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Lógica à Portuguesa

Quarta-feira, 29 de Agosto, 2007

Pensem numa auto-estrada cujo limite de velocidade é 120.

Certo dia, um maluco vai nessa estrada a 200, e provoca um acidente com vários carros, incluindo uma carrinha cheia de crianças (para os media pegarem a sério na história). Celebridades e políticos são entrevistados, bem como pessoas comuns na rua, e o consenso geral aponta para uma medida: reduzir os limites de velocidade, para os carros andarem mais devagar e haver menos acidentes.

Pergunta: baixar o limite dessa estrada de 120 para 100 (quando o acidente foi provocado por alguém a 200), ou mesmo 80, vai de alguma forma torná-la mais segura?

É claro que não!… e nem vos vou insultar explicando-vos o porquê. Mas o português típico parece achar que sim, e ainda vive na ilusão parva de que reduzir os limites de velocidade (que já são baixos) contribui para a diminuição dos acidentes.

Newsflash: o que causa acidentes não é andar-se a 120 numa recta com 3 faixas para cada lado e separador central. É, sim, a falta de civismo (“não vou deixar este passar”), de maturidade, de habilidade (ainda acho que nem toda a gente tem a coordenação necessária para conduzir um automóvel, e as aulas de condução deviam filtrar quem não a tem, em vez de terem medo de acusações de “elitismo”)… e, sim, aqueles que andam a 200 ou mais, e muitas vezes a fazer “habiildades de circo”, a exibir o seu tuning, e alcoolizados (e refiro-me a alcoolizados a sério, não apenas a ter bebido uma cerveja).

Os actuais radares em Lisboa são nojentos. Os limites são absurdamente baixos (50 km/h no prolongamento da Av. Estados Unidos, que tem 2 faixas para cada lado? nota-se que esta gente anda de limusina, e não tem qualquer noção…), a tolerância é quase inexistente, os lucros das multas têm sido brutais (o que é uma forma de roubar as pessoas — porque não reduzirem para 20 km/h, e facturar ainda mais?).

O triste disto tudo é que, se alguém se queixa, vêm logo as tias (que não conduzem) guinchar “ah, tu queres é andar a fazer fórmula 1”. Não. Não quero anular os limites, quero é que eles sejam razoáveis e façam sentido, em vez de serem arbitrários, de forma a multar o maior número de gente possível. Quero que a polícia volte a fazer o seu trabalho e vá atrás de quem realmente põe os outros em perigo, em vez de multarem (agora até de forma automática!) quem passa de um limite definido arbitrariamente por algum burocrata ou político que obviamente não conduz o seu próprio carro e nem tem noção do que é andar a 50 km/h.

Quero que as estradas portuguesas sejam seguras porque os condutores sem civismo são punidos, não porque elas se transformam num estado policial em que uma pessoa até começa a ter medo de circular.

E fico-me por aqui. Discordem à vontade, dando as vossas razões, mas acusações de “só queres andar a fazer rali” e “por causa de gente como tu é que morre tanta gente na estrada”, que demonstram claramente que não leram o post, serão apagadas. Já tolerei isso noutro post há meses, e não foi nada boa ideia.

Referendos, democracia e controlo

Terça-feira, 6 de Fevereiro, 2007

Já outros o disseram (e não podia recomendar mais a leitura desse post, que considero brilhante), e eu próprio já o mencionei no primeiro post sobre o aborto, mas acho que isso merece ser frisado mais uma vez, e expandido: não deveria haver referendo.

O problema de um referendo como este é o problema da democracia directa em geral: é uma ditadura da maioria. Se não há um conjunto de direitos individuais inalienáveis, e completamente acima da “vontade do povo”, então existe um problema: uma maioria pode “sacrificar” uma minoria.

O post para o qual linkei acima dá um bom exemplo: as praias de nudismo. A maior parte das pessoas no país (incluindo eu próprio) não faz nudismo quando vai à praia; logo, o que aconteceria se se fizesse um referendo nesse sentido, de forma a aplicar uma lei ao país inteiro? É certo que haveria alguns “ajuizados” que, mesmo sem o praticarem, votariam para que este não fosse totalmente proibido, mas acredito que, mesmo assim, o “não” ganharia. A maioria que é contra o nudismo (ao contrário de simplesmente não o praticar) está em maior número do que a soma dos que o querem praticar e dos que não o praticam mas não querem impor a sua moralidade a outros. Assim sendo, não haveria praias reservadas para nudistas; simplesmente, seria proibido, e quem quer que o praticasse estaria sujeito a multas ou prisão.

Democrático? Sim. Injusto? Sem dúvida. E é por isso que, em vez de se fazer um referendo, se definiu praias especialmente para nudistas. Provavelmente ainda há uns moralistas que acham que qualquer tipo de nudismo público, seja onde for, é “pecaminoso”, e que se sentem incomodados por saberem que alguém, em algum lado, está nu numa praia (nem que seja a 300 km dali) mas não podem fazer nada a respeito disso.

Um outro exemplo: a maior parte dos países árabes, acreditem ou não, tem governantes bem mais liberais do que o povo dessas mesmas nações. Se num país como a Arábia Saudita, Síria, Irão, etc., se fizesse um referendo em relação aos direitos das mulheres, elas ficariam muito pior do que estão actualmente (o que já é bem mau). Ou se houvesse um referendo relativamente ao que fazer aos “infiéis”, em breve os apedrejamentos estariam legislados (não apenas permitidos, mas obrigatórios). O povo é mais fanático e mais brutal do que os governantes. Se houvesse “democracia” total, haveria muito menos justiça e muito menos liberdade. A maioria esmagaria as minorias.

Tal como disse Larry Flynt, uma democracia que esteja acima dos direitos individuais é o equivalente a três lobos e uma ovelha a votar sobre o que vai ser o jantar.

O caso actual é mais do mesmo. Não deveria haver referendo, porque este acaba por dar poder a um grupo a querer controlar o que os outros podem ou não fazer, violando assim os seus direitos individuais — e esse grupo é suficientemente grande para o conseguir “democraticamente”. E, por isso, o facto de haver este referendo é de uma cobardia tremenda da parte do PS, que tem maioria absoluta e é, supostamente, a favor do “sim”. Não se trata de “o povo decidir”; há direitos individuais que devem estar acima da vontade do povo, e que não estão a ser respeitados. E qualquer governo que se preze deveria ter como papel principal proteger esses direitos.

Um governo que não o faça… não serve para nada.

Aborto: a vingança parte II

Quarta-feira, 31 de Janeiro, 2007

(ei, já vi títulos piores!)

Nota: o seguinte é adaptado e um pouco expandido de um comentário que fiz no blog do Mário Lopes. Uma boa parte do que se segue já foi dito noutros posts, recentemente, aqui, mas não exactamente por estas palavras… e nem tudo é repetido.

Tento, também, responder, finalmente, à questão do Samuel: “O que é que é um ser humano? Quando é que um feto se torna um ser humano?”, se bem que o comentário-tornado-post, em geral, não foi escrito para responder a essa questão, mas sim ao tal post do Mário Lopes. Daí ser expandido, e não copiado. 🙂

Without further ado…

(mais…)

Aborto: Resposta ao Sérgio, e desabafo

Quarta-feira, 24 de Janeiro, 2007

Comecei a escrever um comentário, mas ficou grande, e acho melhor que seja um post completo.

O teu post não é sobre o sofrimento. O teu post é que é um insulto a todas as pessoas que têm uma opinião diferente da tua. Tu generalizas e achas que todos os que vão votar não são retrógados religiosos. Dessa forma eu nunca poderei discutir o assunto contigo.

E acho piada que como eu acusei o teu post, tu assumiste imediatamente que eu era um dos do ‘não’. Eu nunca manifestei aqui a minha opinião sobre o aborto, apenas sobre a forma como tu abordas o tema que é com palas nos olhos. Aliás acho que tens vindo a colocar cada vez as palas mais apertadas.. O meu interesse neste blog desapareceu… ainda tinha alguma esperança, mas acho que se foi mesmo.

é menos uma feed no leitor.

Sérgio: não sei se ainda lerás isto, mas é uma pena. De qualquer forma, no outro post dos limites de velocidade, demonstraste que não lês os posts, já que tiraste uma conclusão completamente diferente do que eu escrevi, e acusaste-me de ter como único objectivo subir os limites de velocidade para poder andar aí como um louco a atropelar pessoas e provocar acidentes. Alguém que conclui isso 1) não leu nada do que escrevi, como disse, e 2) tem mesmo — sem me conhecer de lado nenhum — uma opinião muito baixa (e insultuosa, até) sobre mim.

Quanto ao resto, aquele meu post é sobre o sofrimento, sim. O sofrimento provocado ao longo da história, por causa de preconceitos, mentes fechadas, ignorância, religião, e o separar da moralidade do sofrimento (ou seja, a moralidade é agradar a alguma entidade, e se isso implica o sofrimento de milhões, paciência). Há mal quando essa moralidade leva as pessoas a causar o sofrimento de gerações após gerações. Repugna-me, como já disse várias vezes, essa separação da moralidade e do sofrimento. Repugna-me que alguém se veja como “defensor da vida” mas tenha um conceito tão limitado de “vida” que não tenha problemas em condenar pessoas (mães e filhos) a vidas inteiras de sofrimento — de “morte em vida”. Repugna-me que haja mais dor e agonia causados por estes “defensores da moralidade” do que por quem não se vê como tal — e que ninguém pareça reparar nisso; que ninguém seja capaz de dizer “o rei vai nu” em relação a esses “defensores”, de dizer que a “moralidade” que eles defendem não é realmente moral, que eles não falam pelo resto da humanidade.

Não sou relativista. Não vejo tudo na vida como uma simples “diferença de opinião”, em que uma é tão válida como a outra. Se uns querem aliviar o sofrimento e os outros o criam, sem terem nenhum problema com isso, não vou dizer que a moralidade de ambos é igualmente válida.

Ao fazer isto, sou “agressivo”, “insulto as opiniões dos outros”, e “tenho palas nos olhos”. Porque não devia importar-me e deixar que isto me afecte. E porque devia ser relativista, e não julgar, em vez de afirmar que há um lado certo e um lado errado.

Mas não sou assim. Se é alguém assim que querem, realmente estão no blog errado. Sorry.

Mais aborto… agora, outras opiniões

Terça-feira, 23 de Janeiro, 2007

Do meu lado, acho que não vou acrescentar muito mais à questão. Já fui insultado por ter a minha opinião, por ter pensado nela, e por estar certo da mesma, quando hoje em dia é considerado “arrogante” ter uma opinão forte baseada no pensamento; só se aceita uma opinião forte baseada em emoções. Ou em autoridade, ou em religião, ou… Bah.

De qualquer forma, se alguém quiser comentar os meus posts anteriores, e, para variar, quiser responder ao que eu escrevi (em vez de se limitar a dizer que “sou muito agressivo”), tal será apreciado.

Neste post, vou apenas mencionar o que outros disseram (fora deste blog) sobre esta questão.

Primeiro, um post da namorada, chamado A Interrupção Voluntária da Gravidez…. É um bocado mais detalhado do que os meus, e acho que mostra bem os dois lados da questão. Vá, leiam e comentem. 🙂 Inclui argumentos como este:

Para quem não sabe, até às 10 semanas há muitas mulheres que nem têm uma gravidez confirmada e que têm aborto espontâneo sem que soubessem que estavam grávidas. O próprio corpo se encarrega de “expulsar” fetos com problemas graves, é parte da “selecção natural” de Darwin, a não-sobrevivência dos fracos, dos inviáveis.

Logo, segundo a moralidade dos “nãos” (que confundem um ser humano com um aglomerado de células que é um potencial ser humano), quase todas as mulheres com vida sexual são “mass murderers” e nem o sabem…

Depois, quero mostrar um post que considero ser totalmente ridículo. Vem de um partido americano, “America First Party”, que é basicamente mais republicano do que os Republicanos. O post chama-se… wait for it… Abortion Leads to Nuclear War. Sim, parece que a Madre Teresa (que pode ter sido muitas coisas, mas não era, de certeza, uma pessoa inteligente ou culta – ou então era muito mentirosa, porque sem dúvida dizia grandes disparates) disse algo desse género, e os fanáticos de todo o mundo pegam nisso. Portanto, já sabem – não querem ver cogumelos enormes no horizonte, não abortem. Ah, e…

It is abhorrent that abortion supporters choose to hide behind the term ‘choice’ to mask their goal of destroying unborn children and promoting immoral behavior without responsibility

Destruir crianças! Que horror! Que tipo de monstro desumano e cruel quereria alguma vez fazer tal acto hediondo? 😯

É claro que as coisas não são bem assim. Sugiro-vos esta alternativa… deixem se ser um aglomerado irracional e disforme de emoções, e sejam humanos: pensem um pouco. Como este post, em resposta ao comunicado anterior, diz,

nuclear bombs have been used once in war, and I seriously doubt the bombing of Hiroshima and Nagasaki had anything to do with abortion, considering it wasn’t legal in the US in 1945.

E, em resposta à idiotice de “destruir crianças” citada anteriormente,

Let me tell you right now, no one wants to destroy children. It’s just that sometimes an abortion is the only option a mother may have to keep from ruining her life or the lives of her future children. Life is not always fair or simple. That’s the way it is. I wish we could all live in a dream world of magic, but we don’t, and trying to legislate it into reality won’t make it so.

Não teria dito melhor.

Aborto e sofrimento

Quinta-feira, 18 de Janeiro, 2007

Em resposta aos vários comentários em Aborto e Controlo:

Um feto não é um ser humano, é um potencial ser humano. Pô-lo acima de um ser humano VIVO, que pensa e sente, é absurdo.

E é curioso que já mencionei isso no outro post várias vezes, mas nenhum dos pró-nãos comenta: e a questão do sofrimento? A questão de estarem a condenar, muitas vezes, tanto a mãe como a eventual criança a uma vida de dor, sofrimento e tristeza? Isso não vos incomoda, pois não? Serem “protectores da vida” faz-vos sentir muito heróicos, muito morais, e estão-se nas tintas para o resto.

“Vida” é muito mais do que um coração estar a bombear sangue. Mas para vocês, só isso é que conta.

Mais uma vez: não querem abortar? Não abortem. Mas deixem os outros em paz.

Gente como vocês já atrasou a medicina em séculos, por fazer com que autópsias fossem tabu. Já atrasou a ciência em séculos, por perseguir cientistas que afirmavam coisas contrárias à posição da igreja.

Gente como vocês tentou impedir o fim da escravatura há alguns séculos, porque na Bíblia esta é aceite como algo normal. Tentou impedir o uso de anestesia no parto, porque a dor do mesmo era suposto ser o castigo de Deus a Eva e descendentes.

Gente como vocês tem feito com que gerações após gerações, em países mais pobres, vivam em fome e miséria, devido à condenação do uso de contraceptivos. Tem impedido que se cure doenças como a de Parkinson, porque isso envolve tipos de pesquisa que ofendem as vossas susceptibilidades.

E agora não têm nenhum problema em condenar mulheres e crianças a vidas inteiras de sofrimento, só por causa de “slogans” retrógrados que têm nas cabecinhas sem realmente terem alguma vez pensado no assunto.

A sério, deixem o mundo em paz. Já provocaram mal que chegue.