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Coincidências, “Signs”, e afins…

Terça-feira, 3 de Fevereiro, 2009

Li recentemente (suponho que para infelicidade dele 🙂 ) o post do Mário Gamito sobre o monólogo do Mel Gibson no "Signs" do M. Night Shyamalan, que passo a citar (imagino que o Mário não se importe com o copy & paste; afinal, isto vem de um filme):

People break down in to two groups. When they experience something lucky, group number one sees it as more than luck, more than coincidence. They see it as a sign, evidence, that there is someone out there watching out for them. Group number two, sees it as just pure luck, a happy turn of chance. I’m sure that people in group number two are looking at those fourteen lights in a very suspicious way.
For them, the situation is a fifty-fifty: could be bad, could be good. But deep down, they feel that whatever happens, they’re on their own and that fills them with fear.
Yeah, there are those people. But there’s a whole lot of people in the group number one. When they see those fourteen lights, they’re looking at a miracle and deep down, they feel that whatever is going to happen, there will be someone there to help them and that fills them with hope.
See, what you have to ask yourself is what kind of person are you ? Are you the kind who sees signs, sees miracles ? Or do you believe that people just get lucky ?
Or look at the question this way: is it possible that there are no coincidences ?

A razão pela qual não respondo a isto no blog do Mário, como pensei inicialmente fazer, é que eu chego exactamente à conclusão oposta, e isto tende a ser um assunto “sensível” para muita gente. Prefiro, assim, responder aqui – não ao post do Mário, que não afirma nada, só implica, mas ao personagem do Mel Gibson – e, por conseguinte, ao Shyamalan, que pelos vistos entrou na sua “fase religiosa” com este filme (da qual aparentemente ainda não saiu), depois de ter feito dois que eu adorei de uma ponta à outra1.

A questão aqui é a seguinte: no universo do filme efectivamente não há coincidências. Tudo acontece por uma razão, e há um ser superior a cuidar de tudo. Porquê? Porque o autor do filme assim o determinou, obviamente. Isto chama-se “ficção”. Considerando o que acontece no filme (e esquecendo a idiotice de extraterrestres ultra-mega-vulneráveis à água invadirem um planeta que visto do espaço tem este aspecto), o personagem tem todas as razões para acreditar nisso. É um universo em que não há coincidências, sem dúvida, em que tudo tem um significado, mesmo que este só seja visível anos ou décadas depois. Se ele mesmo assim não acreditasse nisso, seria o típico flat earth atheist, alguém que não acredita em magia num mundo em que ela acontece, que não acredita em deuses num mundo em que eles interagem connosco regularmente.2

Felizmente ou infelizmente (eu fico-me pela primeira), o universo em que vivemos não é como o universo do “Signs”. É um universo em que não há ninguém a segurar-nos na mão, em que coincidências a todo o momento, que não acontecem por nenhum desígnio ou razão especial. Um universo que não cuida de nós, em que não somos o centro do mundo, e em que, limitado pelas leis da física, tudo pode acontecer. Um universo em que temos de ser adultos, e não crianças, em que o wishful thinking e “leis da atracção” não funcionam, em que toda a fé do mundo não consegue fazer um grão de areia mover-se um milímetro.

Este universo parece cruel, não é? Mas não o é, realmente. Uma pedra, um rio, uma montanha, um oceano não são cruéis. É infantil (e antropomórfico) estarmo-nos a afogar e culparmos o mar pela sua “crueldade”. Infelizmente, é o que muita gente parece fazer em relação ao universo em que vive: querer que ele (ou algo nele) nos “segure pela mão”. Porque a realidade assusta.

Sem dúvida que pode assustar. Muito. Também me assusta a mim, por vezes, e isto apesar de não ver deuses nem demónios nem espíritos nem nada sobrenatural que seja impossível para mim compreender. Mas é o que temos.

Agora, podes sentar-te num canto e chorar, ou levantar-te, ver as coisas como são (e não como gostarias que fossem), ser honesto com a realidade em que vives, ir à luta, e crescer.

  1. sim, o “Unbreakable” é genial, e se não o acham, é porque não perceberam nada. 🙂 []
  2. curiosamente, há muitos crentes que vêem todos os ateus como flat earth atheists… mas isso fica para outro post. []