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Lucros, despedimentos, Bloco de Esquerda e colectivismo: a minha resposta

Sexta-feira, 27 de Fevereiro, 2009

Tive vários comentários interessantes ao meu post “Lucros, despedimentos, Bloco de Esquerda e colectivismo”, além de ter discutido o assunto com uma amiga ontem à tarde. Como a resposta às várias questões seria um pouco grande, preferi escrever um novo post.

Primeiro, uma crítica comum foi que eu estava a tirar a mensagem do post do contexto; isto é, que, considerando as várias questões do momento e a polémica à volta deles, o cartaz transmite uma mensagem diferente, que já faz sentido. Bem… se não nego que isso seja verdade (eu realmente não ouço, vejo ou leio notícias de Portugal, em geral), ao mesmo tempo acho que não faz qualquer sentido um outdoor que precisa de “conhecimentos especiais” para lhe apanhar o significado. Assim como não aceito “desculpas de contexto” para as partes na Bíblia Cristã que aceitam a escravatura e afirmam a inferioridade e necessária submissão das mulheres, também não posso aceitar que um cartaz necessite do consumo dos “media” portugueses para poder ser correctamente interpretado, e que não possa ser criticado apenas pelo que efectivamente lá está escrito. E o que lá está escrito é isto: (em tempo de crise) quem tem lucros não pode despedir. Se queriam dizer outra coisa, escrevessem outra coisa.

De qualquer forma, já a prever isto, antes de escrever o post fui ao site do Bloco ver se aquele anúncio estava inserido nalgum contexto. Descobri-o num PDF, e todo o discurso à volta não contradizia a minha interpretação: têm imensos lucros (o que, na definição de um partido destes, imediatamente torna alguém corrupto, desonesto e imoral), logo não deviam poder despedir ninguém. Same old, same old.

Passando à frente desta questão, disseram-me que o problema é que empresas multinacionais vieram “brincar” a Portugal, e, como os lucros não são o que esperavam, “fartam-se da brincadeira” e fecham, deixando assim imensa gente no desemprego. Eu entendo a posição de quem perde o emprego desta forma, mas ao mesmo tempo… qual é a solução deles? Impedir a empresa de fechar? E como é que isso se faz? Raptando os donos e impedindo-os de sair do país? Insinuar que uma empresa não pode fechar se o quiser fazer é tão absurdo como dizer que um empregado não se pode demitir, porque é “propriedade” da empresa. E o facto de ela ter lucros ou prejuízo não faz aqui qualquer diferença.

Uma questão diferente é um engravatado imundo (lá estou eu nos pleonasmos) despedir 1000 empregados abaixo dele porque isso fará aparentar aos superiores dele que ele poupou dinheiro e por isso é muito “eficiente”, recebendo ele assim um substancial bónus, que para ele é mais importante do que o emprego de mil pessoas. Aqui considero, sem dúvida, que a atitude desse engravatado é repugnante de um ponto de vista ético e moral… mas, mais uma vez, qual é a solução? Não se pode travar um caso destes sem travar despedimentos em geral, e o direito a despedir é tão vital como o direito a demitirmo-nos. As pessoas “precisam” do emprego que têm? Desculpem se isto parece elitismo da minha parte, mas eu acredito que um emprego não é caridade, mas sim uma troca justa e voluntária (para ambas as partes) de valores entre empregador e empregado; ao demitir um empregado competente, uma empresa só se prejudica a ela própria. O empregado não é competente, mas “precisa” muito do dinheiro? Lamento, mas não me compadeço com isso. Não acho que alguém tenha “direito” a um emprego (mesmo não produzindo nada de jeito) só porque “precisa muito”.

O problema aqui é que, para muito boa gente, “carreira” resume-se ao seguinte: aprender meia dúzia de skills na adolescência, e depois passar o resto da vida a fazer a mesma coisa, como um autómato, até à reforma. Ter de aprender algo novo é o maior terror da vida destas pessoas. É suposto eu ter compaixão? Só a terei se efectivamente for caso de deficiência física ou mental, em vez de apenas preguiça, arrogância anti-intelectual, e/ou orgulho na sua ignorância (o tão comum “faço isto há 20 anos e nunca tive de saber desta m…”). Aprender novos skills nunca fez mal a ninguém.

Por último, pôs-se outra questão: o facto de o estado estar a dar milhões a empresas que têm lucro, e mesmo assim essas empresas fazerem despedimentos colectivos porque querem mais lucro (ou maiores bónus para os seus directores). Aqui, sem dúvida que me enojo. Mas a solução, para mim, é o estado deixar de ajudar estas empresas. Isto parece-me óbvio… porque é que toda a gente vê a coisa ao contrário (as empresas continuam a receber ajuda, mas têm de fazer caridade)? O que é que o estado está a fazer a ajudar empresas que não sejam startups, já agora? Se empresas grandes têm lucros, não precisam obviamente de ajuda; se têm prejuízo… bem, voltamos à questão do colectivismo: serei só eu a ver um problema em usar impostos pagos por empresas eficientes para suportar empresas ineficientes? Isso não é punir a competência e recompensar a incompetência, criando inevitavelmente mais e mais desta última?

Lucros, despedimentos, Bloco de Esquerda e colectivismo

Quinta-feira, 26 de Fevereiro, 2009

Nos últimos dias, ao regressar a casa, vejo na IC19 este outdoor do Bloco de Esquerda:

Bloco de Esquerda: Quem tem lucros não pode despedir

Serei eu o único a ter um grande problema com a mensagem transmitida?

Um pequeno à-parte: a minha posição política não é simples de definir. Não concordando com a habitual divisão em “esquerda” e “direita”, é verdade que em termos sociais estou quase sempre de acordo com a dita esquerda: apoio a descriminalização do aborto, o casamento de homossexuais, a não existência de censura, o fim das regalias à Igreja, e, acima de tudo, a liberdade – mesmo que seja liberdade para fazer coisas com as quais não concordo, ou que certas pessoas não consideram “decentes”.

Por outro lado, em termos económicos, acho que estou no “centro”. Isto é, se por um lado não partilho completamente da filosofia da Ayn Rand (que admiro muito, e cujos livros adoro, apesar de certas preferências sexuais meio curiosas) de um estado/governo totalmente minárquicos – ou seja, acho que o estado deve assegurar certos serviços essenciais, sem no entanto proibir ou punir a competição com ele próprio nesses mesmos serviços –, por outro lado, não gosto de ideias como “economia planeada”, “ter direito a um emprego”, “guerra de classes”, e a descrição de quem tem sucesso como “latifundiário” ou outros termos menos ridiculamente antiquados.

E é por isso que – e desculpem-me os eventuais bloquistas a ler isto – considero este anúncio totalmente repugnante, sob todo e qualquer ponto de vista ético, moral, social, lógico, o que lhe quiserem chamar.

Por um lado, a parte do “não pode despedir”. Isso quer dizer que um empregador tem o “dever social” (yuck) de sustentar qualquer tipo de parasita? Por muito incompetente e inútil que este seja? Por muito que esteja claramente a explorar o sistema? Quer dizer que qualquer pessoa (e reparem que não digo “trabalhador”) tem o direito (yuck again) a um emprego, independentemente do que faz ou não faz? Que o empregador não tem qualquer voto na matéria, porque o trabalhador, por muito incapaz que seja, “merece” (triplo yuck) um emprego, e o empregador em questão foi o escolhido para o dar?

Sou só eu a achar que ao recompensar-se os parasitas se pune os trabalhadores competentes… e se cria mais parasitas?

Por outro lado, o “quem tem lucros”. Quer isto dizer que ter sucesso – ser competente – dá a alguém obrigações adicionais? Que o melhor é seres completamente incompetente e não dares nas vistas, ou alguém vai decidir que tem “direito” ao fruto do teu trabalho, e o estado ideal do Bloco de Esquerda vai-lhe dar razão? Que a única forma de não seres legalmente e humilhantemente roubado é seres – ou aparentares ser – totalmente incapaz? Que, mais uma vez, a competência, produtividade e honestidade são punidas?

E depois dizem que o país não avança…

O Problema do Colectivismo

Quinta-feira, 26 de Outubro, 2006

Primeiro post do “novo” Ostras! Espero que não se assustem. 🙂

Quem me “aturou” pessoalmente durante os últimos anos, especialmente no meu último emprego, sabe que eu tenho um grande problema com o colectivismo: basicamente, acho que é um dos sistemas / filosofias mais anti-vida e anti-humanidade que podem existir… e, no entanto, quase toda a gente com quem falo tem a ideia oposta.

Já agora, “colectivismo” é um termo que se usa pouco por estes lados. Logo, é melhor começarmos por uma curta definição: “colectivismo” é qualquer sistema que diga que o grupo é mais importante do que o indivíduo, e que o segundo se deve – por obrigação moral, se não legal – sacrificar-se ao primeiro.

Isso é a definição mais básica. Curiosamente, a maior parte dos “colectivistas” (e eles são a maioria da humanidade) não pensa em si como tal (daí as aspas), nem tem essa definição em mente. Ninguém diz (ou pensa) algo como “eu sou colectivista”, mas as suas ideias e acções revelam-no.

O exemplo mais comum de filosofia colectivista é o comunismo, ou a sua “versão soft”, o socialismo. Mas também o há no fascismo, por exemplo. Ou nas religiões mais comuns no ocidente, como o Judaísmo, Cristianismo e Islão. Todas estas filosofias promovem o sacrifício do indivíduo a algo (“o povo”, “a sociedade”, “o Estado”, “Deus”). (O oposto a isso é uma filosofia que não fale de sacrifício, mas que, pelo contrário, nos diga que pertencemos a nós próprios. Mas essa fica para um post futuro. :))

O colectivismo, no entanto, vai mais longe do que a simples questão de “sacrifício pelo grupo”; há outras ideias que se fazem também parte do mesmo. É uma filosofia “pequena”, anti-elitista (e refiro-me a elitismo “bom”, de ser melhor, não a elitismo “mau”, de ter mais meios ou influência), anti-intelectual, que odeia o heróico e idolatra o medíocre. É o acreditar numa humanidade homogénea, em que ninguém é melhor ou mais capaz do que ninguém; um génio, segundo um colectivista, não passa de alguém que teve mais “sorte”, e que deve tudo o que conseguir a essa “sorte”. É a ideia de que não há “certo” e “errado”, mas que a sociedade – a maioria – é que decide o que é “certo” e “errado”. Que não há princípios fundamentais. Que não há direitos básicos do ser humano, acima dos caprichos da sociedade; se muitos decidem sacrificar um, para o colectivista, esse um perde qualquer direito.

É uma filosofia que nos diz que o sucesso deve ser punido e o fracasso recompensado. Que nos diz que um criminoso não merece punição, mas ajuda, por ser uma “vítima da sociedade”. Que diz que alguém que obtenha sucesso, o conseguiu necessariamente explorando e pisando os outros – é impossível que o tenha merecido, de alguma forma. Que quem é competente tem deveres para com quem é incompetente.

Politicamente, o colectivista (seja qual a sua cor política) acredita num Estado poderoso, vasto, que interfira (mas sempre de forma “benevolente”, claro) ao máximo na vida de cada um, legislando a moralidade aqui, redistribuindo riqueza ali (sem se preocupar se está a tirar a quem produziu e dar a quem não lhe apetece trabalhar; afinal, a única coisa que conta é a necessidade).

É um modo de pensar relativista, que diz que todas as ideias são igualmente válidas, e ter certezas é “arrogante”. Que diz que um serial killer ou um violador não são criminosos, mas apenas têm um modo de pensar “diferente” do teu – e quem és tu para dizer que estás certo e eles estão errado? Como é que alguém pode ter a certeza de alguma coisa?

Estamos ou não estamos rodeados de colectivistas? Eu acho que estamos. Em Portugal… e no resto do mundo, pelas notícias que leio lá de fora.

[EDIT:] Mais relacionado do que parece: A Cultura da Mediocridade. Não acho que os States sejam tão bons como o Mário sugere, mas concordo a 100% em relação ao nosso próprio caso. Odiamos o heróico e idolatramos o medíocre – e as poucas excepções individuais são raríssimas, e normalmente atacadas como sendo “arrogantes” e “elitistas”.