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Greta Christina: “Não sou religioso, mas acredito em *algo*”

Quarta-feira, 6 de Maio, 2009

O segundo post da Greta Christina que estou a abordar nesta mini-série de três chama-se Not Religious, But Spiritual, e “ataca” precisamente quem tem esta forma de “religião diluída”, em que se rejeita qualquer religião organizada ou interpretação literal usada pelas mesmas, mas ao mesmo tempo se afirma ter uma ligação pessoal com algo “superior”, algo “mais elevado”, sem nunca se definir (ou pensar em) exactamente o quê.

People use it to mean they believe in something other than the physical world: they don’t know exactly what, but they’re pretty sure it’s something.

Já haveria muito que criticar aqui, mas já lá vamos. 🙂

Now, when I’m in a generous mood, I see this trope as coming from a totally valid desire to not be connected with the horrors of organized religion… while, at the same time, still feeling some sort of personal, emotional experience that the trope-holder thinks is a connection with God. (Or the Goddess, or the spirit world, or whatever.) The people who say it are trying to separate the wheat from the chaff; to take what they need and leave the rest. And while I think their interpretation of their experience is mistaken — I think it’s all chaff — I can certainly understand the impulse.

And sometimes, like deism, the "spiritual but not religious" trope is a gateway drug, a baby step out of religious belief. For people who are questioning religious belief but have been brought up to believe that religion is the source of all morality and meaning, "spiritual but not religious" can be a way to begin to let go of their beliefs without feeling like they’re stepping into the abyss. And I can definitely be generous about that.

Mas…

When I’m in a less generous mood, though, I see this trope as totally smug and superior, without anything to back it up. I see it as a way of saying, "I am so special and independent, of course I don’t have anything to do with that hidebound organized religion, I’m far too free a spirit for that… but I’m also special and sensitive, and in touch with the powerful sacred things beyond this mundane world."

E se isto fosse o pior…

O problema, tal como a primeira citação dela neste post o demonstra, é que tudo isto não passa de uma tremenda preguiça intelectual: “há algo superior, mas não sei o quê… nem quero saber.” O que é, não é importante. Eu acredito em “algo”, e pronto; isso faz-me sentir bem, faz-me sentir superior a quem não acredita, faz-me sentir que não sou limitado ao “materialismo frio” do mundo físico, e isso é tudo o que importa.

Isto acaba por ser pior do que uma religião formal: em vez de se acreditar em algo definido sem qualquer tipo de evidências, acredita-se em algo indefinido sem qualquer tipo de evidências. É ser “espiritual”, é “acreditar”, sem se saber exactamente no que é que se acredita.

Ela critica também (e muito bem) a ideia de que a moralidade vem do sobrenatural:

Rather more importantly, I think the "spiritual but not religious" trope completely plays into the idea that religious belief — excuse me, spiritual belief — makes you a finer, better person. There’s a defensiveness to it: like what the person is really saying is, "I don’t attend any religious services or practice any religious practice… but I’m not a bad person. Of course I still feel a connection to God/ the soul. I haven’t totally descended to the gutter. What do you take me for?" It gives aid and comfort to the idea that value and joy, transcendence and meaning, have to come from the spiritual — i.e. the world of the spirit, the world of the supernatural.

… o que já é suficientemente triste, além de imoral (a ideia de que a moralidade se resume à obediência aos caprichos de determinado ser, por muito poderoso que ele seja, é a maior corrupção da moralidade que pode existir).

Mas, mais do que tudo, esta atitude demonstra uma totalmente cobarde ausência de curiosidade em relação ao mundo em que vivemos… tão cobarde é ela que origina a rejeição desse mundo pelos crentes.

If being "spiritual but not religious" really does mean thinking of yourself as being in touch with the special sacred things beyond this mundane physical world… then I think that shows a piss- poor attitude towards the mundane physical world.
The physical world is anything but mundane. The physical world is black holes at the center of every spiral galaxy. It is billions of galaxies rushing away from each other at breakneck speed. It is solid matter that is anything but solid: particles that can’t be seen by even the strongest microscope, separated by gaping vastnesses of nothing. It is living things that are all related, all with the same great- great- great- to the power of a zillion grandmother. It is space that curves, continents that drift. It is cells of organic tissue that somehow generate consciousness and selfhood.

When you take the time to learn about the mundane physical world, you find that it is anything but mundane.

And I think that the "I don’t follow any organized religion, but I know that there has to be something more to life than what we see" is doing a serious disservice to the astonishing and complex vastness of what we see.

Eu acrescentaria ainda que uma pessoa realmente honesta – como parecem haver poucas, hoje em dia – facilmente reparará – ou admitirá, quando lhe apontarem isso – que o “eu acredito em algo mais elevado” quase sempre quer na verdade dizer “eu quero acreditar em algo mais elevado.” “Eu quero que exista algo mais elevado.” E não acham isto meio… infantil? Acreditar em algo só porque queremos que seja verdade, ou porque a crença nos é confortável?

Greta Christina: música nova, nostalgia, e o perigo de se ficar um “velho resmungão”

Terça-feira, 5 de Maio, 2009

(Nota: este é o primeiro de 3 artigos a divulgar e comentar posts recentes da Greta Christina, cujo blog é das coisas mais inteligentes e interessantes que para aí andam.)

O post em questão chama-se Against Nostalgia, or, I’m In Love with the Modern World: On Not Being a Crank, Part 2. Título um bocado grande 🙂 , mas faz sentido. Como o mesmo implica, é a continuação de outro post dela, ambos tendo como tema a preocupação dela de, com a idade, não ficar “resmungona”, fechada, presa aos seus hábitos, a dizer mal de tudo o que é novo, e assim por diante. Mais ou menos como estes tipos (ela própria usa esta imagem):

velhos-marretas

Neste caso específico, ela refere-se à música, mas o que ela aqui diz podia adaptar-se a qualquer outro campo. Ela avisa quanto à possibilidade de ficarmos presos à nostalgia (coisa muito forte em mim, se bem que não acho que ela me limite, pelo menos por agora – but, then again, tenho uns meros 34 anos), que facilmente faz com que vejamos o passado – quase sempre, a época da nossa adolescência ou princípio dos “vintes” – com “óculos cor-de-rosa”, e fiquemos presos a isso, rejeitando tudo o que há de novo. Ela propõe-se o seguinte:

Listen to music that’s being made now.

My rule is this: I don’t let myself just listen to music that was recorded when I was in college and my early twenties (or earlier). I make a conscious effort to listen to at least some music that’s being made now, by musicians and bands who are still alive and still working. (And no, reunion tours don’t count.)

Olhando para mim, eu acho que não estou (para já) muito mal neste aspecto. É certo que muita da música que ouço – Black Sabbath, Pink Floyd e afins – tem origens relativamente antigas (anos 60), se bem que continuaram a fazer música nova até aos anos 90, e eu continuei a segui-la (ou explorá-la, no caso dos Pink Floyd, que só “descobri” bem depois). É também certo que o que ouço em geral não está de forma alguma na moda, se bem que me posso orgulhar de isso não ter qualquer influência nos meus gostos – ou seja, se por um lado não ouço algo só por estar na moda, também não o ouço só por não estar, ou não deixo de o ouvir só por estar. O anti-conformismo cego é tão estúpido e “em segunda mão” como o conformismo cego. 🙂

Acredito também que não rejeito algo – banda, álbum, música – só por ser novo. Em geral afasto-me um bocado da rádio e afins, mas não por na mesma se ouvir música moderna; é, sim, por se ouvir música de plástico, comercial, e em geral toda igual. Não assumo isso em relação a tudo o que se faz; apenas àquilo que, por razões comerciais compreensíveis, as rádios em geral passam. Mas se me mostrarem algo muito bom e for o primeiro álbum de um novo artista ou banda, vamos a isso. Acredito que isso ainda é assim. Por outro lado, é um facto que continuo a seguir bandas da minha “juventude”, como Iron Maiden, Judas Priest, Blind Guardian, ou membros e ex-membros dos Black Sabbath.

Mas muita gente que seja tão ou mais discernente do que eu, e em idades semelhantes ou superiores à minha, dirá que “a música de hoje é toda igual, é toda uma merda”. Será verdade? Eu próprio tenho um pouco essa ideia (se bem que estou sempre preparado para abrir excepções). Mas a Greta Christina diz algo em que ainda não tinha pensado:

I think there are two things that make it easy to think everything was better in the good old days. There’s Sturgeon’s Law — and there’s the filtering process of time.

Sturgeon’s Law states, quite simply, that 90% of everything is crap. Romantic comedies, symphonies, science fiction novels, porn videos, dress designs, epic poems, comic books, popular music… 90% of all of it is crap.
But time has a tendency to filter out the crap. We don’t listen to the mediocre 18th century operas; we don’t read the mediocre 19th century novels; we don’t watch the mediocre silent movies. We listen to Mozart, read Jane Austen, watch Buster Keaton. We listen to Janis Joplin and The Who. “To Sir With Love”? Not so much.

It’s not a perfect filtering process. Some good stuff gets filtered out; some mediocre crap gets through the screen. But on the whole, we let the crap get swallowed into the maw of history, and hang onto the good stuff. Which makes it very, very easy to mistakenly think that the operas and novels and movies and popular songs of the old days were so much better than any of the crap they’re making today.

Acho que isto é inteiramente verdade. Acrescentaria ainda que uma música que conhecemos e ouvimos há anos é como um “velho amigo”; conhecemos cada nota, cada sílaba. Algo acabado de ouvir pela primeira vez, sobretudo em géneros mais complexos, soa… estranho; muitas vezes um álbum inteiro parece “todo igual”, porque as melodias precisam de algum tempo para serem absorvidas. A música, tal como o vinho 🙂 é, em grande parte, um gosto adquirido – se rejeitamos algo à primeira vista (ou audição, neste caso), estamos a pôr de parte coisas que poderíamos vir a adorar.

Relativamente ao “dantes era tudo muito melhor”, querem um desafio? Pensem naquela que consideram a “época de ouro” da música, aquela altura em que adoravam o que se fazia na altura, aqueles anos nos quais se inclui mais de metade da vossa colecção de MP3s. Provavelmente é a vossa adolescência. É bem provável que sejam os anos 80.

Agora, investiguem o que estava nos tops em várias semanas / meses nesses anos. Não apenas as músicas da altura que ouvem hoje. Vejam mesmo o que estava efectivamente nos tops. Há formas (a net é uma delas, assinar a Retro Gamer é outra 🙂 ) de o saber.

E digam lá quantas músicas conhecem. E quantas foram esquecidas pelo mundo desde essa altura. Vejam também quão horríveis algumas são. 🙂

You know what? If what you truly love is old- time bluegrass or ’60s psychedelia? That’s cool. It might behoove you to check out some modern music anyway — there are contemporary musicians doing some interesting interpretations of bluegrass and psychedelia — but life is too short to listen to music that you hate. There are wonderful things from the past, and by all means, we should be enjoying them and preserving them and keeping them alive.

But we shouldn’t treat our aesthetic preferences as a moral imperative. We shouldn’t pretend that it’s a serious life philosophy to gripe about kids these days and their crazy fashions. We shouldn’t act as if shutting out the modern world somehow makes us discerning and superior.

Adoro o último parágrafo. E isto é algo que vejo, infelizmente, em pessoas até mais novas do que eu: tratar o “só gosto disto” como uma questão de princípios a não trair, fechar-se completamente a coisas novas, e achar que dizer mal de tudo os faz ser (ou pelo menos parecer) superiores. É triste.