Entradas com Etiqueta ‘Ateísmo’

Ideia: blog de ateísmo em português

Quinta-feira, 11 de Fevereiro, 2010

Já escrevi aqui alguma coisa sobre ateísmo e religião, provocando as respostas do costume (“se não és um teólogo não podes falar do assunto”, “não percebes nada disto”, Pascal’s Wager, etc., bem como, talvez mais ainda, “se falas tanto nisto é porque no fundo acreditas” ou “és tão fanático como eles”, que, na melhor das hipóteses, são um “isto não me interessa, logo não é legítimo falares do assunto”… e se isso é a melhor das hipóteses, imaginem as piores). Mas ando com alguma vontade de escrever mais sobre o assunto, o que realmente se poderia tornar chato para quem 1) queira ler o meu blog pessoal mas não tenha interesse no assunto, e 2) leia o blog pelo PlanetGeek; acho que um blog maioritariamente sobre ateísmo (ou sobre religião, ou sobre política, ou…) não faz realmente muito sentido estar agregado lá (se bem que longe de mim reclamar se aparecer lá algum assim).

Assim sendo, ando há tempos a pensar em criar um novo blog, começando por copiar para lá os posts que fiz aqui sobre o tema. Ainda não decidi completamente se o vou fazer, mas a coisa está encaminhada nesse sentido, já que, caso não o faça, vou sempre estar a “auto-censurar-me” ao escrever aqui (ex. “não escrever vários posts seguidos sobre isto”, “ando a escrever demais sobre o assunto”, “não quero que o blog seja isso”, etc.)

A desvantagem óbvia é que antecipo muito menos leitores, já que aqui sempre “atinjo” amigos e o PlanetGeek, enquanto o novo blog vai ser, imagino eu, maioritariamente ignorado pelos primeiros (não tenho amigos que se interessem pelo assunto) e não vai estar agregado no segundo. Mas mesmo assim parece-me ser a coisa certa a fazer; pelo menos escreverei o que quiser sobre o tema, sem “papas na língua”, e na quantidade que quiser.

Não há muita coisa em Portugal sobre este tema. Googlando, descobri uma Associação Ateísta Portuguesa e um Portal Ateu; penso incluí-los (sobretudo o segundo, que parece ter actualizações regulares) na minha leitura diária, mas acho que o foco do que planeio fazer — é só olharem para os posts anteriores — é um bocado diferente, e não vai propriamente haver “competição” entre ambos.

Vai ter leitores? Não sei. Imagino que até apareçam mais brasileiros do que portugueses; nós cá somos muito apáticos em relação a estes temas, sendo essencialmente um país de “Católicos não praticantes”: acreditamos que deve haver algo “superior”, dizemos “meu deus!” como interjeição, e vamos à missa pelo menos em baptizados, casamentos e funerais; ou seja, não somos ateus, de forma alguma, mas também não temos as nossas vidas em geral afectadas pela religião (afinal, os milhões de africanos a morrer por causa da Sida que prolifera graças às monstruosas mentiras do Vaticano “estão lá muito longe”)… excepto, claro, em questões como o aborto e o casamento de homossexuais, em que aí se vê a força da religião, mesmo na sua versão “não-praticante”, e a sua capacidade de impedir a igualdade de direitos, travar o progresso da humanidade, e aumentar o sofrimento.

Bem, quando (e se, se bem que é o mais provável) lançar o site, menciono-o aqui, e não me voltam a ouvir falar disto se se limitarem a ler este blog. 🙂

Ateus, crentes, agnósticos, gnósticos e “apateus”

Quinta-feira, 5 de Fevereiro, 2009

A Sara, simpaticamente, disse num comentário:

Eu não sou religiosa, sou agnóstica, não porque jogo pelo seguro, mas porque não me importa de uma maneira ou outra. Não dou importância a qualquer deus ou religião para perder tempo a achar se existe ou não, simplesmente passa-me ao lado. Se existir, parabéns sr. deus/deusa/deuses, se não existir é-me irrelevante.

O que vou escrever agora não é a discordar da Sara, de forma alguma; é só uma dissertação sobre as várias definições, já que acho que há muita gente que as confunde, e/ou não as conhece todas. Sara, isto não é especificamente para ti, OK? 🙂

Então é assim: há muita gente que vê as coisas como Ateu —- Agnóstico —- Crente, equivalendo esses nomes a diferentes “níveis” de crença num ou mais deuses. Mas isso é uma simplificação exagerada, um bocado como o “Esquerda —- Direita” em política. Tal como neste último exemplo, o melhor é pensar em duas medidas diferentes, que poderiam ser demonstradas num gráfico em duas dimensões:

  “Não dá para saber” “Dá para saber”
“Deus não existe” Ateísmo Agnóstico Ateísmo Gnóstico
“Deus existe” Teísmo Agnóstico Teísmo Gnóstico

Exemplos:

  • qualquer crente fanático / fundamentalista é um crente gnóstico (há algum equivalente em Português a “theist”? “Teu” não me parece ser uma boa tradução… 🙂 )
  • a maioria dos crentes por tradição (comuns nos países europeus com religião estatal, como Portugal) são crentes agnósticos (acreditam que há um Deus, mas nunca poriam as mãos no fogo por isso, nem se preocupam muito com o assunto), ou então “apateus” (já lá vamos)
  • a posição que considero ser racional para um céptico, que só acredita em afirmações quando há evidência, é ser um misto de ateu agnóstico e gnóstico; ou seja, eu sou agnóstico em relação a algum deus, mas sou gnóstico – isto é, afirmo convictamente que não existem – em relação, por exemplo, aos deuses dos 3 grandes monoteísmos na Terra, que têm características específicas e muitas vezes auto-contraditórias, e cujas afirmações em relação a eles, tanto históricas como científicas, são completamente destruídas, you guessed it, pela História e pela Ciência.

Já agora, muita gente auto-descreve-se como agnóstica quando na verdade é “apateísta”. “Agnóstico” significa “é impossível saber se sim ou sopas”, mas não é isso, pois não? “Apateísmo”, vindo de “apatia”, significa “estou-me nas tintas para se existe um deus ou não”. E esse é o caso de quase todos os auto-proclamados agnósticos. Não é que achem impossível saber; simplesmente, não estão realmente interessados no assunto, one way or another.

Por último, uma coisa em que em geral as pessoas não pensam: tanto os “apateus” como os verdadeiros ateus agnósticos são ateus “de facto”, isto é, vivem toda a sua vida no pressuposto de que não há nenhum deus. A diferença principal entre eles e um “verdadeiro” ateu é que não pensaram muito no assunto, não o consideram importante, e nem fazem qualquer tipo de activismo (que se pode limitar a escrever sobre o assunto). Mas, na totalidade das suas vidas, agem exactamente como ateus. Acho importante ter isto em conta, sobretudo quando acusam os ateus de “fanatismo” ou de “precisarmos de tanta fé como os crentes”.

Já agora, a Sara — como suspeito ser verdade para a maioria dos portugueses, pelo menos abaixo dos 60 — é claramente uma “apateia”. 🙂

Um momento para a História

Terça-feira, 20 de Janeiro, 2009

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Como se não bastasse, ele ainda disse uma coisa linda:

"We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus… and non-believers."

Hell yeah! 🙂 Apenas uns anos depois de o Bush Sr. ter dito que ateus não podem ser verdadeiros patriotas nem verdadeiros cidadãos. The tide is turning…