imoral, que nos reduz – excepto em determinadas condições. Neste caso, casamentos, relacionamentos, ou simplesmente um sentimento forte em relação à outra pessoa. Ou seja, o sexo por si só não é moralmente positivo (porque “é porco”, afinal), mas nesses contextos passa a ser aceitável; o “porco” fica atenuado. Resumindo: o sexo tem de ser justificado. Não é moral, não é válido por si só. Precisa de uma justificação externa.

Ora, uma coisa boa, agradável, bonita, e que não faz mal a ninguém, não precisa de justificação externa.

Não precisas de justificar porque é que comes algo que te sabe bem, ou dormes quando tens sono, ou conversas com amigos cuja companhia aprecias, ou vês um filme ou série de que gostas, ou ouves uma música que é especial para ti e te toca na alma. Não precisas de justificar nada disso; aliás, só a ideia em si já é absurda. Para quê justificar? É bom! É agradável! Faz-te sentir bem! Não te faz mal a ti, nem a ninguém!

Uma coisa só precisa de justificação se for, por alguma razão, um “mal necessário”; ou seja, é algo desagradável, ou aparentemente mau de alguma forma, mas há uma razão mais forte para o fazer – uma justificação. Tal coisa não é precisa para algo que já é bom à partida: isto é, por definição, auto-justificado1.

“Sexo é porco, que nojo” ou “sexo é porco, que fixe”? Tal como em qualquer falsa dicotomia, há uma terceira e menos óbvia hipótese: que o sexo não é, de todo, porco. É algo bom, natural, agradável, saudável e bonito, que não reduz nem “suja” quem o faz, e que, sendo feito consensualmente entre adultos, não pode – independentemente de qualquer detalhe como “há quanto tempo se conhecem”, “preferências sexuais”, “posições”2, relação (ou falta dela) entre as pessoas, número de pessoas :), etc. – ser imoral. Ou errado. Ou “porco”.

  1. por exemplo, apesar de várias filosofias colectivistas (comunismo, fascismo, etc.) e várias religiões monoteístas afirmarem que as nossas vidas precisam de uma justificação externa (servir o povo, servir o estado, servir Deus), a implicação daí, e que revela o mal monstruoso dessas ideias, é que nós não somos por nós próprios dignos de estar vivos, que não somos auto-justificados. Isso é, claro, absurdo, e causa de sofrimento para milhões ao longo da história. But I digress… []
  2. não riam – há várias posições e tipos de sexo que ainda são ilegais nas Constituições e leis de vários estados nos EUA. []

Coisas que me irritam, parte 7

Segunda-feira, 2 de Fevereiro, 2009

Gente que se faz difícil.

Quem não quer algo, tudo bem. Mas quem efectivamente quer, mas acha que tem de se fazer / mostrar difícil e desinteressado/a, muitas vezes por uma razão tão estúpida como “não parecer fácil”(!), é um(a) imbecil, e não vale qualquer tipo de esforço.

E não, isto não é só sobre engates, dating, whatever, se bem que isso é talvez o exemplo mais óbvio desta cretinice irracional, infelizmente bastante comum.

Coisas que me irritam, parte 6

Terça-feira, 27 de Janeiro, 2009

Bonés de pala.

A sério, eu posso dar um leve desconto se o uso deles for “vou para um sítio onde há imenso sol, que me perturba a visão”. Para quando os óculos escuros não chegam.

Mas usá-los por razões estéticas? Porque acham que dá estilo? (assumindo que, por “estilo”, não querem dizer “parecer um teenager chunga entre os chungas”…) Yuck. 😕

Ah, e na estrada afasto-me dos carros conduzidos por quem usa tal indumentária. Em geral, quando de seguida observo a condução deles, não me arrependo de o ter feito. Deve haver uma relação. 🙂

P.S.: gorros – usados por qualquer razão que não seja “tenho frio na cabeça”, que de qualquer forma não considero possível no centro de Portugal, but let’s be nice – são quase tão maus. 😈

Coisas que me irritam, parte 5

Quarta-feira, 21 de Janeiro, 2009

Pessoas (em geral idosos) que não têm qualquer problema em ficar na conversa fiada com os empregados de uma loja, havendo uma fila de pessoas atrás, estando essas pessoas muitas vezes com pressa (porque estão na hora de almoço e têm de ir trabalhar, por exemplo).

Repare-se, eu até compreendo a posição destes idosos aqui. Estão reformados, têm muitas vezes tanto tempo livre que não sabem o que fazer com ele (aqui ao pé do meu trabalho há um velhote que vai várias vezes por dia espreitar o carro, e com um lenço limpar qualquer tipo de “impureza” no mesmo; não deve ter mesmo mais nada pelo que viver), e em geral os membros mais novos da família não lhes ligam nenhuma, pelo que se sentem sozinhos e têm imensa necessidade de conversar, contar a história da sua vida, e coisas do género. Compreendo isso.

O que não compreendo é que se seja tão egoísta e se tenha tão pouca empatia para com o próximo que não se tenha problemas em prejudicar – possivelmente de forma séria, caso alguém tenha de tratar de uma coisa importante e tenha de ir/voltar para o trabalho – outras pessoas que não têm nada a ver.

E os empregados, em geral, não ligam: estão a ser pagos à hora, e estar a “ouvir na diagonal” as histórias do velhote durante uma hora é até menos trabalhoso do que atender 20-30 clientes nesse mesmo tempo. E das poucas vezes em que eles se apercebem disso (o que noto ser raro), o que é que eles podem fazer? Ser firmes/antipáticos com o idoso? É complicado. E em geral estes últimos não percebem a indirecta do “deseja mais alguma coisa?”.

Noto isto todas as vezes que vou aos correios; às vezes pode apenas haver uma pessoa à minha frente, e mesmo assim tenho de esperar lá 15-30 minutos, porque a velhota não pode enviar uma carta para a filha sem contar à empregada a história da filha desde o nascimento até hoje. E, claro, tratando-se de um serviço público e essencial, não há qualquer motivação para se ter um atendimento melhor, mesmo que isso signifique apenas “mais do que uma pessoa a atender”. No banco, onde fui ontem, a mesma coisa. Na loja da Vodafone, a que fui hoje, o mesmo – apesar de ter esperado quase meia-hora, quando saí ainda havia 2 pessoas a ser atendidas que já o estavam a ser quando eu cheguei (e não quando fui atendido). Num dos casos, o velhote queria que a empregada lhe estivesse a mostrar todos os toques do telemóvel dele para ele decidir… e claro que isso não implicava mostrar cada um apenas uma vez. E nem o velhote teve problemas com as inúmeras pessoas à espera, nem a empregada teve alguma consciência de que não devia propriamente estar a fazer aquilo (não havendo ninguém à espera, talvez… mas com a loja cheia?).

E desculpem o desabafo. 🙂

P.S. – isto não é anti-idosos, é anti-idosos-que-fazem-isto.

As declarações do cardeal

Segunda-feira, 19 de Janeiro, 2009

Lembro-me de no fim da semana passada ver a notícia de relance na televisão, quando estava nas instalações de um cliente. Sem saber detalhes sobre o que o nosso “witch doctor” D. Policarpo exactamente disse, supus que fosse algo de carácter religioso – ou seja, “afastem-se deles, eles têm a superstição errada”.

Ontem, por sugestão de uma amiga, investiguei melhor o que ele disse. E estou quase decepcionado. 🙂 Na verdade, não tem nada a ver com religião, apenas com racismo e xenofobia; a atitude do feiticeiro-mor-da-tribo de Portugal é virtualmente igual à atitude típica de um velhote racista estereotípico: “não se misturem com eles. Eles não são como nós.” Exactamente como se se estivesse a falar de estrangeiros ou de alguém com a pele de cor diferente. “Eles não acreditam nos nossos ideais. Não pensam como nós. São diferentes. São estranhos. Não tenham nada com eles. Mantenham distância.”

É tribalismo na mesma (como toda e qualquer atitude de “eles contra nós contra eles”), mas não é, neste caso, tribalismo religioso. Não sei, neste caso, se será melhor ou pior. Infelizmente, não estou a ver os “media” a denunciar o aparente racismo do líder do culto mais popular em Portugal de adoração de um amigo imaginário, talvez porque de certa forma partilhem da mesma xenofobia (sobretudo depois do 11 de Setembro), e também porque isto parece à primeira vista uma questão de religião, e isso (cobarde e irracionalmente) não se critica, sobretudo se for a da maioria.

A capacidade de conduzir, parte 2: o álcool

Quinta-feira, 15 de Janeiro, 2009

Os leitores regulares do Ostras (eu ainda gosto de me convencer de que eles existem) saberão qual é a minha opinião em relação aos limites de álcool no sangue, que é igual à dos limites de velocidade: devem existir, mas são baixos demais.

Mas pensemos, ainda em relação a este assunto, na questão dos limites de álcool.

A razão principal para estes existirem e serem tão baixos, dizem “eles”, é que o álcool reduz os reflexos, aumentando o tempo de reacção, o que é propício a acidentes.

A implicação disto para mim é óbvia, se bem que ninguém parece pensar nisso: há um nível mínimo de reflexos considerado “seguro” para conduzir. Supostamente, o álcool faz-nos descer abaixo desse limite, tornando-nos um perigo para nós e para os outros.

O que dizer, então, de alguém que, mesmo sem tocar numa gota de álcool, no seu estado normal, tem reflexos abaixo desse nível? Tem naturalmente piores reflexos do que os da pessoa “média” depois de 2 copos? Não está implícito que tal pessoa não tem capacidade para conduzir nunca? Que como tal devia ser impedida de o fazer, pelas mesmas razões que existem limites de álcool: a sua segurança e a dos outros? “Lamentamos, mas o senhor demonstrou não ter reflexos para conduzir”?

Eu acho que sim. Já sei, já sei, elitista nojento.

Coisas que me irritam, parte 2

Domingo, 11 de Janeiro, 2009

Pessoas que confundem os conceitos “teimosia” e “personalidade forte”.

Não tens “força de carácter” nem “louvável integridade” se te mantiveres, sob ataque constante da realidade, fiel ao teu “princípio” de que 2+2=5. Mas, tristemente, parece haver muita gente a achar que sim.

A capacidade de conduzir

Sexta-feira, 9 de Janeiro, 2009

Sim, é mais um “rant” sobre a condução em Portugal. 🙂

Uma das coisas que me deixa frustrado, ao conduzir, é ir atrás de pessoas que claramente não têm – ou não têm – capacidade física e/ou mental para conduzir… mas continuam a fazê-lo, estando-se nas tintas para o facto de prejudicarem o trânsito, e, muitas vezes, porem outros em perigo.

Em geral – mas não sempre – trata-se de idosos. Não, não tenho qualquer tipo de preconceitos contra os mesmos, mas considero a situação da condução de muitos deles equivalente à dos cegos. Não deixar os cegos conduzir é sinal de preconceito contra eles? Claro que não, nem ninguém sugeriria tal disparate – nem se vê aí campanhas da parte dos cegos a reivindicar o seu direito à condução, mesmo não vendo (literalmente) nada à frente deles. Não é preconceito, não é descriminação – simplesmente, eles não têm a capacidade física para conduzir.

Eu acredito – e já sei que vou ser acusado de elitismo, but bear with me – que isso devia ser extendido a outros casos.

Já o disse aqui há uns anos, mas conduzir, acreditem ou não, é algo bem mais complicado do que parece, e a maior parte dos condutores não se apercebe disso porque faz quase tudo por instinto, por hábito. Mas, se esquecermos temporariamente o hábito, e formos a contar em quantas coisas é preciso mexer, e a quantas coisas é necessário estar atento, vemos que não é assim tão simples. É, até, bem mais exigente em termos de coordenação motora, reflexos, e sentidos em geral, do que praticamente qualquer videojogo – que muita gente se “gaba” de não ser fisicamente capaz de controlar (veja-se o sucesso da Wii, que dá a volta a isso). O que é que é mais difícil de controlar: um carro típico, ou um jogo de Xbox ou Playstation? Eu diria que é o primeiro. Até porque há uma coisa totalmente imprevisível e caótica chamada “outros condutores”.

E preciso de mencionar que um videojogo, em geral, não nos põe a nós nem aos outros em perigo de vida?

Mais um exemplo para comparação: pilotos comerciais de aviões. Não é qualquer um; é preciso, entre outras coisas, ver muito bem, ter a capacidade para tomar decisões “split second”, e não se enervar à primeira dificuldade. Ninguém acusa uma companhia de aviação de “descriminação” por recusar alguém que não esteja em perfeito estado físico e mental – muito pelo contrário, seria criminalmente irresponsável se não o recusassem.

Não era bom começar-se a aceitar que conduzir não é um “direito de todos” (afinal, os cegos já não podem), e, para a segurança de toda a gente, passar-se a testar a tal coordenação física e estabilidade mental de toda a gente – mesmo que isso implique tirar a carta a metade das pessoas acima dos 55 anos (e muitos bem mais jovens, também)?

Vá, acusem-me lá de elitismo, descriminação contra os idosos, e essas coisas. Eu adoro quando as pessoas me chamam nomes sem ler o post inteiro. 🙂

Coisas que me irritam, parte 1

Sexta-feira, 9 de Janeiro, 2009

Mencionar a alguém que gosto de alguma coisa relacionada com ficção ou fantasia (ex. Tolkien, Star Trek, zombies, super-heróis, etc.), e a outra pessoa, muito assombrada, perguntar-me: “mas tu acreditas mesmo nessas coisas!?”

*suspiro* Não, não “acredito”. Será inconcebível que se tenha uma paixão por algo, e mesmo assim se mantenha a noção do que é real e não é? Será que gostar realmente de ficção é só para maluquinhos?

Aborto: a vingança parte II

Quarta-feira, 31 de Janeiro, 2007

(ei, já vi títulos piores!)

Nota: o seguinte é adaptado e um pouco expandido de um comentário que fiz no blog do Mário Lopes. Uma boa parte do que se segue já foi dito noutros posts, recentemente, aqui, mas não exactamente por estas palavras… e nem tudo é repetido.

Tento, também, responder, finalmente, à questão do Samuel: “O que é que é um ser humano? Quando é que um feto se torna um ser humano?”, se bem que o comentário-tornado-post, em geral, não foi escrito para responder a essa questão, mas sim ao tal post do Mário Lopes. Daí ser expandido, e não copiado. 🙂

Without further ado…

(mais…)

Aborto: Resposta ao Sérgio, e desabafo

Quarta-feira, 24 de Janeiro, 2007

Comecei a escrever um comentário, mas ficou grande, e acho melhor que seja um post completo.

O teu post não é sobre o sofrimento. O teu post é que é um insulto a todas as pessoas que têm uma opinião diferente da tua. Tu generalizas e achas que todos os que vão votar não são retrógados religiosos. Dessa forma eu nunca poderei discutir o assunto contigo.

E acho piada que como eu acusei o teu post, tu assumiste imediatamente que eu era um dos do ‘não’. Eu nunca manifestei aqui a minha opinião sobre o aborto, apenas sobre a forma como tu abordas o tema que é com palas nos olhos. Aliás acho que tens vindo a colocar cada vez as palas mais apertadas.. O meu interesse neste blog desapareceu… ainda tinha alguma esperança, mas acho que se foi mesmo.

é menos uma feed no leitor.

Sérgio: não sei se ainda lerás isto, mas é uma pena. De qualquer forma, no outro post dos limites de velocidade, demonstraste que não lês os posts, já que tiraste uma conclusão completamente diferente do que eu escrevi, e acusaste-me de ter como único objectivo subir os limites de velocidade para poder andar aí como um louco a atropelar pessoas e provocar acidentes. Alguém que conclui isso 1) não leu nada do que escrevi, como disse, e 2) tem mesmo — sem me conhecer de lado nenhum — uma opinião muito baixa (e insultuosa, até) sobre mim.

Quanto ao resto, aquele meu post é sobre o sofrimento, sim. O sofrimento provocado ao longo da história, por causa de preconceitos, mentes fechadas, ignorância, religião, e o separar da moralidade do sofrimento (ou seja, a moralidade é agradar a alguma entidade, e se isso implica o sofrimento de milhões, paciência). Há mal quando essa moralidade leva as pessoas a causar o sofrimento de gerações após gerações. Repugna-me, como já disse várias vezes, essa separação da moralidade e do sofrimento. Repugna-me que alguém se veja como “defensor da vida” mas tenha um conceito tão limitado de “vida” que não tenha problemas em condenar pessoas (mães e filhos) a vidas inteiras de sofrimento — de “morte em vida”. Repugna-me que haja mais dor e agonia causados por estes “defensores da moralidade” do que por quem não se vê como tal — e que ninguém pareça reparar nisso; que ninguém seja capaz de dizer “o rei vai nu” em relação a esses “defensores”, de dizer que a “moralidade” que eles defendem não é realmente moral, que eles não falam pelo resto da humanidade.

Não sou relativista. Não vejo tudo na vida como uma simples “diferença de opinião”, em que uma é tão válida como a outra. Se uns querem aliviar o sofrimento e os outros o criam, sem terem nenhum problema com isso, não vou dizer que a moralidade de ambos é igualmente válida.

Ao fazer isto, sou “agressivo”, “insulto as opiniões dos outros”, e “tenho palas nos olhos”. Porque não devia importar-me e deixar que isto me afecte. E porque devia ser relativista, e não julgar, em vez de afirmar que há um lado certo e um lado errado.

Mas não sou assim. Se é alguém assim que querem, realmente estão no blog errado. Sorry.